Essa
habilidade mental de entender o que está no ar, mesmo quando são utilizados
subterfúgios para esconder a verdadeira intenção do interlocutor. Talvez por
isso, a mulher não era vista em grupos de fofocas, reuniões infrutíferas ou
igrejas. E não adiantava chamá-la, que ela dizia que a vida era muito curta
para perder tempo com tolices.
A despeito de tal comportamento, não raro,
alguém a procurava para pedir conselhos. Não que ela gostasse de parar de fazer
o que lhe era tão caro para, digamos, dar atenção a outrem. Todavia, como não
era bicho do mato, recebia a visita com bolinhos de chuva e um café passado na
hora.
Rosângela era uma das criaturas mais assíduas
no quarto e sala no final da Asa Norte, em Brasília. Por conta disso, mesmo que
não fossem amigas de verdade, mantinham aquele espírito de camaradagem, ainda
mais porque a empatia era recíproca.
Entre uma mordiscada no quitute e um gole no café, Rosângela confessou
que estava apaixonada por um pastor de igreja. E, segundo suas próprias
palavras, o sentimento era recíproco, apesar do sujeito ser casado.
— Casado?
— Dirce, mas ele disse que não vive bem com a esposa.
— Hum...
— E prometeu que iria se divorciar.
— Hum...
— Disse que só estava esperando o momento adequado pra falar pra mulher.
— Hum...
— Ele é um homem direito, é pela família e pelos bons costumes.
— Hum...
— É Deus, pátria e família.
— Hum...
— Corretíssimo!
— Hum...
— Pediu apenas um tempo pra resolver as coisas com a esposa.
— Hum...
— O que você me diz?
— Há quanto tempo vocês estão juntos?
— Dois anos. Quer dizer, dois anos e cinco meses.
— Hum...
— Então?
— Hum...
Dirce pegou um bolinho de chuva e o levou à boca. Mastigou-o enquanto observava
o semblante da visita, que parecia angustiada. A anfitriã deu um gole no café,
deu outro e limpou a garganta.
— Então, Dirce?
— Sai fora disso.
— O quê?
— Rosângela, isso aí é carniça que até urubu rejeita.
O choque de realidade daquela frase foi o suficiente para fazer com que Rosângela não apenas deixasse o pastor, como também mudasse de igreja. Quanto à Dirce, ela continua dando conselhos pertinentes sempre acompanhados de bolinho de chuva e aquele café passado na hora. E tudo por mera camaradagem.
- Nota de esclarecimento: O conto "Bolinho de chuva, café e conselhos" foi publicado no Café Literário no dia 27/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/bolinho-de-chuva-cafe-e-conselhos/

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