Solteirona, vovó
costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a
carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados
pelos lábios da própria mãe.
— Livre, mamãe.
Livre!
— Você nasceu
mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se
aprume antes que seja tarde demais.
Minha avó tinha lá
suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos
nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a
culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.
Talvez o hábito
mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao
lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em
especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.
— Mas, titia,
sou eu, seu sobrinho favorito.
— A gente nunca
sabe o dia de amanhã, Marquinhos.
É engraçado quando
alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns
de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela
figura isolada em inúmeros retratos.
— É a tia
Gertrudes, irmã de papai.
— E por que ela
sempre aparece sozinha?
De vez em quando,
sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as
verdades.
— Ah, é que a tia
Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.
Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.
- Nota de esclarecimento: O conto "Retratos de tia Gertrudes" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 28/9/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/retratos-de-tia-gertrudes/

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