Kelly, o pai e a mãe, Aurora, vieram de
Passo Fundo, considerada a cidade mais gaúcha. Não à toa, os três faziam
questão de manter a tradição. E ai de quem viesse com gracinha sobre os hábitos
sulistas. Era briga na certa.
Pois bem, a bela
Kelly, cujos cabelos loiros pareciam ter sido arrancados de espiga de milho,
andava de namorico com o Elói, cujas origens eram do Nordeste, mais
precisamente de Sobral, cidade do Ceará famosa por ser berço de algumas
celebridades, entre as quais o saudoso Belchior.
Mas não pense você
que o gajo era o único interessado na gata do Sul. Nananinanão! Havia pelo
menos meia dúzia de rapazes de olho, mas Kelly, após quase uma semana avaliando
as possibilidades, optou pelo cearense. Elói, que vem do latim eligere, por sinal, significa o
escolhido, o eleito.
Após quase dois
meses de namoro, Kelly decidiu que era hora de apresentar o amado aos pais.
Seria justamente no domingo seguinte, quando Gumercindo iria preparar um
churrasco para os colegas de banco.
Elói, nerd da tecnologia,
resolveu aprender um pouco da cultura gaúcha para não fazer feio diante dos
sogros. Buscou na internet um pouco do vocabulário típico sulista. Treinou
algumas palavras em frente ao espelho. Afinal, queria parecer o mais natural
possível.
O gajo não queria
ficar borracho e, por isso, precisaria controlar a bebida, ainda mais porque
não teria como chamar um táxi, e iria mesmo voltar de banzo. Pensou em levar
umas bergas, mas declinou, pois imaginou que o sogro pudesse achá-lo um
chinelão.
Churra, cusco,
mandar pra banha, cacetinho, chima, maniático, posudo, pilchado, sangria
desatada... A lista, de tão enorme, acabou provocando certa confusão no Elói.
Por isso, ele decidiu que já estava de bom tamanho.
Mal chegou à casa da namorada, Elói estranhou a vestimenta do sogro, que estava paramentado que nem gaúcho típico: bombacha, camisa, botas, chapéu, chiripá e colete. Só não estava de pala porque a temperatura estava aprazível.
Apresentado aos
anfitriões, Elói, a princípio, refugou. Todavia, pigarreou e, não tardou,
pareceu ser o dono da situação.
— Satisfação, seu Gumercindo. Satisfação,
senhora Aurora. Aliás, agora sei de onde a minha prenda puxou tanta
belezura.
Gumercindo observou o quase guri, abriu um
sorriso por debaixo do vasto bigode e, talvez para não causar constrangimento
desnecessário, lhe ofereceu um lugar à mesa. Não demorou, o dono da casa pegou
o porongo com mate e pediu para a filha entregá-lo ao namorado. A partir desse
instante, a coisa começou a desandar. Elói, com a cuia em mãos, tentou
buscar pela memória o nome daqueles apetrechos.
— Seu Gumercindo, como é mesmo que a gente chupa esse
canudinho?
O homem, cara de reprovação, arregalou os olhos, deu duas ou três
bufadas, mas foi contido por Aurora, que lhe tocou o braço. Entretanto,
Elói, que percebeu o constrangimento causado, quis consertar a situação, mas a
emenda saiu pior que o soneto.
— Seu Gumercindo, me
perdoe! Como sou tapado! Sei que o nome certo desse canudinho é cacetinho. E
aprendi que cada um chupa um pouco e vai passando pro outro. Depois de mim,
quem vai ser o próximo a chupar o cacetinho? Vai ser a senhora, dona Aurora?
Pelo visto, ficou óbvio que o romance não vingou. Kelly trocou de namorado rapidinho. Um pernambucano. E, antes de apresentá-lo aos pais, resolveu aguardar pelo menos seis meses para que o sujeito não cometesse as mesmas barbaridades do Elói. Aliás, ele ainda está solteiro.
- Nota de esclarecimento: O conto "Elói, o namorado trapalhão" foi publicado no Notibras no dia 10/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/eloi-o-namorado-trapalhao/

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