Minha adolescência... Passei esse calvário meio que fugindo dos valentões até que resolvi enfrentar os meus
medos. Apanhei. Ih, como apanhei! E as pancadas foram me moldando, a revolta
tomou conta do meu âmago, como se eu pudesse me transformar em Bruce Lee.
Tolices, logo percebi.
Cheguei a maquinar planos, pensei em fazer besteiras, mas a providência, talvez divina, me impediu de cometê-las.
Ainda bem! Há coisas que não devem ser postas em prática. Sabe, creio que eu
não duraria um dia sequer na prisão. Quem sabe, dois ou três. No máximo.
Casei aos trinta. Hoje, ao
olhar para aquele jovem, eu talvez lhe dissesse para esperar alguns anos. Se
fosse mesmo sina, creio que não faria muita diferença. Nem sei se eu seria
feliz ao lado da Joana. Provavelmente não. Será que conseguiria evitar ser o
crápula que fui com aquela mulher? Pobre Joana, suportou tamanhas cretinices do
marido.
E os filhos? Quanto tempo
desperdiçado em reuniões infindáveis, confraternizações no trabalho para receber
aquele aumento esperado... As crianças logo cresceram sem que eu soubesse o que
desejavam ser.
Os netos chegaram de
repente. E eu prometi ser um avô presente. Ranzinza, foi isso que me tornei ou,
então, nunca deixei de ser. Não suportava a algazarra dos meninos, que
naturalmente se afastaram. E quem não faria o mesmo?
A vida é um torrão de açúcar na panela. Se nos distrairmos, ela queima e fica amarga.
- Nota de esclarecimento: O conto "Torrão de açúcar" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 19/9/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/torrao-de-acucar/

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