segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Idos de 1975

     

Desde que me atinei sobre a profissão do meu pai, em 1975, justamente depois do que ocorreu no meu aniversário de 18 anos, percebi que a vida, por mais que tentem nos ensinar que a bondade leva ao paraíso, nem sempre apresenta um caminho coberto por pétalas. Os espinhos, mesmo que encobertos pela folhagem, ferem e, não raro, deixam marcam profundas. 

          Não sei se mamãe sabia o que o marido fazia ou, então, fazia questão de fechar os olhos, como se preferisse sobreviver a ter que encarar uma realidade contraditória com a bondade que buscava aos domingos na igreja. Não a culpo e nunca o fiz, apesar da revolta que me tomou na juventude. E essa conversa, que foi adiada até há pouco, se transformou em monólogo de minha parte, quando desabafei para minha mãe, cujo olhar alheio por conta do avançado estágio do Alzheimer, pareceu mais interessado no nada ou, então, voltado para um passado que só ela parece querer visitar. 

          Conheci Álvaro no verão de 1974. Ele parecia mais interessado em Laura, minha prima. Não o culpo, pois ela, desde sempre, atraiu todos os olhares, inclusive de quem não deveria, como insistem em nos incutir desde cedo. No entanto, no final daquela tarde, foram os meus lábios que encontraram os dele pela primeira vez. 

          Desde o início, eu me mostrei mais interessada no namoro, enquanto Álvaro agia como se aquilo fosse algo passageiro, coisa de fim de semana. Só anos mais tarde que entendi que ele estava envolvido com algo muito mais urgente do que hormônios aflorados, o que não impediu que, ainda hoje, eu carregue certa mágoa. 

          Na festa do meu aniversário, apresentei Álvaro à minha mãe, que estava na sala conversando com algumas amigas. Ela me perguntou se papai já sabia, e eu respondi apenas com dúvidas de como ele reagiria. Mamãe segurou minhas mãos e disse que ficaria tudo bem.

          Decidida, puxei Álvaro pelo braço e fomos ao jardim, onde papai conversava animadamente com os mesmos homens de sempre: Oliveira, Gomes, Gentil e o Pereira, que era o meu padrinho de batismo. Como era de se esperar, todos voltaram os olhares para o meu namorado. Afinal, ainda mais naquele tempo, era comum desconfiarem das verdadeiras intenções do pretendente da filha, que também era única. 

          Papai, talvez querendo quebrar o gelo, brincou com os amigos.

           — Minha filha, acreditem, vai tirar a carteira de motorista.

           Todos riram, mas Álvaro pareceu assustado, ainda mais quando o meu padrinho me deu os parabéns. O meu namorado, então, disse que precisaria ir embora, pois havia se esquecido de dar comida para o cachorro. E eu que nem sabia que ele tinha um. 

           Meu pai, antes que Álvaro saísse, fez questão de apertar a sua mão e, para minha surpresa, demonstrar algo que, naquele instante, me pareceu afeto. Ele o puxou para perto, lhe deu um abraço apertado e disse.

            — Que tal o namorado da minha Lúcia, Pereira? Gostou dele? Pois eu gostei muito! Seja bem-vindo à família!

           Parecendo sentir certo desconforto, Álvaro conseguiu se desvencilhar dos braços do meu pai, virou as costas e foi embora. Só o encontrei dois meses depois. E quase não o reconheci.

             Os antigos cabelos encaracolados agora estavam curtos e lisos. Ostentava um bigode, idêntico ao usado por meu pai. Ele passou por mim e, talvez, não tenha me visto ou, não duvido, tentou me evitar. Tive que apertar o passo para alcançá-lo antes que ele entrasse em um táxi.

            — Álvaro! O que aconteceu?

            Ele pareceu assustado e tentou entrar no táxi, mas eu o impedi.

            — O que houve? Não vai me contar?

          Álvaro me encarou por um instante, até que, finalmente, me confidenciou.

            — Lúcia, preciso ir. Estão me esperando. Vão me tirar o país.

            — Como assim? E a gente?

            — Não tem a gente, Lúcia.

            — Por quê? O que eu fiz?

            — Nada. Você não fez nada. O problema é o seu pai.

            — Meu pai? Como assim?

            Álvaro olhou para os lados e, talvez percebendo que me devia alguma explicação, dispensou o taxista. Depois me puxou pelo braço e fomos para debaixo de uma árvore. Ele me disse que, pouco antes de me conhecer, havia sido preso por subversão. E que meu pai e o meu padrinho o haviam torturado. 

            — Lúcia, meu amor, eu estava encapuzado, mas os reconheci pelas vozes. Sei que foram eles. E eles sabem que eu sei. Você viu o jeito que seu pai me tratou? Ele sabe que eu sei. Ele sabe. E seu padrinho, o tal Pereira, também sabe. Preciso ir. Desculpe. Preciso ir agora. Estão me esperando. 

          Papai sabia, disso não tenho a menor dúvida. Por anos ele me perguntou por onde andava aquele meu namorado. Ele sorria e dizia que estava com saudade. Isso me dava calafrios, mas essa conversa nunca foi além disso.

            Há pouco tempo, encontrei o Álvaro em um churrasco na casa de amigos em comum. O mesmo sorriso franco, aqueles olhos castanhos honestos. Não sei se ele me reconheceu. Afinal, já se passaram 50 anos. Senti vontade de lhe contar, mas talvez não valesse a pena. Papai enfartou logo após a redemocratização do país, em 1986. Eu me casei, divorciei, tornei a me casar e a me separar mais duas vezes. Nem sei o que se passou na sua vida desde a nossa despedida naquela tarde de 1975. E, apesar da curiosidade, creio que consigo viver bem com isso. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Idos de 1975" foi publicado no Notibras no dia 29/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/idos-de-1975/

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