quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

J. Emiliano Cruz, Brígida de Poli e Wagner Moura

 

    Eis que, de repente, me deparo com uma fotografia do escritor J. Emiliano Cruz se fazendo de Wagner Moura em O agente secreto. Penso por um instante nos excelentes ator e filme, mas logo deixo isso de lado para tentar desvendar, detetive que sou, com quem o Jota estaria falando. No entanto, eis que a minha esposa, a Dona Irene, que também já foi fotografada em situação semelhante, me dá quase uma bronca.
   
    — Edu, o Jota não está falando com ninguém. Ele está apenas posando pra foto.
   
    Volto os olhos para a minha linda mulher e apenas sorrio. Não sou besta de contestá-la, pois bem sei que seria incapaz de vencê-la na retórica. Todavia, não duvido que o grande escritor gaúcho, mesmo que em pensamento, estava trocando confidências sobre seu próximo conto. Mas com quem?
        
    Seria com a misteriosa B? Sim, há uma mulher enigmática com esse codinome, que, não raro, aparece nos textos desse autor talentosíssimo. E eu, talvez, seja um dos raros que sabem quem é a dita cuja. Ela é real e, acreditem, também é escritora. 
       
    Brígida de Poli. Não falei que sei quem é? Pois é a própria! Jornalista e escritora, autora de No escurinho do cinema - memórias de uma cinéfila. Hum! Tá vendo como minha tese é plausível. Aliás, factível e digna de nota. Mesmo assim, prefiro mantê-la em segredo da Dona Irene. Vá que ela me dê um carão.
            
    Apaixonada por cinema que é, a Brígida é certamente a interlocutora do outro lado da linha. Mas a dúvida não acaba aí, pois também é urgente descobrir o que o nosso agente secreto da literatura estaria conversando com a amiga cinéfila.  
            
    Enquanto quebro a cuca tentando desvendar o interlúdio dos escribas, a minha mulher dá uma olhadela nas minhas anotações. Parece que ela encontrou a solução ou, ao menos, a ponta do fio da meada.
            
    — Edu, tu que é escritor, por que não transforma essa crônica num conto?
            
    — O quê? E isso pode?
            
    — Ah, Edu, me poupe, se poupe e nos poupe! Você é um escritor ou um rato?
            
    — Quiiii.
         
    A minha imitação de rato pareceu não receber qualquer nota de empatia da minha gata, que me fuzilou com seus lindos olhos castanhos. Desse modo, sem alternativa, tratei de me apegar àquela ideia.
           
    E lá estava o Jota falando ao orelhão com a enigmática B, quando, do nada, ela se materializou ao seu lado trajando roupas emprestadas da sua amiga Margaretha Geertruida MacLeod. Talvez por conta do susto, o nosso agente secreto não a tenha reconhecido.
            
    — Mata Hari?
        
    — Não, Jota! Sou eu, a B.
        
    — Brígida?
          
    — Desse jeito você vai estragar o meu disfarce.
          
    — Desculpe. É que você não me avisou que vinha tão de pressa.
          
    — Hum! Jota, Jota, e olha que eu recusei um papel de Bond girl com o Sean Connery para estar aqui.
       
    Enquanto o Jota tentava processar tamanhas informações, eis que a B o puxou de volta para a realidade.
            
    — Vamos, antes que seja tarde demais. Comprou os ingressos?
            
    — Sim! Estão aqui.
           
    Cinco minutos após, lá estava o improvável casal sentado em poltronas na frente da telona. 
            
    — B, me passa a pipoca.
            
    — Não sei como é que você consegue comer numa hora dessas.
            
    — É que quando estou nervoso bate aquela fome.
            
    — Pelo menos mastiga baixinho, que está tirando a minha concentração.
            
    — Desculpe, B.
          
    O filme O agente secreto prosseguia até que a famosa cena surgiu. Lá estava o Wagner Moura, quer dizer, Marcelo/Armando, diante do orelhão, quando a B cutucou o Jota.
            
