Minha mãe, talvez por não ter o olfato apurado do Pancho, vez ou outra,
se desculpa pelos genes que herdei.
— Edson, você entende, né? Milhões e milhões de possibilidades, a
combinação não deu muito certo no seu caso. Mas eu te amo, viu?
Não duvido do amor da minha mãe. Digo até que, no caso dela, seja algo
tão entranhado, muito mais do que mero vislumbre pelo belo. Diante da
incongruência com a beleza, mamãe afaga a feiura que produziu. Carregada de
remorso, porém, ela está ali, firme, não arreda o pé.
Simpatia. Esse foi o caminho que decidi trilhar quando cheguei aos vinte
anos. Livre das espinhas, apesar de ainda carregar as marcas que elas
imprimiram no meu rosto, fiz de tudo para extirpar qualquer sentimento
mesquinho que, porventura, cismasse em rondar a minha mente. Tornei-me, creio,
um tipo entre apaziguador e conselheiro. E foi assim que, logo após Ludmila se
embebedar por uma desilusão amorosa, me ofereceu seus lábios pela primeira
vez.
— Te amo, Edson.
Tal frase não carecia de honestidade. Há momentos na vida em que nos
empolgamos, seja por falta de algo ou desilusão. E Ludmila estava carente de
tudo.
O romance, se é que posso chamar assim aquilo que tivemos, não durou
mais do que duas ou três ressacas. Todavia, foi o suficiente para que um certo
orgulho se fizesse presente no meu coração. Por pouco, quase deixei tudo a
perder até que voltei a fingir a simpatia calculada.
Arlete, colega de trabalho, desiludida com o casamento, encontrou em mim
o ouvido perfeito. Pacientemente, escutei todas as lamúrias daquela que se
tornou a mulher da minha vida durante o verão de 1982. E ela me pareceu
perfeita, tantos carinhos, beijos atrevidos que jamais imaginei
possíveis.
Tudo perfeito, até que Arlete, do nada, logo após uma tórrida noite de
amor, despertou, me fitou com aqueles lindos olhos castanhos e foi acometida
por uma sinceridade desnecessária:
— Edson, meu amor, mas tu é bem feinho, hein!?
Acabou ali.
Elaine, Rosana, Marcela, Rita, Ana Flávia, Zenaide... Ah, Zenaide! Que
saudade dos seus afagos. Roberta, tão impetuosa. Vânia, Letícia, Ruth,
Gertrudes, Maria de Fátima... Recordações que me consolam nas noites
solitárias.
A velhice chegou e não me levou a beleza que nunca usufruí. Digo até que eu me acostumei com o reflexo que cisma em aparecer no fundo do espelho quando resolvo me barbear. Pra quê?
- Nota de esclarecimento: O conto "A beleza que nunca tive" foi publicado no Notibras no dia 7/9/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-beleza-que-nunca-tive/

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