— Mãe, a senhora tá bem?
— Tô.
— Tem certeza?
— Sim, Laura, estou.
— Vem comer um pouquinho. A farofa de couve está uma
delícia.
Puxada pela filha, Júlia sorriu, como se aquilo pudesse
apagar suas memórias. Ela até se divertia e, não raro, apesar de ter vivenciado
tais momentos, ficava surpresa com a criatividade de seu pai, Marinelson.
Júlia não se recordava do ano exato, mas era
algo próximo a 1966, talvez 1968. A família, composta pelos pais e cinco
filhos, incluindo Júlia, se apertava em um barraco no Paranoá, então cidade
satélite do Distrito Federal. Tempos em que não se tinha certeza de que teriam o
que comer no dia seguinte. Espécie de roleta-russa da arte da sobrevivência.
Enquanto parte da capital do país estava
extasiada pelas luzes do Natal daquele longínquo ano, Júlia e os parentes se
preparavam para dividir meia panela de arroz, farinha e um punhado de feijão,
quando seu pai chegou com uma enorme caixa de papelão vazia. Todos voltaram os
olhos para o sujeito, pois não entendiam qual seria o objetivo daquilo.
Laurentina, a esposa, foi a primeira a questioná-lo:
— O
que você vai fazer com isso, meu bem?
— Tá
aqui o nosso presente de Natal.
— Uma
caixa de papelão?
— Não,
Júlia. Isto não é apenas uma caixa de papelão.
— Não?
E o que é, então, papai?
— O
que você quiser, minha filha.
O homem estava certo. Aquela caixa foi transformada em cabana, em carruagem, até em disco voador. A mera caixa de papelão era um mundo. E, pela primeira vez, Júlia aprendeu o que era sonhar. E, desde então, nunca mais parou.
- Nota de esclarecimento: O conto "Reminiscências de um Natal de outrora" foi publicado no Notibras no dia 25/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/reminiscencias-de-um-natal-de-outrora/

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