    — Vamos! É agora! Ou a cena passa e nosso plano vai pro espaço.
            
    Não me pergunte como aconteceu, mas aconteceu. Pois lá estavam a B e o Jota bem ao lado do Wagner Moura, que imaginou que a cena havia sido cortada. Ele até se desculpou com os dois, pensando que seriam da produção. Entretanto, antes que o ator pudesse dizer alguma coisa, a B colocou um pano com éter nas suas narinas, fazendo-o desfalecer que nem a Bela Adormecida nos braços do Jota.
            
    Graças à intervenção dos nossos heróis, o filme não terminou do mesmo jeito que nas demais salas de exibição. Mas não pense você que a coisa parou por aí. Nananinanão!
            
    — Quem são vocês?
            
    — Boa noite, seu Wagner! Sou o escritor J. Emiliano Cruz, mas pode me chamar de Jota. Esta aqui ao meu lado é a misteriosa B, mas na verdade se trata da grande escritora Brígida de Poli.
            
    — Prazer, seu Wagner. Sou muito fã do senhor.
            
    — Vocês são loucos ou o quê?
          
    Jota e B se entreolharam e, então, a mulher prosseguiu.
            
    — Na verdade, seu Wagner, somos escritores e apaixonados por cinema. E o que fazem com o senhor, quer dizer, com o Marcelo nesse filme é uma maldade tão grande, que pensamos em salvá-lo.
            
    — Sim! Foi exatamente isso, seu Wagner! O senhor quer uma pipoquinha?
          
    Wagner Moura olhou aqueles dois, balançou a cabeça, sorriu e acabou aceitando a tal pipoca. Em seguida, virou as costas e sumiu na escuridão enquanto os letreiros subiam. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "J. Emiliano Cruz, Brígida de Poli e Wagner Moura" foi publicado no Notibras no dia 31/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/j-emiliano-cruz-brigida-de-poli-e-wagner-moura/

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Uma pianista em minha vida

 

       Cátia. Não me lembro do sobrenome, mas sei que seu nome era Cátia. Nem desconfiava do significado, certamente nem sabia que existia um, mas gostava da sonoridade. 

          Enquanto a maioria de nós estava com 10, 11 anos, a minha musa já ia completar 13. Esse abismo, que hoje parece um furo de agulha numa cratera da Lua, antes era motivo para colocá-la num pedestal. E, para minha surpresa ainda hoje, não pareceu que fosse barreira para que ela se afastasse da minha presença. 

          — Pedro, você é tão inteligente.

          Eu tentava desvendar aqueles lindos olhos castanhos por detrás dos óculos de armação redonda, enquanto ela insistia.

          — Pedro, como é que você não se confunde com tantos números? E esses sinais de mais, de menos, de vezes e de dividir? Preciso usar os dedos das mãos e dos pés pra não me perder.

          Cátia falava e eu observava aqueles dedos compridos de pianista. Teria ela um piano em casa? Mesmo diante do improvável, coloquei na cabeça que a minha musa era uma virtuose do piano. 

          — Você me ensina matemática, Pedro?

          — Você não sabe?

          — Sou péssima!

          — Não pode ser.

          — É verdade. Sou péssima mesmo.

          — Num pode ser.

          — Por quê?

          Não sabia como responder e, então, abaixava os olhos e me encolhia que nem pescoço de tartaruga para dentro do casco. No entanto, era difícil de acreditar que alguém que usava óculos e tocava piano não sabia lidar com números. Seja como for, durante o recreio, passei a ensinar matemática à garota mais linda da escola. 

          Cátia não se tornou uma exímia matemática, o que não a impediu de passar de ano com certa tranquilidade. As férias chegaram e, pela primeira vez na vida, senti aquela angústia dos corações apaixonados, que preferia o retorno breve das aulas a ter mais um dia sem o amor da minha vida. E, para meu desespero, no início do ano letivo, não havia mais Cátia. Ninguém sabia o que teria acontecido a ela, apesar das fofocas que diziam que a garota da minha vida havia se mudado para outra cidade. 

