segunda-feira, 21 de julho de 2025

Bonitão, filósofo e apreciador de vinhos

           

              Rubens, cujo magnetismo causava inveja até mesmo nos amigos mais próximos, era de uma fidelidade canina em relação à esposa, Heloísa. Por conta disso, costumava ser alvo de brincadeiras típicas de quando se bebe além da medida.

           — Ah, Rubens, Deus não dá asas à cobra. Se eu tivesse esse seu rosto, era cada noite com uma mulher diferente.

           — Meu querido Adamastor, o segredo é amar a mesma mulher todas as noites de maneiras diferentes.

           Pois é, além de bonitão, o gajo sabia filosofar. Não que tivesse pretensão de se tornar um novo Sócrates, apesar de ser voraz leitor de literatura clássica. Isso sem mencionar o gosto requintado por vinhos, mesmo não demonstrando qualquer pedantismo. 

           — Se a safra é boa, o paladar agradece.

           — Mas e a enxaqueca, Rubens?

           — Beba com moderação, meu caro Júlio.

          Não que Rubens nunca tivesse exagerado três ou sete vezes. Todavia, mesmo quando o teor alcoólico extrapolava o limite da sensatez, parecia não ter propensão à chatice. E nada de bravatas típicas de valentões. Sono. Simplesmente sono. Era isso que sentia e, assim que acordava, parecia ter saído de um spa, tamanho o frescor do semblante.

           Heloísa, por sua vez, não era afeita a bebidas. Mesmo assim, uma forte enxaqueca a visitava de vez em quando. Tomava a medicação prescrita pela médica e, quando podia, passava a manhã inteira na cama. Mas não pense você que a mulher perdia o humor nessas horas.

           O marido, que também gostava de brincadeiras, levava uma fatia de melão e outra de mamão para a amada. Enquanto Heloísa se deliciava com as frutas, Rubens tocava levemente as coxas da esposa. Ela sorria.

       — Ah, meu amor, você acha mesmo que vai me convencer só por causa desses irresistíveis olhos castanhos? 

            — Será que estou perdendo o meu charme?

            — Tá nada, malandrão! Mas não é toda hora que estou disposta a festejos debaixo do lençol.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Bonitão, filósofo e apreciador de vinhos" foi publicado por Notibras no dia 21/7/2025.
  • https://www.notibras.com/site/rubens-quase-perfeito-era-invejado-ate-pelos-amigos/

domingo, 20 de julho de 2025

Valdir e o relógio antigo

     

Valdir, cujo bigode era marca registrada, costumava fazer sua ginástica diária na praça em frente ao seu apartamento ali em Sobradinho. E era tão pontual, que causava admiração em quem via o velho passar pela portaria pontualmente às 6h. Nem sequer um minuto antes ou depois. 

          Eis que, naquela quarta-feira, o zelador do prédio, como de costume, cumprimentou o mais afamado morador.

          — Seu Valdir, bom dia!

          — Bom dia, Lúcio!

          — Tenho cá uma dúvida.

          — Que dúvida, meu rapaz?

          — Como é que o senhor consegue sempre sair exatamente no mesmo horário todos os dias?

          Valdir, sorriso nos lábios, estufou o peito, ergueu o pulso esquerdo e exibiu o antigo relógio.

          — Ele não falha nunca!

          Quase 43 anos. Era esse o tempo daquela dupla praticamente inseparável, inclusive durante os banhos, já que o relógio era à prova d'água. Por conta desse quase romance tão longevo, Martinha, a esposa, carregava dramático horror daquele marcador de horas. Discreta que era, fazia o possível para disfarçar tamanha ojeriza, mesmo que, vez ou outra, o dito cujo parasse na lixeira por mero "descuido".

          — Meu amor, você viu o meu relógio?

          — Não.

          — Hum! Tenho certeza de que o deixei aqui na mesa.

          Martinha, nessas horas, revirava os olhos, como quem estivesse possuída de regozijo. Entretanto, antes que a mulher chegasse ao clímax de tanta felicidade, eis que Valdir exclamava.

          — Ah, seu danado, você tá aqui na lixeira! Será que eu estou ficando gagá?

          — Do jeito que você anda distraído, é bem capaz, Valdir. 

