Depois de cumprir a sêxtupla jornada semanal,
eis que chegava o único dia de folga do rapaz, como se aquilo fosse um sonho em
meio à vida carregada de pesadelos. Era momento de relaxar e ajudar na lida com
os animais do sítio. Picolé, o vira-lata, ficava no calcanhar do Carlos, como
se cobrando a ausência de afagos acumulados. Zacarias, o jumento, mal avistava
o jovem, corria e zurrava a fim garantir seu quinhão de cafuné.
Galinhas, patos e porcos corriam em direção ao jovem, que
precisava se dividir para dar atenção àquela trupe. Até Tomé, o bode, parecia
vir lhe pedir desculpas por conta das chifradas que, vez ou outra, eram aplicadas
num distraído Carlos. Bastava virar as costas, que lá ia o danado, que acertava
em cheio o traseiro do adolescente descuidado.
Entre carinhos e golpes à traição, a relação de Carlos e
Tomé parecia a de dois amigos que vivem às turras, mas não se desgrudam, a
despeito das agruras. Coisas de homens, dizia Luzia, a mãe do rapazola. Vá entender!
A única que não dava muita trela para Carlos era Sonja, a
gata rajada, que preferia o conforto do cesto ao lado do fogão a lenha. De lá,
a felina ficava atenta a qualquer movimento no terreiro apinhado daquela gente
de espécies barulhentas. Ela olhava aquele povo com desdém, como se dissesse:
"Tô fora!". E voltava para mais um turno de cochilo.
Segunda-feira, Carlos foi empurrado para fora da cama pelo
barulho do despertador. Hora de voltar para a vida desgraçada. Sem opção, fez o
que era preciso, quando foi até o varal pegar o uniforme do trabalho. Cadê?
Cadê? Cadê?
O gajo procurou daqui, procurou dali, procurou dacolá, até
que descobriu o que havia acontecido. Lá estava o Tomé deitado sob a
jabuticabeira. O danado ruminava sem aparentar resquício de culpa.
Sem opção, o adolescente tratou de correr para não
perder o ônibus. E quase perdeu, caso não fosse a camaradagem do motorista, que
percebeu que o moleque corria que nem desesperado para chegar a tempo ao
ponto.
— Obrigado, senhor.
Carlos aproveitou a longa viagem para
descansar mais um pouco. E foi o que fez, até que o coletivo entrou na Asa
Norte, momento em que o rapaz despertou por conta das freadas constantes. Mais
alguns quilômetros, era a sua vez de descer no primeiro ponto da Asa Sul. E foi
o que fez.
Acelerou o passo para não se atrasar.
Mal pisou na lanchonete, foi questionado por Iranilde, a gerente:
— Carlos, cadê o seu uniforme?
O funcionário, envergonhado pelo
acontecido, mentiu:
— Roubaram.
— Roubaram?
— É.
— E como foi isso?
Carlos pensou,
pensou, gaguejou um tanto, até que desistiu. Cabisbaixo, olhou para a gerente e
disse:
— O Tomé comeu.
— O quê?
— Num tô te falando? O Tomé comeu.
— Tomé? E quem é esse Tomé.
— Uai, o meu bode.
Iranilde e os outros funcionários que
estavam perto começaram a gargalhar por causa do trágico fim que o uniforme
teve. Pois é, o trabalhador não tem um dia de paz. No final das contas,
arrumaram uma blusa e uma calça novas para o Carlos, que acabou ganhando o
apelido de Tomé. E, acredite ou não, foi assim que aconteceu.
- Nota de esclarecimento: O conto "A vida corrida do Carlos" foi publicada no Notibras no dia 26/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/a-vida-corrida-do-carlos/

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