Naquele
final de semana incomum, Gladstone resolveu fazer uma visita surpresa aos pais.
Quis levar toda a família, mas a esposa e a filha já tinham compromissos
firmados. Então, sobrou para o filho, Gabriel, acompanhá-lo na
empreitada.
Apesar da viagem ser relativamente curta, não mais do que hora e
meia, Gladstone e Gabriel resolveram parar em uma barraca no meio da estrada a
fim de degustarem pastel com caldo de cana. O garoto, que tinha 8 anos, puxou
conversa.
—
Papai, pastel com caldo é tão bom.
— É mesmo.
— Acho que a última vez que comemos pastel foi quando eu ainda
era criança.
Gladstone teve vontade de rir da observação do filho. Como é que
é? Quando ainda era criança? O sujeito segurou tal ímpeto, pois não queria
arrumar imbróglio desnecessário com o seu companheiro de viagem.
— É verdade, Gabriel. Como o tempo voa,
né?!
Buchos cheios, pé na estrada. Não tardou, o
automóvel estacionou em frente à porteira, onde o anfitrião já os aguardava.
— Ainda bem que chegaram a tempo do almoço.
Sua mãe preparou guisado de galinha.
— Ô, pai! Mamãe quer mesmo me engordar.
— Vô! Vô! O senhor gosta de pastel com caldo?
— É bom.
— Muito!
Sentados à mesa, os quatro puderam colocar a
conversa em dia. Mais tarde, foram dar uma volta pelo sítio, que era grande o
suficiente para não parecer tão pequeno. O tamanho que dava para cuidar e
prover o sustento. Simples, rústico até, porém com o conforto necessário.
Gabriel correu, subiu nas árvores que
encontrou pela frente, andou a cavalo, nadou no riacho e até arriscou fisgar
alguns peixes, que se viram salvos por simples inabilidade do aprendiz de
pescador. Feliz, adormeceu enquanto a avó lhe contava histórias inventadas ou
que teriam acontecido quase daquele jeito.
Quando o dia amanheceu, o menino encontrou o
pai e a avó conversando na cozinha. Perguntou pelo avô.
— Seu avô deve tá mexendo com os bichos.
— Vou lá.
— Calma! Come um pão de queijo antes.
O guri pegou dois e saiu desembestado à
procura do parente, que estava no galpão. Mal entrou, Gabriel tomou um baita
susto. O avô sangrava na altura do joelho.
— Vô! Vô! O senhor tá sangrando!
— Diacho! Num é que tô mesmo.
Não demorou, os dois entraram na cozinha, onde
Dalva e Gladstone gargalhavam. Todavia, assim que viu o pai com a mão no
joelho, o homem mudou de fisionomia.
— Pai, o senhor tá sangrando!
— Hum! Se você não me avisa, nem iria
perceber.
— Papai! Papai! Eu que falei pro vovô que ele
tá sangrando.
— Zeca, você se meteu novamente em briga com o
Rubens?
— Não, meu amor.
— Rubens? Quem é Rubens?
— O porco que o seu pai comprou da dona Luzia.
— Peraí, mãe! Mas Rubens não era o nome do
marido da dona Luzia?
— Sim.
— E ela colocou o nome do finado num porco?
— Pois é, Gladstone, pra você ver. Como você
deve se lembrar, o Rubens nunca foi um tipo que desse para alguma coisa.
— Lembro, mãe.
— Então, coitado do porco.
Após limpar o ferimento do marido e colocar
antisséptico, Dalva cobriu o machucado com gaze e passou esparadrapo. Foi aí
que ela notou que uma lágrima furtiva escorria pela face do Zeca.
— Doeu?
— Não.
— Então, por que tá chorando?
— É que a calça era novinha.
Já era final de tarde quando Gladstone e
Gabriel se despediram cheios de promessas de voltarem em breve. Pegaram a
estrada, quando o menino disse ao pai que roça é melhor do que pastel com caldo
de cana. A criança não via a hora de chegar o dia seguinte. Ele tinha muitas
histórias para contar para os amigos na escola.
- Nota de esclarecimento: O conto "Final de semana na roça" foi publicado no Notibras no dia 24/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/final-de-semana-na-roca/

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