          Os anos seguintes transcorreram aos trancos e barrancos. Quase repeti o ano duas ou três vezes, mas a recuperação me salvou. Por ironia, o que passou a ser o meu tormento foi justamente a matemática. Ciente de que havia um bloqueio, quando chegou o vestibular, optei por fazer psicologia. Creio que fiz a escolha adequada, pois desde então é o caminho que tenho trilhado.

          Nunca me casei, apesar de paixões momentâneas, que me fizeram prometer amor eterno. Tudo não passou de devaneio de um solitário, cujo coração ainda sangra por conta da incerteza do que aconteceu com a minha antiga colega de sala. Estaria em turnês intermináveis ao redor do mundo? Morrera debaixo de um carro desgovernado? Teria se tornado mãe ainda jovem e, hoje, mesmo que de relance, se recordaria daquele menino que lhe ensinou primícias da matemática? Seria feliz? Se ao menos soubesse seu sobrenome, mesmo que fosse Silva, Souza ou Santos.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Uma pianista em minha vida" foi publicado no Notibras no dia 30/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/uma-pianista-em-minha-vida/

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Idos de 1975

     

Desde que me atinei sobre a profissão do meu pai, em 1975, justamente depois do que ocorreu no meu aniversário de 18 anos, percebi que a vida, por mais que tentem nos ensinar que a bondade leva ao paraíso, nem sempre apresenta um caminho coberto por pétalas. Os espinhos, mesmo que encobertos pela folhagem, ferem e, não raro, deixam marcam profundas. 

          Não sei se mamãe sabia o que o marido fazia ou, então, fazia questão de fechar os olhos, como se preferisse sobreviver a ter que encarar uma realidade contraditória com a bondade que buscava aos domingos na igreja. Não a culpo e nunca o fiz, apesar da revolta que me tomou na juventude. E essa conversa, que foi adiada até há pouco, se transformou em monólogo de minha parte, quando desabafei para minha mãe, cujo olhar alheio por conta do avançado estágio do Alzheimer, pareceu mais interessado no nada ou, então, voltado para um passado que só ela parece querer visitar. 

          Conheci Álvaro no verão de 1974. Ele parecia mais interessado em Laura, minha prima. Não o culpo, pois ela, desde sempre, atraiu todos os olhares, inclusive de quem não deveria, como insistem em nos incutir desde cedo. No entanto, no final daquela tarde, foram os meus lábios que encontraram os dele pela primeira vez. 

          Desde o início, eu me mostrei mais interessada no namoro, enquanto Álvaro agia como se aquilo fosse algo passageiro, coisa de fim de semana. Só anos mais tarde que entendi que ele estava envolvido com algo muito mais urgente do que hormônios aflorados, o que não impediu que, ainda hoje, eu carregue certa mágoa. 

          Na festa do meu aniversário, apresentei Álvaro à minha mãe, que estava na sala conversando com algumas amigas. Ela me perguntou se papai já sabia, e eu respondi apenas com dúvidas de como ele reagiria. Mamãe segurou minhas mãos e disse que ficaria tudo bem.

          Decidida, puxei Álvaro pelo braço e fomos ao jardim, onde papai conversava animadamente com os mesmos homens de sempre: Oliveira, Gomes, Gentil e o Pereira, que era o meu padrinho de batismo. Como era de se esperar, todos voltaram os olhares para o meu namorado. Afinal, ainda mais naquele tempo, era comum desconfiarem das verdadeiras intenções do pretendente da filha, que também era única. 

          Papai, talvez querendo quebrar o gelo, brincou com os amigos.

           — Minha filha, acreditem, vai tirar a carteira de motorista.

