Na sexta-feira, assim que deu a hora de
sair do serviço, o sujeito abriu aquele sorrisão e, talvez inebriado por conta
da euforia que tomou seu ser, confidenciou a si mesmo que aquele havia sido o
derradeiro dia de martírio. Nunca mais! Dali para frente seria somente
liberdade, o tempo apenas para gastar com coisas realmente importantes:
viagens, encontros com amigos, leitura de bons livros, muita poesia, longas
sonecas no sofá, vinhos, cervejas diversas, namorar sem tempo para acabar,
esbórnia total.
No sábado, quis emendar e, ainda disposto,
mal despertou, tomou aquela ducha para espantar qualquer cansaço porventura
sorrateiro. Vestiu a bermuda e a camisa mais confortável, calçou o par de
chinelo de dedo e foi para o churrasco na casa de Mariana, colega dos tempos de
faculdade. Até imaginou algo com a mulher, que foi logo descartado. É que ela
era casada com um robusto praticante de artes marciais. Melhor seria se
concentrar nas carnes na grelha e na cerveja gelada. E foi o que fez, apesar
dos arriscados olhares trocados com a anfitriã.
Retornou ao apartamento quando o domingo já
se avizinhava. Por impulso, abriu a geladeira e se deparou com duas latas de
cerveja, que talvez estivessem trocando confidências. Pegou uma e abriu sem
pensar. Deu o primeiro gole e caminhou até a sala. Esparramou-se no sofá e
tentou pensar em algo, mas os pensamentos, confusos, se esvaíram como fumaça.
Mais um gole, depositou a lata no chão. Apagou sem se dar conta.
O inconveniente interfone
tocou, tocou, tocou. Álvaro, cujas pálpebras clamavam por continuar cerradas,
finalmente ergueu o corpo fatigado e foi ver quem era. Reinaldo, amigo de longa
data, resolvera surgir do nada após quase dois anos.
— Tô incomodando?
— Não.
— Tem certeza? Se quiser, volto outra hora.
— Não.
— Mesmo?
— Não.
— Não?
— Não! Sim. Fique à vontade. Só vou lavar o rosto e já
volto.
— Beleza. Tem cerveja?
— Hum... Acho que tem uma latinha na geladeira.
— Só uma?
— Acho que é. Olha lá.
Assim que retornou do banheiro, Álvaro viu a visita bebericando a
derradeira cerveja.
— Só tinha esta. Vou comprar mais pra final.
— Ih, é mesmo! Hoje tem Vascão!
— Sim! Vamos acabar com o Corinthians.
— Vou com você. Preciso andar um pouco, Reinaldo.
Além de cerveja, compraram tira-gostos variados. Retornaram
ao apartamento, onde ligaram a televisão para assistirem à final da Copa do
Brasil.
Álvaro parecia revigorado por causa da possibilidade de
comemorar um importante título do seu time do coração. O problema é que o
Coringão marcou um gol, o que fez com que alguns impropérios saíssem sem
qualquer cerimônia daquelas bocas angustiadas. Mas eis que o Vasco consegue
empatar ainda no primeiro tempo. E os palavrões, agora de felicidade, ecoaram
por todo o apartamento.
Segundo tempo, eis que o
Corinthians voltou a marcar. Álvaro e Reinaldo, cada um com uma lata na mão e
desprovidos de pudores, xingaram, xingaram, xingaram. Não era possível que o
Vasco da Gama ficaria mais um tempo na fila, enquanto o Timão se sagraria
campeão em pleno Maracanã.
Os minutos de esperança se transformaram em frustração para os vascaínos.
Corinthians campeão. Sem força para chorar a derrota ou continuar bebendo,
Reinaldo se despediu. Álvaro, ainda querendo se esquecer daquilo, ainda abriu
algumas latas, até que, exausto, desfaleceu, completamente embriagado, sobre a
cama.
Na manhã seguinte, Cida, a diarista, chegou e
constatou que seria um dia de faxina pesada. E começou a limpar, pois não havia
outro jeito. E, quando percebeu que Álvaro continuava dormindo, foi acordá-lo.
— Álvaro. Álvaro! Álvaro!! Álvaro!!!
— Hum?
— Num vai trabalhar hoje?
— Oi, Cida. Que horas são?
— Quase dez.
— Tudo isso?
— Sim.
— Droga! Queria que ainda fosse domingo.
— E quem é que não queria?
— Como assim?
— Álvaro, meu querido, absolutamente ninguém tá preparado pra uma segunda-feira.
- Nota de esclarecimento: O conto "Desejos e realidade" foi publicado no Notibras no dia 22/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/desejos-e-realidade/

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