O jovem retornou para casa e teve um sono tranquilo, com
direito a sonhar com a musa Carla Marins. Isto é, até que chegaram, sem
qualquer aviso, atrevidas pontadas agudas na parte baixa da barriga, ao mesmo
tempo em que a atriz esvaiu-se dos pensamentos lascivos do rapaz. Quis voltar à
UPA, mas a preguiça falou mais alto. Tomou um analgésico e voltou a dormir.
Já no domingo, Júlio aparentava ter melhorado, o que foi um
alívio para Arminda, que queria porque queria assistir tranquilamente ao seu
Vasco da Gama em mais uma partida eletrizante. Mas eis que, antes mesmo de iniciar a
partida, Renato, seu outro filho, de 20anos, teve um piripaque dos brabos. A
mulher e o marido, Silvimar, desesperados, tentaram acudir o rapaz.
— Renato, meu filho, você está bem? Por
favor, responde! Sou eu, sua mãe!
— Acho melhor ligar pro SAMU.
— Então, corre lá e liga, Silvimar! Ou você
quer que o nosso menino morra?
Apesar de atordoado, o homem conseguiu
telefonar para a emergência, que disse que uma ambulância já estava a
caminho.
Enquanto todos aguardavam a chegada do
socorro, eis que o Renato pareceu retornar para o mundo dos sãos. Fez até cara
de quem não estava entendendo as expressões faciais dos pais.
— Que foi, gente? Até parece que alguém
morreu.
— Você está bem, meu filho?
— Ué! Tô! E a senhora está?
— Você quase matou a gente de susto.
— Eu?
— Sim! Tu mesmo!
Depois das devidas explicações, a campainha
tocou. Era o pessoal do SAMU. Tudo certo, caso não fosse por um pequeno detalhe.
É que o Renato, achando que os pais estavam de brincadeira, não aceitou ser
examinado. E não havia santo que fizesse com que acreditasse que a coisa era
séria.
— Renato, meu filho, por favor, deixe os
homens te examinarem.
— Que examinar o quê, mãe! Tô bem!
Como a vida dos profissionais de saúde é
corrida, e eles precisavam atender a outra chamada, já estavam de saída,
quando, de repente, o Renato teve uma leve tontura e foi com a testa justamente
na quina da mesa, sempre pronta para fazer aquele estrago nos mais desavisados.
Do chão da sala, o sujeito foi levado para o
hospital, onde ficou internado por três dias. E recebeu alta com recomendação
de repouso absoluto. Mas como segurar o ímpeto dessa juventude?
— Meu filho, por favor, o doutor falou pra
você ficar em casa.
— Tô bem, mãe.
— Hum! Bem que nada! Mal dá um passo e já cai
de novo.
— Caio nada, mãe.
— Olha que a quina da mesa já tá de olho nessa
sua testa cheia de pontos.
— Que quina da mesa nada, mãe.
— Pois fique sabendo de uma coisa! Se você
sair por aquela porta, nem adianta me telefonar, que não vou mais perder o meu
Vasco por tua causa.
Renato arregalou os olhos e, talvez naquele
instante, percebeu que mães possuem outras prioridades na vida além de cuidar
da cria. Retornou para o quarto e permaneceu deitado dois dias além do tempo
prescrito pelo médico.
- Nota de esclarecimento: O conto "Maratona de coisas ruins" foi publicado no Notibras no dia 20/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/maratona-de-coisas-ruins/

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