A mulher deu uns
tapas no velho álbum de fotografia. A camada de poeira ganhou o mundo. Quais
segredos aqueles retratos guardariam?
Uma viagem ao Rio
de Janeiro em 1973. Ainda solteira, Clara ficou deslumbrada com as belas praias
e a ousadia de algumas cariocas. Desejou imitá-las, mas era carente de coragem
para expor o próprio corpo. Um maiô discreto e nada mais.
Depositou o álbum
ao lado de uma pilha de livros. Lá estava um exemplar de Clarissa, de Érico Veríssimo. Ela o acolheu entre os seios, talvez
como recordação de um amor adolescente.
Luciano. Alto,
esguio, cabelos desalinhados, olhos tão escuros e cheios de segredos. O sorriso
com aparelho, algo caro para a época. Clara, aos treze anos, se sentiu, de
alguma forma, atraída pelo rapaz. Amor platônico como outros tantos que teve.
Por onde andaria o Luciano? Teria, ao contrário dela, se casado? Provavelmente
já era avô e ganhara alguns quilos. Certamente, os dentes estavam livres do
aparelho há muitos anos.
Um vinil da
trilha sonora da novela Estúpido Cupido. Clara havia ganhado aquele disco de sua avó Mariana. Ouviu Meu mundo caiu até furar o disco. Não
furou, mas quase.
A coleira da
Princesa, a vira-lata ranzinza, porém grande companheira nas madrugadas de
fossa. Clara, deitada no sofá da sala, a cabeça da cachorra sobre o seu ventre,
ao som de Maysa.
Clara nunca casou,
apesar do quase desespero da mãe. E Luciano teria se casado? Como adolescente,
a mulher deixou-se invadir pelos sonhos. Sorriu.
Fechou a porta do quarto e foi preparar café. Uma xícara apenas. Pegou um pouco de conhaque e despejou duas doses. Amanhã retornaria àquela montanha de lembranças. Melhor, iria ao clube. Longe da perfeição inquieta da adolescência, queria se expor. De biquíni de bolinhas amarelinhas.
- Nota de esclarecimento: O conto "O quarto da bagunça" foi publicado no Notibras no dia 6/9/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-quarto-da-bagunca/

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