quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A redenção dos cafonas

     

    Euclides sempre me pareceu um tipo incomum. Andava com um caderninho e uma caneta no bolso da camisa. Vez ou outra, eu o peguei escrevendo algo. Nesses momentos, ele parecia compenetrado e, logo após, devolvia os objetos ao bolso, cofiava o fino bigode e lançava um breve e quase imperceptível sorriso em direção aos próprios sapatos, sempre impecavelmente engraxados. 

    Certa feita, a rua inteira resolveu fazer uma grande fogueira de São João. Cada um contribuiu com o que pôde. Euclides apareceu com dois bolos de milho e uma garrafa de quentão. Colocou as iguarias sobre a vasta mesa e foi se sentar junto à velha guarda. Ficou por ali até que dona Lourdes, com aquele jeitinho de convencer a todos nós, puxou o sujeito para um arrasta-pé. 

    Lá estava aquele casal improvável bailando ao som de Luiz Gonzaga. Pasmei. Pasmei aos quinze anos. Não imaginava que gente daquela idade pudesse ter aquela desenvoltura. Que o rock and roll ainda me parecia o único caminho para confrontar o mundo. Que mundo? Forró? Baião? Que coisa mais cafona! Cafona era eu, no auge da arrogância adolescente.

    Outro choque foi ouvir aplausos e elogios ao velho Euclides e à gorducha da dona Lourdes. Na minha cabecinha, aquela gente nem deveria sair de casa, ainda mais tomar conta de todos os olhares. Uma afronta aos donos da rua, a minha galera da pesada. Vestíamos calças Lee, jaquetas ornadas com broches que deveriam chocar. Que nada! Ultrapassados éramos nós, coisa da juventude que copia seus ídolos e fecha os olhos para o que acontece ao redor. 

    Passei o resto do ano encucado com o Euclides até que, do nada, eu me peguei batucando Martinho da Vila. Tentei conter meus impulsos, escondi essa descoberta da minha turma. Não deu outra, todos já estávamos contaminados. Criamos até um grupo musical. O nome? Os Euclides. 

    Nosso sucesso nunca foi além da nossa rua. Todos já estamos calejados pelo andar da carruagem implacável do tempo. Há tempos o Euclides não está entre nós. A dona Lourdes continua gordinha e adora dançar. Já dançou com todos os músicos do nosso grupo. E vida que segue. Qualquer dia desses vou perguntar para a dona Lourdes se ela sabe o que o Euclides anotava naquele caderninho.

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