Pizza, churrasco, bebedeiras sem fim.
Tudo acabou. E coxinha? Ih, era a minha perdição. Nem me importava se já
estivesse na vitrine espreitando algum desavisado há dias. Lá estava eu
disposta a abocanhá-la, ainda mais quando era promoção. O óleo vencido escorria
pelos cantos da boca. Que saudade!
Hoje, quando muito, uma fatia de
queijo magro e duas fatias de pão integral. Duas rodelas de tomate. Tomate
orgânico, que não quero dar mole para agrotóxico.
Pois é, eu soube. O Ernesto se foi.
Pensei em dar uma passadinha no cemitério. Dizem que o velório encheu.
Aneurisma, coisa de velho, mas andei pesquisando, pega os jovens também.
Não. Não é possível. Você tem
certeza? Eu jurava que o Ernesto era mais velho do que nós duas. Ah, ele só
era mais jovem do que eu? Sei... Mas a gente nunca sabe quando será a nossa
vez, né, amiga? Vá que você já tenha encontro marcado com Santo Antônio antes de
mim, não é mesmo?
De vez em quando dá vontade de chutar
o balde. Quanta crueldade ter que resistir a um brigadeiro. Será que dois ou
cinco fariam mal?
Certo mesmo seria a gente ser avisada
com pelo menos um dia de antecedência. Dois! Já pensou? Eunice, vai ser
depois de amanhã às 18h43. Ih, eu não iria perder tempo! Faria um banquete só
de coisas proibidas. E fumaria um cigarro atrás do outro. Se bobear, charuto. E
encheria tanto a cara, que era possível até perder o rumo do Céu.
Creio que Santo Antônio entenderia se eu chegasse meia hora atrasada. Talvez um dia ou dois.
- Nota de esclarecimento: O conto "Duas rodelas de tomate e o santo" foi publicado no Notibras no dia 1º/9/2026.
- https://www.notibras.com/site/duas-rodelas-de-tomate-e-o-santo/

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