Não sei se você viveu os conturbados
anos 1970, quando um curso de datilografia era praticamente um divisor de águas
entre conseguir ou não um emprego em alguma repartição. E, quanto mais ágeis
fossem os dedos, maior era o status do funcionário.
Não pense você, no entanto, que era todo mundo que conseguia se entender bem com aquela que hoje é alcunhada de trambolho, mas que antigamente era a tal máquina de escrever. Alguns, seja por falta de traquejo ou, não duvido, seja até por certa timidez, se desmanchava em nervosismo quando as digitais tocavam nas teclas. E a coisa desandava de vez quando o texto era ditado por um superior hierárquico.
Gregório,
definitivamente, era o mais notável no ofício. Não importava quem fosse ditar,
fosse até mesmo Luís Carlos que, por conta da fala, de tão apressada, era
apelidado de Ligeirinho.
Após anos
recebendo elogios, Gregório passou a colecionar certos sentimentos. A
princípio, aparentemente bons: autoestima, brio, dignidade, satisfação, honra e
até mesmo boa dose de pundonor. Todavia, como nem tudo na vida é um passeio no
parque num domingo ensolarado, eis que a altivez começou a se apoderar do se
âmago. Pior, a arrogância misturada com vaidade e pitadas de presunção e
essência de desdém, até que o sujeito perdeu todas as estribeiras e passou a
não disfarçar a própria soberba.
Não
obstante o modo desprezível de agir, Gregório possuía cartaz com a alta cúpula
do escritório. Tanto é que, numa sexta-feira, foi chamado às pressas para
digitar duas ou três laudas na sala de um dos diretores. E lá foi o homem, todo
empertigado, cumprir mais uma missão com seus dedos infalíveis.
Já no
último andar, Gregório caminhava pelo corredor em direção ao seu destino,
quando passou por uma sala aberta e viu uma mulher em frente a uma máquina de
escrever último modelo. Curioso, ele se aproximou e, ao perceber que a fulana,
dedos indicadores em riste, teclava lentamente, tamanha a dificuldade de
encontrar as letras, fez um comentário jocoso.
— Do
jeito que você bate à máquina, minha senhora, não demora, vai ser mandada
embora.
A mulher
encarou o intrometido e, com um sorriso sarcástico nos lábios, disse:
— Meu amigo, se liga! Sou cargo comissionado.
- Nota de esclarecimento: O conto "Gregório, o ás da máquina de escrever" foi publicado no Notibras no dia 6/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/gregorio-o-as-da-maquina-de-escrever/

Nenhum comentário:
Postar um comentário