quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Final de semana na roça

         

        José Diniz Teixeira, o Zeca, residia com a esposa, Dalva, num sítio no município goiano de Padre Bernardo, coladinho ao Distrito Federal. O único filho do casal, Gladstone, ainda rapaz, foi residir na capital do país com intento de vencer na vida. Se venceu ou não, é questão de ponto de vista, mas não há de se contestar que, agora, passadas quase duas décadas, angariara um patrimônio que daria para comprar dez propriedades iguais à dos genitores, e ainda sobraria um trocado para passar o mês sem grandes apertos. 

          Naquele final de semana incomum, Gladstone resolveu fazer uma visita surpresa aos pais. Quis levar toda a família, mas a esposa e a filha já tinham compromissos firmados. Então, sobrou para o filho, Gabriel, acompanhá-lo na empreitada. 

          Apesar da viagem ser relativamente curta, não mais do que hora e meia, Gladstone e Gabriel resolveram parar em uma barraca no meio da estrada a fim de degustarem pastel com caldo de cana. O garoto, que tinha 8 anos, puxou conversa.

          — Papai, pastel com caldo é tão bom.

          — É mesmo. 

          — Acho que a última vez que comemos pastel foi quando eu ainda era criança.

          Gladstone teve vontade de rir da observação do filho. Como é que é? Quando ainda era criança? O sujeito segurou tal ímpeto, pois não queria arrumar imbróglio desnecessário com o seu companheiro de viagem.

          — É verdade, Gabriel. Como o tempo voa, né?!  

          Buchos cheios, pé na estrada. Não tardou, o automóvel estacionou em frente à porteira, onde o anfitrião já os aguardava.

          — Ainda bem que chegaram a tempo do almoço. Sua mãe preparou guisado de galinha.

          — Ô, pai! Mamãe quer mesmo me engordar.

          — Vô! Vô! O senhor gosta de pastel com caldo?

          — É bom.

          — Muito!

          Sentados à mesa, os quatro puderam colocar a conversa em dia. Mais tarde, foram dar uma volta pelo sítio, que era grande o suficiente para não parecer tão pequeno. O tamanho que dava para cuidar e prover o sustento. Simples, rústico até, porém com o conforto necessário. 

          Gabriel correu, subiu nas árvores que encontrou pela frente, andou a cavalo, nadou no riacho e até arriscou fisgar alguns peixes, que se viram salvos por simples inabilidade do aprendiz de pescador. Feliz, adormeceu enquanto a avó lhe contava histórias inventadas ou que teriam acontecido quase daquele jeito. 

          Quando o dia amanheceu, o menino encontrou o pai e a avó conversando na cozinha. Perguntou pelo avô.

          — Seu avô deve tá mexendo com os bichos.

          — Vou lá.

          — Calma! Come um pão de queijo antes.

          O guri pegou dois e saiu desembestado à procura do parente, que estava no galpão. Mal entrou, Gabriel tomou um baita susto. O avô sangrava na altura do joelho.

          — Vô! Vô! O senhor tá sangrando!

          — Diacho! Num é que tô mesmo.

          Não demorou, os dois entraram na cozinha, onde Dalva e Gladstone gargalhavam. Todavia, assim que viu o pai com a mão no joelho, o homem mudou de fisionomia.

          — Pai, o senhor tá sangrando!

          — Hum! Se você não me avisa, nem iria perceber.

          — Papai! Papai! Eu que falei pro vovô que ele tá sangrando.

          — Zeca, você se meteu novamente em briga com o Rubens?

          — Não, meu amor.

          — Rubens? Quem é Rubens?

          — O porco que o seu pai comprou da dona Luzia.

          — Peraí, mãe! Mas Rubens não era o nome do marido da dona Luzia?

          — Sim.

          — E ela colocou o nome do finado num porco?

          — Pois é, Gladstone, pra você ver. Como você deve se lembrar, o Rubens nunca foi um tipo que desse para alguma coisa. 

          — Lembro, mãe.

          — Então, coitado do porco. 

          Após limpar o ferimento do marido e colocar antisséptico, Dalva cobriu o machucado com gaze e passou esparadrapo. Foi aí que ela notou que uma lágrima furtiva escorria pela face do Zeca.

          — Doeu?

          — Não.

          — Então, por que tá chorando?

          — É que a calça era novinha.

          Já era final de tarde quando Gladstone e Gabriel se despediram cheios de promessas de voltarem em breve. Pegaram a estrada, quando o menino disse ao pai que roça é melhor do que pastel com caldo de cana. A criança não via a hora de chegar o dia seguinte. Ele tinha muitas histórias para contar para os amigos na escola. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Final de semana na roça" foi publicado no Notibras no dia 24/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/final-de-semana-na-roca/

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