Enquanto a maioria de nós estava
com 10, 11 anos, a minha musa já ia completar 13. Esse abismo, que hoje parece
um furo de agulha numa cratera da Lua, antes era motivo para colocá-la num
pedestal. E, para minha surpresa ainda hoje, não pareceu que fosse barreira
para que ela se afastasse da minha presença.
— Pedro, você é tão inteligente.
Eu tentava desvendar aqueles lindos olhos
castanhos por detrás dos óculos de armação redonda, enquanto ela insistia.
— Pedro, como é que você não se confunde
com tantos números? E esses sinais de mais, de menos, de vezes e de dividir? Preciso
usar os dedos das mãos e dos pés pra não me perder.
Cátia falava e eu observava aqueles dedos
compridos de pianista. Teria ela um piano em casa? Mesmo diante do improvável,
coloquei na cabeça que a minha musa era uma virtuose do piano.
— Você me ensina matemática, Pedro?
— Você não sabe?
— Sou péssima!
— Não pode ser.
— É verdade. Sou péssima mesmo.
— Num pode ser.
— Por quê?
Não sabia como responder e, então, abaixava
os olhos e me encolhia que nem pescoço de tartaruga para dentro do casco. No
entanto, era difícil de acreditar que alguém que usava óculos e tocava piano
não sabia lidar com números. Seja como for, durante o recreio, passei a ensinar
matemática à garota mais linda da escola.
Cátia não se tornou uma exímia
matemática, o que não a impediu de passar de ano com certa tranquilidade. As
férias chegaram e, pela primeira vez na vida, senti aquela angústia dos corações
apaixonados, que preferia o retorno breve das aulas a ter mais um dia sem o
amor da minha vida. E, para meu desespero, no início do ano letivo, não havia
mais Cátia. Ninguém sabia o que teria acontecido a ela, apesar das fofocas que
diziam que a garota da minha vida havia se mudado para outra cidade.
Os anos seguintes
transcorreram aos trancos e barrancos. Quase repeti o ano duas ou três vezes,
mas a recuperação me salvou. Por ironia, o que passou a ser o meu tormento foi
justamente a matemática. Ciente de que havia um bloqueio, quando chegou o
vestibular, optei por fazer psicologia. Creio que fiz a escolha adequada, pois
desde então é o caminho que tenho trilhado.
Nunca me casei, apesar de paixões momentâneas, que me fizeram prometer amor eterno. Tudo não passou de devaneio de um solitário, cujo coração ainda sangra por conta da incerteza do que aconteceu com a minha antiga colega de sala. Estaria em turnês intermináveis ao redor do mundo? Morrera debaixo de um carro desgovernado? Teria se tornado mãe ainda jovem e, hoje, mesmo que de relance, se recordaria daquele menino que lhe ensinou primícias da matemática? Seria feliz? Se ao menos soubesse seu sobrenome, mesmo que fosse Silva, Souza ou Santos.
- Nota de esclarecimento: O conto "Uma pianista em minha vida" foi publicado no Notibras no dia 30/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/uma-pianista-em-minha-vida/
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