— Zé Alfredo, você tem
certeza?
— Tenho.
— Tem mesmo?
— Bem, o sujeito que me
vendeu disse que funciona.
— Hum! E isso não tem
perigo de explodir?
— Ele disse que é só não
sacudir muito.
E lá foram os parceiros
no Jeep pela estrada de terra esburacada. Se algo desse errado, era provável
que o clarão iluminasse toda a mata em volta, que terminava na
enseada.
— Pisa leve, Zé Alfredo!
Desse jeito, a gente vai pelos ares no próximo tremelique.
— Confia, Celso!
— Confiar? Em você?
— Por acaso já te meti em
alguma fria?
— Desde primário.
Encobertos pelo breu, os
dois homens chegaram sãos e salvos à praia deserta. Nem se deram ao trabalho de
retirar caniços e molinetes. Estavam dispostos a testar outro método de
pescaria.
Retiraram com extremo
cuidado a caixa de madeira contendo as três bananas de dinamite. Escolheram um
ponto da orla que considereram mais provável da existência de um cardume.
— Será que isso funciona mesmo, Zé Alfredo? Está me parecendo uma loucura.
— Calma, meu amigo. Já
vamos descobrir.
Zé Alfredo pegou uma
dinamite, acendeu o pavio com o isqueiro e jogou a banana dentro d'água. Os
amigos se olharam, algo pareceu dar errado até que um estrondo os pegou de
surpresa.
Lanternas em mãos, Zé
Alfredo e Celso iluminaram a água. Um, dois, três, sete, quinze peixes boiavam.
Rapidamente, eles entraram no mar, a água gelada, e pegaram as tainhas e os
pampos. Colocaram tudo dentro da caixa de isopor com gelo.
Escolheram outro ponto e
repetiram o método. Oito peixes graúdos. O isopor quase lotado, Celso disse que
queria tentar. Acendeu o pavio e fez a alavanca com o braço, mas a dinamite
escapuliu e foi parar logo atrás na restinga. Assustados, os amigos correram em
direção ao mar.
A explosão levantou areia
para todo lado. Depois do susto, os companheiros resolveram ir embora. Ademais,
teria peixes para o mês inteiro. Juntaram tudo e, já saindo da estrada de chão,
foram parados em uma blitz.
Celso tremeu na base,
enquanto Zé Alfredo, melhor ator que era, se fez de inocente.
— De onde vocês estão
vindo?
— A gente estava
pescando, seu guarda.
— Pescando?
— É.
— E conseguiram pescar
alguma coisa?
— Algumas tainhas.
— Hum... A minha esposa
adora tainha.
Zé Alfredo olhou para o
Celso e, em seguida, meteu a mão dentro da caixa de isopor, que estava no assoalho
entre os bancos da frente e de trás.
— Pois aqui está, seu
guarda. Aposto que a sua digníssima senhora vai adorar.
— Família grande. Você
sabe como é, né?
Zé Alfredo fingiu novo
sorriso, pegou mais três tainhas e as entregou para o militar, que agradeceu.
E, antes de liberar os homens do Jeep, a autoridade lhes lançou um aviso:
— Cuidado com os
terroristas. Recebemos notícia de que eles estão agindo nesta noite. Estão
jogando bombas por aí.
Apesar do susto e graças
ao suborno, Zé Alfredo e Celso conseguiram chegar bem aos respectivos lares. E
os dois concordaram que era melhor retornarem ao velho método de
pescaria.
Alguns anos se passaram
e, então, Zé Alfredo disse que iria se mudar para Brasília. As pescarias
ficaram para trás, mas a amizade permaneceu.
— Mas por que Brasília,
Zé Alfredo?
— Vantagens econômicas.
— Só isso?
— Bem, o meu pai disse
que terei maiores chances na carreira. Sem contar que ficarei livre de
encrencas.
— Encrencas? Como assim?
— E ainda pergunta? Puxa,
Celso, você só me mete em fria.
— Eu?
- Nota de esclarecimento: O conto "Jeep, dinamite e tainha no verão de 1968/1969" foi publicado no Notibras no dia 2/9/2026.
- https://www.notibras.com/site/jeep-dinamite-e-tainha-no-verao-de-1968-1969/

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