quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Por um fiapo

     

    Luciana escolheu esperar. Esperou até que o seu casamento mal se sustentasse por um fiapo do que ela um dia imaginou uma poderosa corda.

    — Talvez o Rômulo mudasse. Sei lá! Acontece, né?

    — Por você?

    — E por que não?

    — Ninguém muda assim, Luciana. 

    Rômulo não mudou. Não mudou nem por ele, por que mudaria por sua, por sua, por sua... esposa?

    — Loucura, Amanda. Hoje sei que foi loucura.

    — E hoje?

    — Estou bem. Mentira. Péssima! Não aguento a cobrança da minha família. Minha irmã até se esforça para me dar apoio. O problema mesmo é a minha mãe. Como aquela mulher me acusa!

    — Mulher?

    — Sim, a minha mãe.

    — E o seu pai?

    — Meu pai... Ah, meu pai anda calado como sempre. Desconfio até que morreu quando entrei na puberdade.

    O casamento durou menos do que o esperado, porém mais do que a sanidade de Luciana poderia suportar.

    — Sabe, eu sabia dos casos do Rômulo. Bem, creio que não de todos. Ele chegava cheirando a perfumes... Sabe, perfumes baratos, outros que eu não poderia pagar. 

    Algumas lágrimas, a psicóloga ofereceu uma caixa de lenços para a paciente. 

    — Obrigada.

    — Você está...

    — Bem?

    — É. 

    — Estou ótima! Sabe, Amanda, eu me cuido, eu quase me conheço.

    — Luciana, você não precisa...

    — Ser forte?

    — É.

    — Não sou. Sorte mesmo tiveram os nossos filhos que não tivemos.

    Paciente e psicóloga se entreolharam por um instante. Luciana fingiu um sorriso, olhou o relógio fixo na parede.

    — O nosso tempo acabou, doutora. Semana que vem desabafo mais algumas das minhas derrotas.

    Luciana se levantou e, decidida, resolveu ir ao cinema. Não seria naquele dia que desistiria.

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