— Talvez o Rômulo
mudasse. Sei lá! Acontece, né?
— Por você?
— E por que não?
— Ninguém muda
assim, Luciana.
Rômulo não mudou.
Não mudou nem por ele, por que mudaria por sua, por sua, por sua... esposa?
— Loucura, Amanda.
Hoje sei que foi loucura.
— E hoje?
— Estou bem.
Mentira. Péssima! Não aguento a cobrança da minha família. Minha irmã até se
esforça para me dar apoio. O problema mesmo é a minha mãe. Como aquela mulher
me acusa!
— Mulher?
— Sim, a minha mãe.
— E o seu pai?
— Meu pai... Ah,
meu pai anda calado como sempre. Desconfio até que morreu quando entrei na
puberdade.
O casamento durou
menos do que o esperado, porém mais do que a sanidade de Luciana poderia
suportar.
— Sabe, eu sabia
dos casos do Rômulo. Bem, creio que não de todos. Ele chegava cheirando a
perfumes... Sabe, perfumes baratos, outros que eu não poderia pagar.
Algumas lágrimas, a
psicóloga ofereceu uma caixa de lenços para a paciente.
— Obrigada.
— Você está...
— Bem?
— É.
— Estou ótima!
Sabe, Amanda, eu me cuido, eu quase me conheço.
— Luciana, você não
precisa...
— Ser forte?
— É.
— Não sou. Sorte
mesmo tiveram os nossos filhos que não tivemos.
Paciente e
psicóloga se entreolharam por um instante. Luciana fingiu um sorriso, olhou o
relógio fixo na parede.
— O nosso tempo
acabou, doutora. Semana que vem desabafo mais algumas das minhas derrotas.
Luciana se levantou e, decidida, resolveu ir ao cinema. Não seria naquele dia que desistiria.
- Nota de esclarecimento: O conto "Por um fiapo" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 24/9/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/por-um-fiapo/

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