— Desde quinta passada, senhor Afrânio. Não se lembra?
Carlos, o porteiro, me colocou a par da situação. E desde quando me
importo se começou quinta, sexta, o escambau? Aposentado! Que todos os dias se
transformem em uma eterna segunda-feira. Quero mais é ver a cara do povo nos
pontos de ônibus. Tudo lotado, e eu livre, leve e solto. Mas essa chuva...
— Afrânio, eu adoro esse barulhinho gostoso. Dá aquela vontade de
dormir.
Zélia, a vizinha do 608. Que vá arrumar algo para fazer. Nessa idade,
por que não morre? Isso me livraria do barulho dos netos da velha. Aquelas
pestes só provocam algazarras.
Preciso entrar no regime ou comprar roupas novas. Essas já não me cabem.
Chuva. Tudo culpa dessa maldita chuva. Ficar em casa atiça a gula. Um pãozinho
com manteiga, uma bicada no café com leite. E para quê? Só engordo, engordo e
nada mais. Não há dieta que resista a essa chuva. Já deu, São Pedro!
— Senhor Afrânio, deu no rádio que vai até o final de semana.
Carlos novamente. Antes fosse cuidar da portaria em vez de ficar ouvindo
notícias inapropriadas.
— Tem certeza?
— É a previsão. Talvez avance um pouco durante a semana.
— Hum! Chega! Já deu!
Por pouco não mandei o Carlos para as cucuias. Mandei, mas em pensamento. Já deu, São Pedro. Já deu!
- Nota de esclarecimento: O conto "Quase dilúvio" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 17/9/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/quase-diluvio/

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