Thiago, cinco minutos mais velho, talvez o
mais malévolo, tendia a provocar medo nas pessoas, enquanto o caçula, vez ou
outra, parecia pender para a candura. O problema é que ele era, de certo modo,
dominado pelo irmão, que sempre o puxava de volta para o lado vil.
— Deixa de ser medroso, Matheus!
— Não é medo.
— Então, é o quê?
— Você não nunca sente remorso?
— Remorso?
— É. Você viu como a Raimunda ficou da última
vez.
— E daí?
— E daí? Você ainda pergunta e daí?
— Tu é mesmo um molengão!
— Não sou. Mas é que...
— É que o quê, Matheus?
— Às vezes me dá pena dessa gente.
— Pena? E tu agora é galinha? Có-có-có!
Có-có-có!
— Para!
— Só paro se você vier comigo.
— Tá bom! Mas vai ser a última vez, hein?!
Nessa época em questão, verão de 1992, os dois, então com 15 anos,
estavam passando alguns dias na fazenda dos avós, localizada em Padre Bernardo,
município goiano próximo ao Distrito Federal. Provavelmente entediados pela
calmaria do local, resolveram dar um susto na Josefina, a Fina, cozinheira da
propriedade.
Mulher de estatura baixa, corpulenta, cuja face arredondada
passava só bondade. Não poderia ser considerada velha, apesar de já passada com
certa folga dos 50 anos. Aparentava certa timidez, mas sabia sorrir quando
diante de uma boa conversa com os patrões, Esther e Hélio.
A ideia era esperar que todos dormissem, o que
acontecia quase sempre antes das 22h. E foi o que ocorreu naquela noite de lua
nova, o que tornou a região pura escuridão.
— Vamos, Matheus. Já deu a hora.
— Você tem certeza?
— Do jeito que está quieto, até se cair uma pétala dá pra
se ouvir.
— Ok.
O quarto da Fina ficava na parte de trás da casa, logo
abaixo do quarto dos rapazes, no segundo andar. Ela gostava de dormir de janela
aberta, pois era muito calorenta. E Thiago e Matheus, com uma faca e muita
paciência, haviam tirado todo o conteúdo de uma melancia, feito dois grandes
olhos, um nariz e uma boca com dois dentes, um em cima, outro embaixo. Mais ou
menos como os estadunidenses fazem com a abóbora no tal Halloween. Completaram a arte com uma lanterna e um pequeno
toca-fitas na parte interna e prenderam um gancho amarrado a uma corda.
Tudo pronto, Matheus acionou a tecla do aparelho, que
começou a reproduzir a voz do Zé do Caixão. Logo em seguida, com a ajuda do
irmão, começou a descer a melancia iluminada pela luz da lanterna. Os adolescentes
tentavam abafar o riso, até que, de repente, sentiram que alguém havia puxado a
melancia com tanta força, que os dois, pegos de surpresa, acabaram soltando a
corda.
Sem saber o que fazer, Thiago e Matheus voltaram para cama
e fingiram dormir até que, finalmente, adormeceram. Só despertaram quando a
manhã já avançava, e a avó os chamou para tomar café. Cheios de fome, os irmãos
desceram a escada rapidamente e foram até a cozinha, onde, para surpresa dos
dois, só encontraram a avó. Thiago, então, a interrogou:
— Ué, vó, cadê a medrosa da Fina?
— Medrosa? Por que tá falando que a Fina é medrosa?
— Ah, não é nada, não, vó.
— Pois saiba você que a Fina não tem medo de nada.
— De nada? Nem de assombração?
— Assombração? Hum! Thiago, você deve estar de brincadeira.
A Fina nasceu no caos.
Antes que os gêmeos pudessem dizer algo, eis que a porta se abre e surge
a Fina. Ela havia passado a noite na casa de uma das filhas, na cidade, o que
deixou o Thiago e o Matheus confusos.
Fina tratou de encher uma xícara com o café e, virando-se
para os jovens, disse:
— Não sei vocês, que são lá de Brasília. Mas, aqui na roça,
ninguém resiste ao café da dona Esther. Uma delícia só.
A cozinheira sorriu e deu uma piscadela para os gêmeos, que, olhos arregalados, sentiram um frio correr por todo o corpo.
- Nota de esclarecimento: O conto "Gêmeos perversos" foi publicado no Notibras no dia 11/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/gemeos-perversos/

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