Confortável para agir do seu jeito, conversar do seu jeito
com as plantas e os objetos que, vez ou outra, se tornavam caros. Um colar, um
relógio de bolso antigo, uma caneta com o nome do saudoso avô grafado, uma
onça-pintada de pano, presente de sua filha Mariana.
Sentado em uma carcomida cadeira de balanço na sacada do
minúsculo apartamento, Ernesto preferia as horas em que a cidade adormecia. Não
por completo. Era quando as coisas aconteciam, mesmo que camufladas pela
escuridão.
Xícara de paciência nas mãos, Ernesto roubava-lhe um pouco
do calor. Não muito. O frio lhe dava a certeza de que a vida não é perene.
Bebericava de tempos em tempos, tragava o cachimbo teimoso que insistia em
apagar.
— Era só o que me faltava, Joana.
Ernesto fingiu rigidez, como se esperasse ao menos um breve aceno das
folhas da samambaia. Nada. O vento se recolhera cedo.
— Bem que aquela dona da floricultura me disse que orquídeas são
falantes. Geniosas, é verdade, mas nunca nos deixam soltar lamúrias sem
respostas. Pelo menos me escuta, Joana? Hum! Que as rosas não falam, isso
sempre soube. Mas samambaias? Rosas, Joana, ao contrário de você, dão flores.
O homem esboçou um sorriso discreto. Monalisa? Puro cinismo
da autossuficiência.
— E você, Gerânio? Quando vai estancar tanto gerundismo? Sei, sei...
Coisa de família.
O cachimbo firmou, a fumaça tomou conta do local, mas logo se esvaiu. Joana pareceu ganhar um tanto de vida. Brisa, leve brisa. Ainda assim, brisa.
- Nota de esclarecimento: O conto "O silêncio de Joana" foi publicado na editoria Brasília do Notibras no dia 16/9/2026.
- https://www.notibras.com/portal/brasilia/o-silencio-de-joana/

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