          Aconteceu na semana passada, quando Ailton, o filho do meio, foi fazer uma visita aos pais. Enquanto proseava com a mãe, percebeu que o pai apertava os olhos para tentar enxergar as horas. 

          — Pai, cadê os óculos do senhor?

          — E eu lá preciso de óculos pra ver as horas? Faço isso antes de você nascer, moleque.

          — Ah, pai, do jeito que esse vidro do relógio tá todo arranhado, nem eu consigo ver os ponteiros. 

          — Hum!

          — Por que o senhor não compra um relógio novo?

          — Que relógio novo, o quê! 

          — Então, pelo menos troca esse vidro arranhado. 

          — Hum!

          — Conheço um cara que tem uma banca na feira que troca isso rapidinho pro senhor.

          — Hum!

          — Valdir, vá lá com o Ailton trocar o vidro desse relógio  !

          Diante da insistência da mulher, Valdir foi com o filho até o tal feirante. No local havia relógios para todos os gostos, o que fez com que Ailton insistisse que o pai comprasse um relógio novo. 

          — Não! Só quero trocar o vidro.

          — Tá bom, pai. O senhor que manda.

          — Hum! 

          — Ô, Carlos, quanto é pra trocar o vidro do relógio do meu pai?

          — Oitenta reais.

          Valdir arregalou os olhos.

          — Oitenta reais?

          — Sim, senhor.

          — Hum!

          — Ô, Carlos, e quanto você faz pro meu pai um relógio novo?

          — Tem este aqui que é bom e barato.

          — Quanto?

          — Cento e cinquenta.

          — Aí, pai, vale muito mais a pena comprar um relógio novo do que dar oitenta reais só pra trocar o vidro desse seu cacareco.

          — Hum!

          Valdir pensou, pensou, pensou... Pensou mais um pouco e, então, decidiu.

          — Hum! Posso pagar cem agora e cinquenta amanhã.

          — Ué, pai, o senhor não tem cento e cinquenta reais aí?

          — Tenho.

          — E, então, por que não paga logo o homem de uma vez.

          — Amanhã!

          O relojoeiro, para se ver livre logo daquela ladainha, aceitou a proposta. Fez apenas o velho assinar uma promissória e, então, firmaram o acordo com um aperto de mão. E, no dia seguinte, Valdir voltou à feira para quitar a dívida. 

          Por que Valdir não quis pagar tudo de uma vez, ninguém entendeu. Talvez seja coisa de velho, cheio de manias ou, então, quisesse provar que era homem de palavra. Outra possibilidade é que ele estivesse se preparando emocionalmente para, finalmente, aposentar o amigo de longa data e deixá-lo no fundo da gaveta.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Valdir e o relógio antigo" foi publicado por Notibras no dia 20/7/2025.
  • https://www.notibras.com/site/homem-apegado-ao-marcador-de-horas-causa-ciume-na-esposa/

sábado, 19 de julho de 2025

O misterioso sumiço de Gláucia e Antunes

 

            Não se sabe ao certo o que fazia de Gláucia uma mulher desejada por tantos. Arrisco a dizer que era a completa falta de disfarces para pecar. Não que fosse mundana, mas sabia o ponto certo para que nem o mais puritano dos homens a acusasse de errática. No máximo, o sujeito ficava como se estivesse diante de uma prova de física quântica. Não fazia ideia do que seria aquilo, mas certamente percebia que ali havia algo especial. 

          Um metro e cinquenta e nove, sem arredondamento para cima. Ademais, tal acréscimo nem era necessário, mesmo porque na horizontal os corpos se encaixam perfeitamente. As curvas perigosas, com todas as sinuosidades desejáveis, não eram páreas para o sorriso, cujos dentes sensualmente desalinhados faziam qualquer um perder o senso. 

          Gláucia desfez um noivado quase ao pé do altar. Não que fosse o dela com Júlio, que andava a passos largos para romântica lua de mel na aprazível praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho-PE. O quase enlace foi o de uma prima, Eleonora, cujo noivo, Antunes, ao colocar os olhos sobre Gláucia, sentiu-se perdidamente apaixonado. 