           Todos riram, mas Álvaro pareceu assustado, ainda mais quando o meu padrinho me deu os parabéns. O meu namorado, então, disse que precisaria ir embora, pois havia se esquecido de dar comida para o cachorro. E eu que nem sabia que ele tinha um. 

           Meu pai, antes que Álvaro saísse, fez questão de apertar a sua mão e, para minha surpresa, demonstrar algo que, naquele instante, me pareceu afeto. Ele o puxou para perto, lhe deu um abraço apertado e disse.

            — Que tal o namorado da minha Lúcia, Pereira? Gostou dele? Pois eu gostei muito! Seja bem-vindo à família!

           Parecendo sentir certo desconforto, Álvaro conseguiu se desvencilhar dos braços do meu pai, virou as costas e foi embora. Só o encontrei dois meses depois. E quase não o reconheci.

             Os antigos cabelos encaracolados agora estavam curtos e lisos. Ostentava um bigode, idêntico ao usado por meu pai. Ele passou por mim e, talvez, não tenha me visto ou, não duvido, tentou me evitar. Tive que apertar o passo para alcançá-lo antes que ele entrasse em um táxi.

            — Álvaro! O que aconteceu?

            Ele pareceu assustado e tentou entrar no táxi, mas eu o impedi.

            — O que houve? Não vai me contar?

          Álvaro me encarou por um instante, até que, finalmente, me confidenciou.

            — Lúcia, preciso ir. Estão me esperando. Vão me tirar o país.

            — Como assim? E a gente?

            — Não tem a gente, Lúcia.

            — Por quê? O que eu fiz?

            — Nada. Você não fez nada. O problema é o seu pai.

            — Meu pai? Como assim?

            Álvaro olhou para os lados e, talvez percebendo que me devia alguma explicação, dispensou o taxista. Depois me puxou pelo braço e fomos para debaixo de uma árvore. Ele me disse que, pouco antes de me conhecer, havia sido preso por subversão. E que meu pai e o meu padrinho o haviam torturado. 

            — Lúcia, meu amor, eu estava encapuzado, mas os reconheci pelas vozes. Sei que foram eles. E eles sabem que eu sei. Você viu o jeito que seu pai me tratou? Ele sabe que eu sei. Ele sabe. E seu padrinho, o tal Pereira, também sabe. Preciso ir. Desculpe. Preciso ir agora. Estão me esperando. 

          Papai sabia, disso não tenho a menor dúvida. Por anos ele me perguntou por onde andava aquele meu namorado. Ele sorria e dizia que estava com saudade. Isso me dava calafrios, mas essa conversa nunca foi além disso.

            Há pouco tempo, encontrei o Álvaro em um churrasco na casa de amigos em comum. O mesmo sorriso franco, aqueles olhos castanhos honestos. Não sei se ele me reconheceu. Afinal, já se passaram 50 anos. Senti vontade de lhe contar, mas talvez não valesse a pena. Papai enfartou logo após a redemocratização do país, em 1986. Eu me casei, divorciei, tornei a me casar e a me separar mais duas vezes. Nem sei o que se passou na sua vida desde a nossa despedida naquela tarde de 1975. E, apesar da curiosidade, creio que consigo viver bem com isso. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Idos de 1975" foi publicado no Notibras no dia 29/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/idos-de-1975/

domingo, 28 de dezembro de 2025

O pai, a filha e a gravidade

          

         Manuel largou o aparelho celular por um instante, quando percebeu que a filha, Olívia, de dois anos, estava no alto do escorrega, pronta para comprovar que a gravidade, mesmo invisível, existe.  O homem pensou na coragem que a garota possuía. Coragem ou completa falta de noção do perigo? Sentiu um frio na barriga, enquanto ela descia, braços erguidos e sorriso desprendido. Pensou: "E ainda é uma exibida!"

