sábado, 27 de dezembro de 2025

Bolinho de chuva, café e conselhos

     

        Gente tola há aos montes, gente ressabiada muito menos, gente sábia é uma raridade, mas que, de tempos em tempos, deixa toda aquela outra gente boquiaberta. Dirce seria assim, e não pense você que fosse por conta de estudos, que era praticamente nenhum. Pura capacidade cognitiva. 

          Essa habilidade mental de entender o que está no ar, mesmo quando são utilizados subterfúgios para esconder a verdadeira intenção do interlocutor. Talvez por isso, a mulher não era vista em grupos de fofocas, reuniões infrutíferas ou igrejas. E não adiantava chamá-la, que ela dizia que a vida era muito curta para perder tempo com tolices.

          A despeito de tal comportamento, não raro, alguém a procurava para pedir conselhos. Não que ela gostasse de parar de fazer o que lhe era tão caro para, digamos, dar atenção a outrem. Todavia, como não era bicho do mato, recebia a visita com bolinhos de chuva e um café passado na hora.

          Rosângela era uma das criaturas mais assíduas no quarto e sala no final da Asa Norte, em Brasília. Por conta disso, mesmo que não fossem amigas de verdade, mantinham aquele espírito de camaradagem, ainda mais porque a empatia era recíproca. 

           Entre uma mordiscada no quitute e um gole no café, Rosângela confessou que estava apaixonada por um pastor de igreja. E, segundo suas próprias palavras, o sentimento era recíproco, apesar do sujeito ser casado.

            — Casado?

            — Dirce, mas ele disse que não vive bem com a esposa.

            — Hum...

            — E prometeu que iria se divorciar. 

            — Hum...

            — Disse que só estava esperando o momento adequado pra falar pra mulher.

            — Hum...

            — Ele é um homem direito, é pela família e pelos bons costumes.

            — Hum...

            — É Deus, pátria e família. 

            — Hum...

            — Corretíssimo!

            — Hum...

            — Pediu apenas um tempo pra resolver as coisas com a esposa.

            — Hum...

            — O que você me diz?

            — Há quanto tempo vocês estão juntos?

            — Dois anos. Quer dizer, dois anos e cinco meses.

            — Hum...

            — Então?

            — Hum...

            Dirce pegou um bolinho de chuva e o levou à boca. Mastigou-o enquanto observava o semblante da visita, que parecia angustiada. A anfitriã deu um gole no café, deu outro e limpou a garganta.

            — Então, Dirce?

              — Sai fora disso.

              — O quê?

              — Rosângela, isso aí é carniça que até urubu rejeita.

              O choque de realidade daquela frase foi o suficiente para fazer com que Rosângela não apenas deixasse o pastor, como também mudasse de igreja. Quanto à Dirce, ela continua dando conselhos pertinentes sempre acompanhados de bolinho de chuva e aquele café passado na hora. E tudo por mera camaradagem.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Bolinho de chuva, café e conselhos" foi publicado no Café Literário no dia 27/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/bolinho-de-chuva-cafe-e-conselhos/

Nenhum comentário:

Postar um comentário