          Eleonora, ao perder o futuro marido, se viu sem chão. Pior mesmo foi ter que lidar com o misterioso sumiço da prima. O falatório pegou força e tomou conta de todas as calçadas de Brasília. Afinal, teria a moçoila fugido com Antunes? Bem, essa era a principal suspeita da época, ainda mais porque o sujeito também havia desaparecido ao mesmo tempo. Mas o caso se mostrou mais complexo do que quase todos consideravam.

          Bem, tirando a polícia, que na maioria dos casos acerta por imaginar o óbvio, dessa vez parece que errou feio. Santino, o investigador encarregado do caso, cismou que Antunes e Gláucia teriam fugido para Pirenópolis. E lá foi o policial para a famosa cidade goiana. 

          Nem sinal do suposto casal de adúlteros, mas nada que impedisse Santino de perambular pelo local e, depois de rodar por alguns bares, conseguir passar duas noites aos beijos e abraços com alguma desgarrada. Teve que inventar tantas desculpas, que o delegado Rupereta, sabedor das puladas de cerca do investigador, ordenou que o retorno fosse para ontem. Só espero que a mulher do gajo não descubra. 

          Sem pistas do que pudesse ter acontecido com a sua noiva, Júlio imaginou que ela, talvez, teria sido raptada por Antunes, que certamente possuía passagem na polícia. Por sorte, Júlio era vizinho de porta do delegado Rupereta, que já havia revirado a vida do sujeito. Nada. Nadica de nada. O então futuro marido de Eleonora se encaixava perfeitamente no perfil de coroinha, de tão ilibada era a sua reputação.

          — Rupereta, mas será que o Antunes não poderia ter escamoteado uma vida inteira para, finalmente, cometer um delito que ninguém suspeitaria?

          — Júlio, meu amigo, esquece. O cara nasceu sem duas coisas na vida.

          — O quê? Como assim?

          — Tutano e coragem. 

          Por sua vez, Eleonora, apesar da enorme carga de emoção, parecia a mais racional. Coincidência. Pura coincidência. Nada mais do que coincidência. Imagine você dois balões em pontos distintos de uma cidade. Pois bem, de repente, esses balões são soltos ou se desprendem das mãos de quem os seguram. E lá vão os balões, cada vez mais alto, mais alto... Tão alto, que ninguém mais os vê, até que apressão atmosférica fica mais baixa do que a no interior dos balões, que inflam, inflam, inflam... E bum! Acabaram-se os balões. 

          A verdade é que todos erraram. Mas não os culpo, já que Gláucia e Antunes mal se conheciam, e, até onde consta, não possuíam desejos escamoteados por máscaras impostas pela sociedade. Ademais, o delegado Rupereta não estava de todo errado quanto à índole do noivo de Eleonora, cuja inteligência era algo a se desejar, sem contar a notória covardia até mesmo diante de uma barata. 

          Rupereta ou não sabia ou não quis contar algo que poderia abalar seu amigo. Seja como for, o que de fato aconteceu entremeava as diversas versões. Em primeiro lugar, Gláucia e Antunes não haviam fugido, muito menos para Pirenópolis, local tão próximo a Brasília, que poderiam ser descobertos por algum conhecido. 

          Antunes, definitivamente, não havia fugido, mas não se pode afirmar o mesmo em relação à Gláucia, que andava estressada com a possibilidade de se prender ao Júlio. Não que ela não o amasse, mas casamento lhe parecia algo sufocante demais para seu estilo de vida. 

         Outra falha nas tentativas de adivinhações é que Antunes não teria sequestrado Gláucia. Quer dizer, não fora ele o autor do sequestro, que realmente aconteceu. O criminoso era Pedro, antigo namorado rejeitado pela lindona, que, exatamente neste momento, conseguiu escapar de seu cativeiro, localizado na Ceilândia. 

            Pois é, mistério resolvido, fico por aqui. Então, até outra oportunidade. O quê? Ah, tá! Quer saber o que aconteceu com o Antunes? Hum! Acredite ou não, o gajo saiu apenas para comprar cigarros. Será que volta?

