Agora já passados dos 80, as lesões corporais mútuas pareciam
coisas do passado. Além do mais, não ficaria bem dois velhos rabugentos se
engalfinharem. Entretanto, não era caso de reconciliação. Mas a conspiração
sempre está à espreita.
Brasília, apesar de capital, é um ovo. Ovo de codorna, por
sinal, onde todo mundo se conhece, seja através da sogra ou do cunhado indigesto,
seja do bichano ou do papagaio da vizinha. E, por conta de tal conjuntura, eis
que um dos netos do Argemiro foi se engraçar justamente por uma das netas do
João.
De namorico, a coisa ficou séria. Os jovens
já falavam até em casamento, como se casar fosse a coisa mais fácil do mundo.
Se soubessem, nem cogitariam tal possibilidade.
O enlace já durava um ano e, por isso, os
enamorados resolveram comemorar. E fizeram questão de que a parentada estivesse
presente. E ai de quem faltasse!
Até aí, tudo bem, mesmo porque Argemiro e
João não desconfiavam de que corriam sério risco de se tornarem parentes. E
descobriram da pior forma possível.
Júlia e Roberto, o casal em questão,
inocentes, puros e bestas, nem desconfiavam da longeva animosidade dos respectivos
avós. Dessa forma, querendo firmar laços familiares, eis que os pombinhos
puxaram Argemiro.
— Vem, vô! O senhor vai adorar o avô da Júlia.
— Depois, Roberto.
— Não, seu Argemiro. Vem conosco, que o meu
avô é muito legal.
Diante de tanta insistência, lá foi o idoso conhecer o parente
da quase neta por afinidade. O trio cruzou o salão e, depois de alguns
cumprimentos pelo trajeto, se viu diante da mesa do João. Nenhum dos idosos
parecia acreditar naquilo.
Argemiro e o desafeto, olhos arregalados, lábios torcidos, não
conseguiram manter a compostura. Atracaram-se que nem meninos na hora do
recreio. Foi preciso intervenção quase divina para apartar os brigões.
Lanhados, mas vivos, cada um no seu canto, foram lamber as próprias feridas. Que situação!
- Nota de esclarecimento: O conto "Desafetos desde sempre" foi publicado no Notibras no dia 4/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/desafetos-desde-sempre/
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