— E tu por acaso tem medo de um velho dessa idade?
— Pois aguarde e ouça, Pedrito.
— Hum! Tu é mesmo um frouxo, Rogério!
— Frouxo, é? Então você que é o valentão? Queria ver se você ficaria
assim com essa cara de brabo na frente do Laurindo Guimarães.
— Pois conte logo, que preciso esticar as canelas porque a Rafaela hoje
quer sair hoje pra comemorar.
— Comemorar, é? E vocês vão comemorar o quê?
— Num é da sua conta. Fale logo sobre esse tal Laurindo das couves.
— Guimarães! Olha que o bicho era tinhoso com brincadeira desse tipo.
— Pois conte logo, vá!
Como estava dizendo, Laurindo Guimarães era frio e extremamente violento.
Um tipo assim meio Lampião e Zé do Caixão. Ninguém podia com ele, e os que se
atreviam a tentar logo se arrependiam, pois o cabra era bom de tiro e, se as
balas acabassem, cortava o bucho do petulante com a peixeira.
Era noite escura, dessas de fazer medo até em assombração, quando três
forasteiros... Digo que eram forasteiros porque me contaram, mas nem precisavam
me falar, pois só gente de fora que se atreveria a enfrentar o Laurindo. Só
besta mesmo para tentar a sorte com quem não deve.
Pois esses três desaforados viram o Laurindo
cambaleando quando já passava da meia-noite, como se estivesse bêbado. E
acredito que estivesse, já que o homem era chegado a uma branquinha, fosse com
limão, fosse com mel, fosse até pura. Ele gostava de andar calibrado.
Os atrevidos quiseram meter um assalto justamente no tipo mais indigesto
que já pisou por aqui. Lógico que nem desconfiavam na enrascada que estavam se
metendo, ainda que o homem estivesse bêbado. Ainda que estivessem armado de revólveres e
atirassem de longe, precisariam ter pontaria certeira, pois o chumbo viria
grosso do outro lado. Mas não! Confiaram nos punhos e se deram mal.
Os caras cercaram o Laurindo e começaram a ameaçá-lo. Queriam não apenas
roubar a carteira, mas a honra do sujeito. E você sabe, né, que sujeito homem
não se dobra facilmente, ainda mais um tipo que nem o Laurindo Guimarães. Ih,
aquele lá era osso duro de roer até para onça-pintada.
Mandaram o Laurindo passar a carteira e falaram que iriam lhe dar uma
surra que nem mãe dá em menino. Mal terminaram de dizer tais palavras, o
primeiro tombou com um murro no nariz. E o coice foi tão forte, que os
comparsas se assustaram com o som seco de osso partindo.
Os dois devem ter pensado em fugir, mas não o
fizeram porque as pernas, de tão trêmulas, não deixaram. E o sopapo comeu
solto, até que, ensanguentados, foram ao chão. Mas a coisa não parou por aí.
Aliás, foi a partir daí que o festival de horrores teve início.
Se fosse outro, certamente iria embora e
a história acabaria daquele jeito. Porém, as coisas não funcionavam assim com o
Laurindo. Não mesmo! Violência era tão arraigada nele, que eram os raros que se
atreviam a lhe olhar nos olhos.
Laurindo abriu o bucho dos três
desafortunados, arrancou as tripas e deu para alguns vira-latas que estavam por
ali. Pegou o fígado de um e arrancou um naco com os dentes. Engoliu. Mordeu
mais um pedaço, mas pareceu não apreciar o gosto. Cuspiu. Depois foi embora,
enquanto os cachorros se refestelaram com aquele banquete.
Assim que amanheceu, os moradores
encontraram os corpos. Todos sabiam que aquilo só podia ser obra do Laurindo
Guimarães. Ninguém teve coragem de denunciar. E quando o camburão chegou ao
local, os policiais tiveram certeza de que o autor era o Laurindo. E você acha
que prenderam o homem? Nananinanão. Para você ver! Nem a polícia queria bater
de frente com o demônio.
Pois é, esse
era o Laurindo Guimarães, o tipo mais desalmado que já pisou por estas bandas.
Ninguém podia com ele. Dizem até que não era humano. Falavam que era bicho.
Mistura de cachorro louco com jararaca.
— Pedrito, meu amigo,
você tá bem?
— Posso usar o seu
banheiro? Num sei o que me deu, mas parece que esse torresmo não me caiu bem.
- Nota de esclarecimento: O conto "Laurindo Guimarães, um tipo frio e extremamente violento" foi publicado no Notibras no dia 21/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/laurindo-guimaraes-um-tipo-frio-e-extremamente-violento/

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