sábado, 5 de setembro de 2026

Presente de grego

     

    Gosto de vir ao cachorródromo. É bom para distrair a mente, e a Bolinha se diverte. Ela chegou como um presente de grego de um ex-namorado. O romance não vingou, mas aquela bolinha de pelos ficou. 

        Tem gente nova no pedaço. Aquelas duas parecem confabular ali deitadas na grama, como se alheias ao mundo ao redor. Se pudesse haver diálogo, eis como o imagino:

    — Cadê os seus pais?

    — Estão ali conversando com aquela dona esquisita.

    — A de vestido florido?

    — Sim. Não é cafona?

    — Ah, é a minha mãe.

    — Sério?

    — Não, sua boba. Só queria ver a sua cara.

    Elas iriam gargalhar. Isso ajuda a fazer amizade nessa fase da vida. Três anos?

    — A minha mãe é aquela ali de blusa lilás.

    — Ah, que linda!

    Meu devaneio foi interrompido pela Lúcia, frequentadora assídua do cachorródromo. Ela veio me apresentar o Apolo, um galgo resgatado das corridas clandestinas. Um lindo cachorro, por sinal. Já pensei em ter um, mas creio que não seria uma boa ideia.

    — Por que não pega um pra você, Regina? Seria muito bom. Assim, a Bolinha teria companhia.

    — Não sei, Lúcia. Já estou cansada de cachorro, e a Bolinha já está velhinha. E quero viajar, preciso viajar. Se eu morasse em casa talvez pegaria. Apartamento é complicado pra mim.

    Parece que decepcionei a Lúcia. Ela fez uma cara, meu Deus. Depois sorriu meio de lado.

    — Regina, vou ali conversar um pouco com a Paula. 

    Não sei exatamente quando comecei a frequentar o cachorródromo, a Bolinha estava com dois ou três anos. Talvez menos, talvez mais. Realmente não sei. Hoje, a minha companheira beira os quinze anos. 

    Tanta gente já passou por aqui. Cachorros, então, nem arrisco a dizer quantos. Uns trezentos? Talvez mais. Ih, muito mais!

    Alguns desafetos. Nunca fui do confronto, prefiro observar, quase neutra. Porém, nunca fui com a cara da Fernanda. A velha riponga e seu vira-lata de pelo arrepiado. Será que ela desconfia? Não estou nem aí! Será?

    Volto os olhos para a menina e a buldogue, mas elas não estão mais ali deitadas, provavelmente confabulando. Eram reais ou apenas fruto da imaginação de uma velha? E pensar que a Lúcia ainda quer que eu pegue outro cachorro para criar. Na minha idade? Hum!

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