          O sujeito tentou buscar na memória quando é que ele havia perdido esse modo livre de encarar a vida. O que teria mudado nesses anos todos? Teria sido algo substancial ou, então, somos meras cópias separadas por gerações? Se isso fosse verdade, quando é que Olívia se transformaria numa covarde? Não, não e não! Era difícil para Manuel aceitar que sua cria, que se divertia com aquela atração irresistível da Terra sobre os corpos, não tardaria, seria igual a ele. 

          Assustou-se com uma borboleta, que, atrevida, pousou em seu ombro. Por sorte, conteve o grito, o que certamente geraria reações nos presentes na praça. Como é que podia algo daquele tipo? Medo de borboleta? Se ao menos fosse uma abelha ou marimbondo. Não! Apenas uma simples borboleta. 

          Enquanto anotava mentalmente os feitos de Olívia, Manuel procurava eternizá-los para, quando ela estivesse maior, contar-lhe. Será que ela se lembraria do quão fora tão destemida um dia? Melhor seria filmar do que confiar na memória. 

          Manuel pegou o telefone e abriu a câmera. Já estava pronto para registrar todos os momentos impávidos da herdeira, quando foi interrompido por uma voz irresistível.

          — Papai, vem aqui.   

          Sem alternativa diante daquele pedido, Manuel guardou o aparelho no bolso e foi brincar com a filha, antes que o tempo, ligeiro que nem preá fugindo de lobo-guará, transformasse toda aquela valentia em gente adulta. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O pai, a filha e a gravidade" foi publicado no dia 28/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/o-pai-a-filha-e-a-gravidade/

sábado, 27 de dezembro de 2025

Bolinho de chuva, café e conselhos

     

        Gente tola há aos montes, gente ressabiada muito menos, gente sábia é uma raridade, mas que, de tempos em tempos, deixa toda aquela outra gente boquiaberta. Dirce seria assim, e não pense você que fosse por conta de estudos, que era praticamente nenhum. Pura capacidade cognitiva. 

          Essa habilidade mental de entender o que está no ar, mesmo quando são utilizados subterfúgios para esconder a verdadeira intenção do interlocutor. Talvez por isso, a mulher não era vista em grupos de fofocas, reuniões infrutíferas ou igrejas. E não adiantava chamá-la, que ela dizia que a vida era muito curta para perder tempo com tolices.

          A despeito de tal comportamento, não raro, alguém a procurava para pedir conselhos. Não que ela gostasse de parar de fazer o que lhe era tão caro para, digamos, dar atenção a outrem. Todavia, como não era bicho do mato, recebia a visita com bolinhos de chuva e um café passado na hora.

          Rosângela era uma das criaturas mais assíduas no quarto e sala no final da Asa Norte, em Brasília. Por conta disso, mesmo que não fossem amigas de verdade, mantinham aquele espírito de camaradagem, ainda mais porque a empatia era recíproca. 

           Entre uma mordiscada no quitute e um gole no café, Rosângela confessou que estava apaixonada por um pastor de igreja. E, segundo suas próprias palavras, o sentimento era recíproco, apesar do sujeito ser casado.

            — Casado?

            — Dirce, mas ele disse que não vive bem com a esposa.

            — Hum...

            — E prometeu que iria se divorciar. 

            — Hum...

            — Disse que só estava esperando o momento adequado pra falar pra mulher.

            — Hum...

            — Ele é um homem direito, é pela família e pelos bons costumes.

            — Hum...

            — É Deus, pátria e família. 

            — Hum...

            — Corretíssimo!

            — Hum...

            — Pediu apenas um tempo pra resolver as coisas com a esposa.

            — Hum...

            — O que você me diz?

            — Há quanto tempo vocês estão juntos?

            — Dois anos. Quer dizer, dois anos e cinco meses.

            — Hum...

            — Então?

            — Hum...

            Dirce pegou um bolinho de chuva e o levou à boca. Mastigou-o enquanto observava o semblante da visita, que parecia angustiada. A anfitriã deu um gole no café, deu outro e limpou a garganta.

