terça-feira, 1 de setembro de 2026

Duas rodelas de tomate e o santo

    Sabe, ela veio chegando de mansinho, quase me enganou. Quer dizer, não foi fácil percebê-la. A princípio, deixei de lado refrigerantes, o cigarro já havia abandonado quando os olhares de reprovação tomaram conta até dos botecos. Para você ver. Até dos botecos!

    Pizza, churrasco, bebedeiras sem fim. Tudo acabou. E coxinha? Ih, era a minha perdição. Nem me importava se já estivesse na vitrine espreitando algum desavisado há dias. Lá estava eu disposta a abocanhá-la, ainda mais quando era promoção. O óleo vencido escorria pelos cantos da boca. Que saudade!

    Hoje, quando muito, uma fatia de queijo magro e duas fatias de pão integral. Duas rodelas de tomate. Tomate orgânico, que não quero dar mole para agrotóxico.

    Pois é, eu soube. O Ernesto se foi. Pensei em dar uma passadinha no cemitério. Dizem que o velório encheu. Aneurisma, coisa de velho, mas andei pesquisando, pega os jovens também. 

    Não. Não é possível. Você tem certeza? Eu jurava que o Ernesto era mais velho do que nós duas. Ah, ele só era mais jovem do que eu? Sei... Mas a gente nunca sabe quando será a nossa vez, né, amiga? Vá que você já tenha encontro marcado com Santo Antônio antes de mim, não é mesmo?

    De vez em quando dá vontade de chutar o balde. Quanta crueldade ter que resistir a um brigadeiro. Será que dois ou cinco fariam mal? 

    Certo mesmo seria a gente ser avisada com pelo menos um dia de antecedência. Dois! Já pensou? Eunice, vai ser depois de amanhã às 18h43. Ih, eu não iria perder tempo! Faria um banquete só de coisas proibidas. E fumaria um cigarro atrás do outro. Se bobear, charuto. E encheria tanto a cara, que era possível até perder o rumo do Céu. 

    Creio que Santo Antônio entenderia se eu chegasse meia hora atrasada. Talvez um dia ou dois.

Nenhum comentário:

Postar um comentário