  • Nota de esclarecimento: O conto "O misterioso sumiço de Gláucia e Antunes" foi publicado por Notibras no dia 19/7/2025.
  • https://www.notibras.com/site/os-intrincados-desparecimentos-da-noiva-de-um-e-do-noivo-da-outra/
  • O conto "O misterioso sumiço de Gláucia e Antunes" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 1º/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/o-misterioso-sumico-de-glaucia-e-antunes/

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Jaqueline e os conselhos da amiga

    

            Não me considero velha, apesar das piadas desnecessárias que alguns amigos insistem em fazer. Amigos? Pois é, ainda têm a cara de pau de dizerem que são. Como se todos eles também já estivessem carcomidos pelo implacável tempo, tão cruel com a maioria de nós meros mortais. 

          — Jaqueline, por que não faz uma plástica?

          — Plástica pra quê, Judite?

          — Ué, pra levantar o que tá caído.

          Caído? Pois aqui estou diante do espelho, tão ou mais inquisidor do que os olhos que me julgam quando vou ao clube. Será que perdi o direito de usar biquíni? Hum! Só falta esse povo querer que eu venha de burca para a piscina. 

          Setenta e quatro anos, quando por extenso, parecem ainda mais tempo. Gente, como cheguei até aqui? Nem senti as décadas passarem. Ontem mesmo era eu uma menina correndo por essa terra vermelha de Brasília. E não adianta tentar esconder a idade, pois as marcas do rosto cismam em ser tão indiscretas. 

          Judite, minha melhor amiga desde meu último divórcio, diz que é culpa do meu bom-humor. Será?

          — Ah, Jaqueline, você vive gargalhando por tudo. Isso não é bom pra pele. Sua cara fica cheia de marcas de expressão.

          Hum! Além de velha enrugada, também vou precisar ser rabugenta? Daqui a pouco é provável que comecem a me chamar de Dona Casmurra. Logo eu, que sempre tive ímpeto de Capitu. 

          — Amiga, se você não consegue parar de escancarar esse sorriso contagiante, mas que te enche de rugas, pelo menos se matricule numa academia. Na nossa idade, não podemos vacilar com a perda muscular.

            Pois é, e foi assim que a Judite me convenceu a fazer ginástica. Quer dizer, malhar ou treinar, como os jovens dizem atualmente. E não falto nem mesmo um dia sequer. Se bem que, devo confessar, vou naqueles passinhos de formiga para a academia. Mas vou!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Jaqueline e os conselhos da amiga" foi publicado por Notibras no dia 18/7/2025.
  • https://www.notibras.com/site/posso-ser-velha-mas-vou-continuar-usando-biquini/

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A vida é assim

    

            Jorge Frederico, um nome a ser respeitado. Ou não. Vai depender de quem o carrega ou, então, de quem sabe seus podres. Sobre os ingênuos, que lhes caiam as consequências da ignorância. 

            Nascido na gélida São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, o sujeito se mudou para Brasília no natal de 1986, com o intuito de arrumar posição junto a algum político, além de fugir das nevascas. Por sorte ou destino, conseguiu emprego logo em abril de 1987, por conta da recente posse de um deputado federal. E, não tardou, ganhou fama devido principalmente às animadas festas patrocinadas por lobistas, que, desde que o Brasil é Brasil, perambulam pela capital. 

            Apesar de gaúcho, Jorge Frederico sabia que o ritmo que contagiava os enviados dos bilionários era o samba. Então, nada de boleros quando o assunto era convencer os parlamentares a votar em algo que iria beneficiar os verdadeiros patrões, mesmo que a população tivesse que engolir goela abaixo o azedume das canções de fossa da saudosa Maysa. Como os que estão por cima da carne seca gostam de dizer de modo irônico: C'est la vie!

            Com o aval de quem tem prerrogativa de mandar, Jorge Frederico logo percebeu que poderia ocupar outro nicho, que andava desfalcado por causa das prisões ocorridas em virtude do assassinato de famoso radialista na Asa Sul. Não que o gaúcho tivesse coragem de matar uma barata, mas conhecia alguns cabras acostumados a puxar o gatilho.

            Entre festejos e encaminhamento antecipado de almas para o Céu ou o Inferno, Jorge Frederico se imaginou dono da cidade. Estava longe disso, é verdade, mas andava lado a lado com os que realmente mandavam. Era tido como mal necessário, pois, capcioso que era, sabia como ninguém ser malvado quando fosse preciso, ainda mais porque não rejeitava serviço, por mais espinhoso que fosse.