            — Então, Dirce?

              — Sai fora disso.

              — O quê?

              — Rosângela, isso aí é carniça que até urubu rejeita.

              O choque de realidade daquela frase foi o suficiente para fazer com que Rosângela não apenas deixasse o pastor, como também mudasse de igreja. Quanto à Dirce, ela continua dando conselhos pertinentes sempre acompanhados de bolinho de chuva e aquele café passado na hora. E tudo por mera camaradagem.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Bolinho de chuva, café e conselhos" foi publicado no Café Literário no dia 27/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/bolinho-de-chuva-cafe-e-conselhos/

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A vida corrida do Carlos

      

        Carlos, assim que completou 16 anos, tratou de arrumar emprego em afamada lanchonete em um shopping na Asa Sul, coração de Brasília. Era uma correria doida, pois precisava se deslocar da área rural de Planaltina até o trabalho e, de lá, rumava para a escola. Pegava o ônibus e retornava desfalecido para o lar, não tão doce lar, onde poderia repousar até que, ainda na madrugada do dia seguinte, tudo recomeçava. 

          Depois de cumprir a sêxtupla jornada semanal, eis que chegava o único dia de folga do rapaz, como se aquilo fosse um sonho em meio à vida carregada de pesadelos. Era momento de relaxar e ajudar na lida com os animais do sítio. Picolé, o vira-lata, ficava no calcanhar do Carlos, como se cobrando a ausência de afagos acumulados. Zacarias, o jumento, mal avistava o jovem, corria e zurrava a fim garantir seu quinhão de cafuné. 

           Galinhas, patos e porcos corriam em direção ao jovem, que precisava se dividir para dar atenção àquela trupe. Até Tomé, o bode, parecia vir lhe pedir desculpas por conta das chifradas que, vez ou outra, eram aplicadas num distraído Carlos. Bastava virar as costas, que lá ia o danado, que acertava em cheio o traseiro do adolescente descuidado. 

            Entre carinhos e golpes à traição, a relação de Carlos e Tomé parecia a de dois amigos que vivem às turras, mas não se desgrudam, a despeito das agruras. Coisas de homens, dizia Luzia, a mãe do rapazola. Vá entender!

            A única que não dava muita trela para Carlos era Sonja, a gata rajada, que preferia o conforto do cesto ao lado do fogão a lenha. De lá, a felina ficava atenta a qualquer movimento no terreiro apinhado daquela gente de espécies barulhentas. Ela olhava aquele povo com desdém, como se dissesse: "Tô fora!". E voltava para mais um turno de cochilo. 

            Segunda-feira, Carlos foi empurrado para fora da cama pelo barulho do despertador. Hora de voltar para a vida desgraçada. Sem opção, fez o que era preciso, quando foi até o varal pegar o uniforme do trabalho. Cadê? Cadê? Cadê? 

            O gajo procurou daqui, procurou dali, procurou dacolá, até que descobriu o que havia acontecido. Lá estava o Tomé deitado sob a jabuticabeira. O danado ruminava sem aparentar resquício de culpa. 

            Sem opção, o adolescente tratou de correr para não perder o ônibus. E quase perdeu, caso não fosse a camaradagem do motorista, que percebeu que o moleque corria que nem desesperado para chegar a tempo ao ponto. 

                — Obrigado, senhor.

                Carlos aproveitou a longa viagem para descansar mais um pouco. E foi o que fez, até que o coletivo entrou na Asa Norte, momento em que o rapaz despertou por conta das freadas constantes. Mais alguns quilômetros, era a sua vez de descer no primeiro ponto da Asa Sul. E foi o que fez. 

                Acelerou o passo para não se atrasar. Mal pisou na lanchonete, foi questionado por Iranilde, a gerente:

                — Carlos, cadê o seu uniforme?

                O funcionário, envergonhado pelo acontecido, mentiu:

                — Roubaram.

                — Roubaram?

                — É.

                — E como foi isso?

