terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Encontro inusitado

     

Passos firmes no final da rua, que ecoaram pelo beco decadente, cujos esgotos eram disputados por ratos que intimidariam até o mais atrevido dos gatos. Lúcio estacou, as pernas trêmulas o traíram. Sem opção, precisou encarar o próprio medo e, não tardou, ficou de frente com a silhueta enegrecida na penumbra, até que, tocado pelo filete de luz do único posto, surgiu o rosto de uma mulher de cabelos enegrecidos. 

        — Quem és tu a esta hora?

        — Você é a morte?

        — Quem és tu?

        — Lúcio.

        — Lúcio Lopes da Silva?

        — Como você sabe?

        — Quer mesmo saber?

        O sujeito arregalou os olhos e, mesmo curioso, a coragem lhe escapou. No entanto, quis saber o nome da misteriosa mulher.

        — Posso saber o seu nome?

        — Prefiro tomar uma caipirinha.

        — Agora?

        — Por quê? Não gosta?

        — Gosto. 

        — Então?

        — Tá! Mas onde vamos encontrar um boteco aberto agora?

        — Já deixei uma mesa reservada pra gente bem ali.

       Para espanto de Lúcio, havia realmente uma mesa com dois copos com doses generosas de caipirinha, além de uma garrafa de pinga de Salinas. Até um prato caprichado de peixe frito. Nem se atreveu a questionar de onde surgira aquelas iguarias. O gajo estava certo do poder de convencimento da tal nebulosa criatura. 

          Sentados um de frente para o outro, a dama convidou Lúcio para um brinde. Em seguida, certo de que estava diante do crepúsculo da vida, Lúcio não se fez de rogado e começou a relembrar todos os podres cometidos desde o instante em que a memória foi capaz de alcançar. E não pense que foram poucos.

          Após horas naquele lugar, eis que os primeiros raios da manhã se fizeram presentes. Lúcio, notório fraco com bebida, aparentava espantosa sobriedade. Ele trocou alguns olhares com a interlocutora, que, àquela altura, lhe parecia conhecida de longa data. Ela lhe lançou um sorriso, levantou-se e se despediu com um aperto de mão.

        — Já vai?

        — Sim.

        — Pensei que você fosse me levar.

        — Outro dia, talvez.

        — Posso saber o seu nome?

        — Pensei que já soubesse.

        — Não. Não sei.

        — Aurora.

       Virou-se e foi embora. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Encontro inusitado" foi publicado no Notibras no dia 23/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/encontro-inusitado/

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