sábado, 20 de dezembro de 2025

Maratona de coisas ruins

   

          Naquele final de semana, no lar, doce lar de dona Arminda, a maratona de coisas ruins estava a todo vapor. No sábado, Júlio, o filho mais velho, teve uma intoxicação alimentar. Foi à UPA, tomou medicação na veia e, não tardou, parecia ter melhorado. 

          O jovem retornou para casa e teve um sono tranquilo, com direito a sonhar com a musa Carla Marins. Isto é, até que chegaram, sem qualquer aviso, atrevidas pontadas agudas na parte baixa da barriga, ao mesmo tempo em que a atriz esvaiu-se dos pensamentos lascivos do rapaz. Quis voltar à UPA, mas a preguiça falou mais alto. Tomou um analgésico e voltou a dormir. 

          Já no domingo, Júlio aparentava ter melhorado, o que foi um alívio para Arminda, que queria porque queria assistir tranquilamente ao seu Vasco da Gama em mais uma partida eletrizante. Mas eis que, antes mesmo de iniciar a partida, Renato, seu outro filho, de 20anos, teve um piripaque dos brabos. A mulher e o marido, Silvimar, desesperados, tentaram acudir o rapaz.

          — Renato, meu filho, você está bem? Por favor, responde! Sou eu, sua mãe!

          — Acho melhor ligar pro SAMU.

          — Então, corre lá e liga, Silvimar! Ou você quer que o nosso menino morra?

          Apesar de atordoado, o homem conseguiu telefonar para a emergência, que disse que uma ambulância já estava a caminho. 

          Enquanto todos aguardavam a chegada do socorro, eis que o Renato pareceu retornar para o mundo dos sãos. Fez até cara de quem não estava entendendo as expressões faciais dos pais.

          — Que foi, gente? Até parece que alguém morreu.

          — Você está bem, meu filho?

          — Ué! Tô! E a senhora está?

          — Você quase matou a gente de susto.

          — Eu? 

          — Sim! Tu mesmo! 

          Depois das devidas explicações, a campainha tocou. Era o pessoal do SAMU. Tudo certo, caso não fosse por um pequeno detalhe. É que o Renato, achando que os pais estavam de brincadeira, não aceitou ser examinado. E não havia santo que fizesse com que acreditasse que a coisa era séria.

          — Renato, meu filho, por favor, deixe os homens te examinarem.

          — Que examinar o quê, mãe! Tô bem!

          Como a vida dos profissionais de saúde é corrida, e eles precisavam atender a outra chamada, já estavam de saída, quando, de repente, o Renato teve uma leve tontura e foi com a testa justamente na quina da mesa, sempre pronta para fazer aquele estrago nos mais desavisados. 

          Do chão da sala, o sujeito foi levado para o hospital, onde ficou internado por três dias. E recebeu alta com recomendação de repouso absoluto. Mas como segurar o ímpeto dessa juventude? 

          — Meu filho, por favor, o doutor falou pra você ficar em casa.

          — Tô bem, mãe.

          — Hum! Bem que nada! Mal dá um passo e já cai de novo.

          — Caio nada, mãe.

          — Olha que a quina da mesa já tá de olho nessa sua testa cheia de pontos.

          — Que quina da mesa nada, mãe.

          — Pois fique sabendo de uma coisa! Se você sair por aquela porta, nem adianta me telefonar, que não vou mais perder o meu Vasco por tua causa.

          Renato arregalou os olhos e, talvez naquele instante, percebeu que mães possuem outras prioridades na vida além de cuidar da cria. Retornou para o quarto e permaneceu deitado dois dias além do tempo prescrito pelo médico.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Maratona de coisas ruins" foi publicado no Notibras no dia 20/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/maratona-de-coisas-ruins/

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