              Carlos pensou, pensou, gaguejou um tanto, até que desistiu. Cabisbaixo, olhou para a gerente e disse:

                — O Tomé comeu.

                — O quê?

                — Num tô te falando? O Tomé comeu.

                — Tomé? E quem é esse Tomé.

                — Uai, o meu bode.

                Iranilde e os outros funcionários que estavam perto começaram a gargalhar por causa do trágico fim que o uniforme teve. Pois é, o trabalhador não tem um dia de paz. No final das contas, arrumaram uma blusa e uma calça novas para o Carlos, que acabou ganhando o apelido de Tomé. E, acredite ou não, foi assim que aconteceu. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "A vida corrida do Carlos" foi publicada no Notibras no dia 26/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/a-vida-corrida-do-carlos/

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Reminiscências de um Natal de outrora

      Júlia, diante da árvore de Natal abarrotada de tantos embrulhos, voltou seus pensamentos para sua infância, quando a miséria lhe era tão presente. De tão pobre, não conseguia vislumbrar a existência de outro mundo além do pauperismo, que lhe acompanhou por anos.

          — Mãe, a senhora tá bem?

          — Tô.

          — Tem certeza? 

          — Sim, Laura, estou.

          — Vem comer um pouquinho. A farofa de couve está uma delícia. 

          Puxada pela filha, Júlia sorriu, como se aquilo pudesse apagar suas memórias. Ela até se divertia e, não raro, apesar de ter vivenciado tais momentos, ficava surpresa com a criatividade de seu pai, Marinelson. 

          Júlia não se recordava do ano exato, mas era algo próximo a 1966, talvez 1968. A família, composta pelos pais e cinco filhos, incluindo Júlia, se apertava em um barraco no Paranoá, então cidade satélite do Distrito Federal. Tempos em que não se tinha certeza de que teriam o que comer no dia seguinte. Espécie de roleta-russa da arte da sobrevivência.

          Enquanto parte da capital do país estava extasiada pelas luzes do Natal daquele longínquo ano, Júlia e os parentes se preparavam para dividir meia panela de arroz, farinha e um punhado de feijão, quando seu pai chegou com uma enorme caixa de papelão vazia. Todos voltaram os olhos para o sujeito, pois não entendiam qual seria o objetivo daquilo.

        Laurentina, a esposa, foi a primeira a questioná-lo:

        — O que você vai fazer com isso, meu bem?

        — Tá aqui o nosso presente de Natal.

        — Uma caixa de papelão?

        — Não, Júlia. Isto não é apenas uma caixa de papelão.

        — Não? E o que é, então, papai?

        — O que você quiser, minha filha.

          O homem estava certo. Aquela caixa foi transformada em cabana, em carruagem, até em disco voador. A mera caixa de papelão era um mundo. E, pela primeira vez, Júlia aprendeu o que era sonhar. E, desde então, nunca mais parou. 

  •  Nota de esclarecimento: O conto "Reminiscências de um Natal de outrora" foi publicado no Notibras no dia 25/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/reminiscencias-de-um-natal-de-outrora/

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Final de semana na roça

         

        José Diniz Teixeira, o Zeca, residia com a esposa, Dalva, num sítio no município goiano de Padre Bernardo, coladinho ao Distrito Federal. O único filho do casal, Gladstone, ainda rapaz, foi residir na capital do país com intento de vencer na vida. Se venceu ou não, é questão de ponto de vista, mas não há de se contestar que, agora, passadas quase duas décadas, angariara um patrimônio que daria para comprar dez propriedades iguais à dos genitores, e ainda sobraria um trocado para passar o mês sem grandes apertos. 

          Naquele final de semana incomum, Gladstone resolveu fazer uma visita surpresa aos pais. Quis levar toda a família, mas a esposa e a filha já tinham compromissos firmados. Então, sobrou para o filho, Gabriel, acompanhá-lo na empreitada. 

