Boa de prosa era a
Judite. E tinha histórias para todos os tamanhos e sabores. Se o sujeito
pedisse um causo de assombração, a mulher retirava da cartola algo de arrepiar
o cabra mais metido a valente. Se fosse diversão, já saía uma piada de salão ou
de tapar os ouvidos de vergonha.
Por coincidência de
destinos, vez ou outra, Judite e Saraiva compartilhavam uma terça ou
quarta-feira na mesa mais ao fundo. Camilo, o garçom mais tarimbado do boteco,
parecia entender por telepatia o pedido daqueles dois. E, assim, uma garrafa de
cerveja e dois copos limpos eram enchidos. Colarinho sim, porém sem
exageros.
Breves cumprimentos
de cabeça, sorrisos discretos. Camilo se virava e ia atender outros clientes.
Em seguida, Judite e Saraiva, copos erguidos, brindavam.
— Tu é porreta,
Judite.
— Tu também não é
dos mais fracos.
Camaradas que eram,
trocavam farpas sem pontas durante horas. Raramente convidavam alguém para se
sentar. Em vez de prosa ruim, fingiam ébrios. Não seriam eles que trocariam
mais um gole por gente chata.
Havia uma fofoca
que corria no local, mas que a maioria nem levava a sério. Crendice boba,
diziam. Como se fosse coisa inventada por alguém sem-noção. Judite e Saraiva
teriam sido amantes? Os dois não diziam que sim nem faziam questão de desmentir.
Que fofocassem! De certo modo, até alimentavam o bochicho.
— É verdade,
Saraiva?
O homem fitava o
curioso, mas nada dizia. Judite, por sua vez, apertava a mão do parceiro de
copo e gargalhava. A mulher gostava de provocar. E como provocava!
Entre o que era verídico e boato, todos ficavam na dúvida. Ou melhor, quase todos. Certeza mesmo era algo que apenas os alvos conheciam.
- Nota de esclarecimento: O conto "O pacto do colarinho" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 26/9/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/o-pacto-do-colarinho/

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