Um gole,
uma pausa reflexiva. Outro gole e Cássio foi tomado por uma cena a que assistira
em um desses canais de vida selvagem: um búfalo e seis, sete, quinze bocas
famintas. Leões.
O gosto de
café lhe pareceu sanguinolento. O ímpeto de cuspi-lo foi momentaneamente
contido por um resquício de razão. Leões devoravam o pobre animal ainda vivo.
Abriram-lhe o ventre, as tripas esparramadas sobre o chão da savana. Olhos
incrédulos, perdidos diante do doloroso destino.
Impasse
perante a própria vida. Cássio se lembrou de Aurora. Inevitável. Sentiu-se
apunhalado pela mulher que havia lhe prometido amor eterno. Fidelidade.
— Por quê,
Aurora?
— Essas
coisas acontecem, meu amor.
— Amor?
Você ainda tem coragem de me chamar de amor?
— Costume.
A conversa
foi breve, antes não tivesse acontecido. Remoeu, remoeu, remoeu. Todos os
remorsos. Lembrou-se do gosto do primeiro beijo. Gosto de hortelã.
— É o
chiclete, meu amor.
— Quero
esse gosto pra sempre, Aurora!
— Pra
sempre é muito tempo, meu amor.
Pra sempre é muito tempo. Sim, pra sempre é uma eternidade. Gosto de sangue. Cuspiu.
- Nota de esclarecimento: O conto "Gosto de hortelã" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 1º/10/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/gosto-de-hortela/

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