          Apesar da viagem ser relativamente curta, não mais do que hora e meia, Gladstone e Gabriel resolveram parar em uma barraca no meio da estrada a fim de degustarem pastel com caldo de cana. O garoto, que tinha 8 anos, puxou conversa.

          — Papai, pastel com caldo é tão bom.

          — É mesmo. 

          — Acho que a última vez que comemos pastel foi quando eu ainda era criança.

          Gladstone teve vontade de rir da observação do filho. Como é que é? Quando ainda era criança? O sujeito segurou tal ímpeto, pois não queria arrumar imbróglio desnecessário com o seu companheiro de viagem.

          — É verdade, Gabriel. Como o tempo voa, né?!  

          Buchos cheios, pé na estrada. Não tardou, o automóvel estacionou em frente à porteira, onde o anfitrião já os aguardava.

          — Ainda bem que chegaram a tempo do almoço. Sua mãe preparou guisado de galinha.

          — Ô, pai! Mamãe quer mesmo me engordar.

          — Vô! Vô! O senhor gosta de pastel com caldo?

          — É bom.

          — Muito!

          Sentados à mesa, os quatro puderam colocar a conversa em dia. Mais tarde, foram dar uma volta pelo sítio, que era grande o suficiente para não parecer tão pequeno. O tamanho que dava para cuidar e prover o sustento. Simples, rústico até, porém com o conforto necessário. 

          Gabriel correu, subiu nas árvores que encontrou pela frente, andou a cavalo, nadou no riacho e até arriscou fisgar alguns peixes, que se viram salvos por simples inabilidade do aprendiz de pescador. Feliz, adormeceu enquanto a avó lhe contava histórias inventadas ou que teriam acontecido quase daquele jeito. 

          Quando o dia amanheceu, o menino encontrou o pai e a avó conversando na cozinha. Perguntou pelo avô.

          — Seu avô deve tá mexendo com os bichos.

          — Vou lá.

          — Calma! Come um pão de queijo antes.

          O guri pegou dois e saiu desembestado à procura do parente, que estava no galpão. Mal entrou, Gabriel tomou um baita susto. O avô sangrava na altura do joelho.

          — Vô! Vô! O senhor tá sangrando!

          — Diacho! Num é que tô mesmo.

          Não demorou, os dois entraram na cozinha, onde Dalva e Gladstone gargalhavam. Todavia, assim que viu o pai com a mão no joelho, o homem mudou de fisionomia.

          — Pai, o senhor tá sangrando!

          — Hum! Se você não me avisa, nem iria perceber.

          — Papai! Papai! Eu que falei pro vovô que ele tá sangrando.

          — Zeca, você se meteu novamente em briga com o Rubens?

          — Não, meu amor.

          — Rubens? Quem é Rubens?

          — O porco que o seu pai comprou da dona Luzia.

          — Peraí, mãe! Mas Rubens não era o nome do marido da dona Luzia?

          — Sim.

          — E ela colocou o nome do finado num porco?

          — Pois é, Gladstone, pra você ver. Como você deve se lembrar, o Rubens nunca foi um tipo que desse para alguma coisa. 

          — Lembro, mãe.

          — Então, coitado do porco. 

          Após limpar o ferimento do marido e colocar antisséptico, Dalva cobriu o machucado com gaze e passou esparadrapo. Foi aí que ela notou que uma lágrima furtiva escorria pela face do Zeca.

          — Doeu?

          — Não.

          — Então, por que tá chorando?

          — É que a calça era novinha.

          Já era final de tarde quando Gladstone e Gabriel se despediram cheios de promessas de voltarem em breve. Pegaram a estrada, quando o menino disse ao pai que roça é melhor do que pastel com caldo de cana. A criança não via a hora de chegar o dia seguinte. Ele tinha muitas histórias para contar para os amigos na escola. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Final de semana na roça" foi publicado no Notibras no dia 24/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/final-de-semana-na-roca/