sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A vida corrida do Carlos

      

        Carlos, assim que completou 16 anos, tratou de arrumar emprego em afamada lanchonete em um shopping na Asa Sul, coração de Brasília. Era uma correria doida, pois precisava se deslocar da área rural de Planaltina até o trabalho e, de lá, rumava para a escola. Pegava o ônibus e retornava desfalecido para o lar, não tão doce lar, onde poderia repousar até que, ainda na madrugada do dia seguinte, tudo recomeçava. 

          Depois de cumprir a sêxtupla jornada semanal, eis que chegava o único dia de folga do rapaz, como se aquilo fosse um sonho em meio à vida carregada de pesadelos. Era momento de relaxar e ajudar na lida com os animais do sítio. Picolé, o vira-lata, ficava no calcanhar do Carlos, como se cobrando a ausência de afagos acumulados. Zacarias, o jumento, mal avistava o jovem, corria e zurrava a fim garantir seu quinhão de cafuné. 

           Galinhas, patos e porcos corriam em direção ao jovem, que precisava se dividir para dar atenção àquela trupe. Até Tomé, o bode, parecia vir lhe pedir desculpas por conta das chifradas que, vez ou outra, eram aplicadas num distraído Carlos. Bastava virar as costas, que lá ia o danado, que acertava em cheio o traseiro do adolescente descuidado. 

            Entre carinhos e golpes à traição, a relação de Carlos e Tomé parecia a de dois amigos que vivem às turras, mas não se desgrudam, a despeito das agruras. Coisas de homens, dizia Luzia, a mãe do rapazola. Vá entender!

            A única que não dava muita trela para Carlos era Sonja, a gata rajada, que preferia o conforto do cesto ao lado do fogão a lenha. De lá, a felina ficava atenta a qualquer movimento no terreiro apinhado daquela gente de espécies barulhentas. Ela olhava aquele povo com desdém, como se dissesse: "Tô fora!". E voltava para mais um turno de cochilo. 

            Segunda-feira, Carlos foi empurrado para fora da cama pelo barulho do despertador. Hora de voltar para a vida desgraçada. Sem opção, fez o que era preciso, quando foi até o varal pegar o uniforme do trabalho. Cadê? Cadê? Cadê? 

            O gajo procurou daqui, procurou dali, procurou dacolá, até que descobriu o que havia acontecido. Lá estava o Tomé deitado sob a jabuticabeira. O danado ruminava sem aparentar resquício de culpa. 

            Sem opção, o adolescente tratou de correr para não perder o ônibus. E quase perdeu, caso não fosse a camaradagem do motorista, que percebeu que o moleque corria que nem desesperado para chegar a tempo ao ponto. 

                — Obrigado, senhor.

                Carlos aproveitou a longa viagem para descansar mais um pouco. E foi o que fez, até que o coletivo entrou na Asa Norte, momento em que o rapaz despertou por conta das freadas constantes. Mais alguns quilômetros, era a sua vez de descer no primeiro ponto da Asa Sul. E foi o que fez. 

                Acelerou o passo para não se atrasar. Mal pisou na lanchonete, foi questionado por Iranilde, a gerente:

                — Carlos, cadê o seu uniforme?

                O funcionário, envergonhado pelo acontecido, mentiu:

                — Roubaram.

                — Roubaram?

                — É.

                — E como foi isso?

              Carlos pensou, pensou, gaguejou um tanto, até que desistiu. Cabisbaixo, olhou para a gerente e disse:

                — O Tomé comeu.

                — O quê?

                — Num tô te falando? O Tomé comeu.

                — Tomé? E quem é esse Tomé.

                — Uai, o meu bode.

                Iranilde e os outros funcionários que estavam perto começaram a gargalhar por causa do trágico fim que o uniforme teve. Pois é, o trabalhador não tem um dia de paz. No final das contas, arrumaram uma blusa e uma calça novas para o Carlos, que acabou ganhando o apelido de Tomé. E, acredite ou não, foi assim que aconteceu. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "A vida corrida do Carlos" foi publicada no Notibras no dia 26/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/a-vida-corrida-do-carlos/

Nenhum comentário:

Postar um comentário