terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ânsia e tédio

    

    Papai era complacente, mamãe nunca foi de florear opiniões.

    — Antônio, a tua filha é cheia de vontades.

    — Desejos, Eleonora, desejos. A nossa Roberta apenas possui desejos. E quem de nós não os tem aos montes?

    Não sei se meu pai era ingênuo ou, então, apenas buscava desculpas para justificar o que preferia não enxergar na única filha. De certo modo, eu me aproveitava dessa situação. Fingir bondades onde só existia egoísmo.

    — Papai, que cachorro é aquele?

    — O pretinho ou o malhadinho?

    — O pretinho.

    — Ah, aquele é um poodle.

    — Que fofinho, né, papai?

    — Muito.

    — A gente não pode ter um, né, papai?

    — E por que não? Vou conversar com a sua mamãe.

    Depois de dias de embates, papai conseguiu dobrar a minha mãe. 

    — Antônio, eu é que não vou cuidar de bicho.

    — Pode deixar, Eleonora. A Roberta e eu cuidamos.

    Não que isso não fosse verdade, mas não durou uma semana. E nem culpo a Fifi, a nossa poodle pretinha. Que tomar conta de cachorro! Passear, dar ração, dar banho... Meu pai abraçou a causa com o costumeiro sorriso estampado no rosto.

    Fifi, um trenzinho elétrico, uma infinidade de bonecas, aquela ânsia de ter e o tédio de possuir. E isso não ficou na infância. Quando os hormônios afloraram, minha mãe foi enfática:

    — Antônio, a sua filha vai dar trabalho.

    — É apenas uma fase, Eleonora. Logo, logo a nossa menina se apruma.

    Márcia, apaixonada por Fernando, foi a minha primeira vítima. Inocente, a garota me contou detalhes sobre o rapaz. Aquela língua descontrolada despertou em mim o desejo de lhe roubar o namorado. Que cada uma fique com a parcela de culpa que lhe convém. 

    Não discuto que Márcia era, já aos quatorze anos, mais bela e atraente do que eu. Entretanto, as suas curvas eram carentes de malícia, algo que sempre me acompanhou.

    Depois de vários beijos, incluindo alguns avanços que prometiam eternidade, dispensei o Fernando. Em prantos, o garoto implorou que reatássemos. Sem muita escolha, tomei o caminho mais digno: menti.

    — Meu querido, eu até queria, mas minha mãe proibiu. Ela disse que sou muito nova para namorar. 

    Mamãe jamais se meteu na minha vida amorosa, ciente de que não havia rédea capaz de me nortear. Barco desordenado, era assim que me chamava. 

    Fernando, Álvaro, Luís Paulo, Francisco, Hélio, Sebastião, Matias, Tenório... O que salva um pouco a minha reputação é a parca memória dos que me rodeiam. Joaquim, Júlio César, Pedro, Gustavo, José Carlos... Amores fugazes. Aos montes. 

    Por ironia do acaso, durante uma viagem a Salvador, entrei em uma sorveteria onde se encontrava a Márcia. Nem sei se ela me reconheceu ou aprendeu a arte da dissimulação. Melhor assim, pois sou péssima com amizades repetidas.

    Márcia parecia feliz com as generosas colheradas de sorvete que levava à boca. Sentada a duas mesas à esquerda, discretamente perguntei à garçonete qual era aquele sabor.

    — Pistache, senhora.

    — Pistache? 

    — Sim.

    — Hum... Pois quero um igual.

    Não esperei mais do que alguns minutos até a jovem retornar com uma taça com o tal sorvete. Agradeci. Esperei que ela saísse de perto e, então, encarei aquela iguaria até que, atrevida como sempre fui, dei uma colherada e a levei aos lábios. Saboreei até que fiz um sinal para a garçonete, que logo retornou.

    — Algum problema, senhora?

    — Traga-me um de uva.

    — Não gostou do sorvete de pistache?

    — Enjoei.

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