O sujeito tentou buscar na memória quando é
que ele havia perdido esse modo livre de encarar a vida. O que teria mudado
nesses anos todos? Teria sido algo substancial ou, então, somos meras cópias
separadas por gerações? Se isso fosse verdade, quando é que Olívia se
transformaria numa covarde? Não, não e não! Era difícil para Manuel aceitar que
sua cria, que se divertia com aquela atração irresistível da Terra sobre os
corpos, não tardaria, seria igual a ele.
Assustou-se com uma borboleta, que, atrevida,
pousou em seu ombro. Por sorte, conteve o grito, o que certamente geraria
reações nos presentes na praça. Como é que podia algo daquele tipo? Medo de
borboleta? Se ao menos fosse uma abelha ou marimbondo. Não! Apenas uma simples
borboleta.
Enquanto anotava mentalmente os feitos de
Olívia, Manuel procurava eternizá-los para, quando ela estivesse maior,
contar-lhe. Será que ela se lembraria do quão fora tão destemida um dia? Melhor
seria filmar do que confiar na memória.
Manuel pegou o telefone e abriu a câmera. Já
estava pronto para registrar todos os momentos impávidos da herdeira, quando
foi interrompido por uma voz irresistível.
— Papai, vem aqui.
Sem alternativa diante daquele pedido, Manuel guardou o aparelho no bolso e foi brincar com a filha, antes que o tempo, ligeiro que nem preá fugindo de lobo-guará, transformasse toda aquela valentia em gente adulta.
- Nota de esclarecimento: O conto "O pai, a filha e a gravidade" foi publicado no dia 28/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/o-pai-a-filha-e-a-gravidade/
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