sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Altemar, o metódico

          

          Altemar era metódico. Metódico? Sim, isso mesmo, sem medo de lançar diagnóstico precipitado sobre o sujeito, cujo modo de fazer as mesmas coisas era perene que nem amor de mãe e paciência de avó.

          Acordava às 6h. Não cinco minutos antes ou depois, mas sempre no mesmo horário, como se aqueles desgastados olhos já estivessem acostumados a se abrirem exatamente no instante em que o ponteiro menor estivesse plantado no seis, enquanto o maior encontrasse o doze. Como se o marcador de horas dissesse: "Ei, meu amigo, já está na hora de levantar!"

          Sentado na beira da cama, o homem calçava os chinelos, que pareciam saber que a hora de começar o dia era aquela. Treinados ou não, o fato é que se grudavam aos pés calejados, que caminhavam até o banheiro, depois para a cozinha, onde Altemar preparava o mesmo café e, em seguida, iam até a sacada. 

          Xícara nos lábios, o idoso observava o movimento na rua, que, àquela hora, parecia começar a pulsar. Alguns pensamentos percorriam a mente de Altemar. Preciso visitar o Moreira. Já faz tanto tempo que não o vejo. No entanto, logo se lembrava de que o amigo já não estava entre os vivos. Também imaginava a ausência de neve nos cabelos, outrorra volumosos e que conquistaram olhares, a maioria de admiração, outros de pura inveja. 

          O tempo é um azougue. Implacável. Quando menos se espera, já caímos do cavalo, rosto virado para a lama. Cadê aquelas calças curtas, a camisa encardida por tantas brincadeiras? Cadê? Cadê? Sumiram sem qualquer aviso. Do nada!

          Banho tomado, Altemar escolheu seu melhor terno. Azul-marinho, a cor que, segundo a esposa, lhe caía como uma luva. Elegante, fino, com certa modernidade, mas sem perder a sobriedade. Perfeito. Gravata ajustada, ouviu a campainha. Quem seria? E por que Eulália não teria ido atender? Talvez estivesse na mercearia. Isso. Agora que Altemar se lembrava da conversa que teve com a amada na noite anterior.

          — Meu bem, que tal aquele suflê de batata que você tanto adora?

          — Ah, você sempre me deixando gordo, meu amor.

          — Forte! 

          Altemar, agora se olhando no espelho, ainda sentiu o toque dos lábios de Eulália, quando, então, a campainha tocou novamente. Como estava só em casa, finalmente foi ver quem era.

          — Vô, por que demorou tanto?

          — Estava no quarto. Preciso mandar arrumar essa campainha. Quase não dá pra escutar.

          — E por que o senhor está todo arrumado assim? Vai a algum lugar?

          — Ih, Janaína, tenho que ir. Estou atrasado.

          — Atrasado pra onde, vô?

          — Pro trabalho.

          — Trabalho?

          — É. 

          O velho deu um beijo rápido na testa da neta e, já na rua, não ouviu a garota falar.

          — Mas, vô, o senhor é aposentado.

          E, mais alguns passos adiante, Altemar gritou:

          — Volto pro almoço. Hoje a sua avó vai fazer aquele suflê de batata que você adora.

          Janaína nem se deu ao trabalho de dizer para o avô que ele era viúvo.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Altemar, o metódico" foi publicado por Notibras no dia 5/9/2025.
  • https://www.notibras.com/site/altemar-o-metodico/

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