            Trabalho não faltava para o gajo, que logo ficou com a burra cheia de grana. Tanto assim que passou a morar em uma bela mansão em um dos pontos mais invejados da capital: o Lago Sul. Isso mesmo! O Lago Sul, que é considerado a Suíça do Cerrado, repleta de casas dignas de filmes de Hollywood. E Jorge Frederico não fazia questão de esconder seu estilo de vida, pois adorava desfilar com seus carrões importados pelas largas ruas da capital. 

         Rico, famoso e respeitado por quem realmente importava, o sujeito parecia alguém acima da lei, e era mesmo. Amigo de deputados, senadores, juízes, promotores, delegados e até do governador, tinha trânsito livre em qualquer lugar. Mas eis que, talvez por um momento de descuido, distração ou displicência, cruzou o olhar com o de Arlete. 

            A mulher, que era bonita, mesmo sem ser esplendorosa, possuía lá seus atrativos. E foi o suficiente para que Jorge Frederico fosse fisgado e perdesse totalmente o juízo. Por sorte, foi correspondido e, então, o casal passou a ser visto na alta-roda. O único entrave é que ela já era comprometida. 

            Argemiro. Pois era esse o nome do noivo da agora namorada do Jorge Frederico. Um tipo tão comum, que era capaz da própria mãe confundi-lo com tantos outros iguais a ele no meio da multidão que buscava sobreviver no Distrito Federal. 

            Açougueiro. Sim, o traído era açougueiro e sabia como ninguém manusear uma faca. E, desde que soube do caso entre Arlete e o figurão, fez questão de deixar a lâmina amolada. Sem contar que ensaiou os golpes em frente ao pequeno espelho do banheiro do seu trabalho.  

            A intenção era abrir o bucho do amante da sua noiva. E foi com tal pensamento que Argemiro se esgueirou atrás de um carro estacionado próximo a um concorrido restaurante na Asa Norte. onde os pombinhos jantavam. Era questão de tempo para Argemiro, finalmente, colocar seu plano em prática. 

            Dizem que pão de pobre sempre cai com a manteiga para baixo. Pois é, Argemiro parecia não estar com sorte naquela noite. E não é que, justamente no momento em que a amada degustava um requintado petit gateau, surgiu uma viatura da polícia e abordou o aprendiz de assassino?

            O açougueiro foi levado para a delegacia e autuado por porte de arma branca. No entanto, nada além de contravenção e, por isso mesmo, foi liberado após o registro da ocorrência. Seja como for, Argemiro, sem o objeto que lhe proporcionaria entrar no rol dos justiceiros da própria honra, precisou adiar seu intento para outra oportunidade e, então, pegou um ônibus e foi para casa, já que, na manhã seguinte, precisaria ir trabalhar. 

            Enquanto fatiava alguns bifes para dona Esther, uma simpática freguesa, Argemiro viu sua noiva entrar no açougue. Ele percebeu que Arlete parecia ter chorado um rio de lágrimas e, quando se viu livre da cliente, foi tentar descobrir o porquê daquilo.

            — O que houve? Por que você tá assim?

            Arlete entregou o jornal que carregava para o noivo. A manchete dizia que Jorge Frederico Mancini havia levado quatro tiros à queima-roupa após ter jantado em um restaurante na Asa Norte. Pobre gaúcho, não resistiu e foi a óbito no local. 

            Não se sabe exatamente o que aconteceu naquele instante, mas Argemiro, talvez tomado de sentimento nobre, abraçou, de forma terna, a adúltera. Dizem que o casório aconteceu no mês seguinte, e que os dois ainda podem ser vistos andando de mãos dadas pela Ceilândia. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "A vida é assim" foi publicado por Notibras no dia 17/7/2025.
  • https://www.notibras.com/site/jorge-frederico-nome-de-requintado-nao-era-flor-que-se-cheire/

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Lorena e o bigodudo

    

          Sempre foi impetuosa, audaciosa e, pior, teimosa. A mãe, sabedora desses predicativos, tentava, em vão, dissuadir Lorena de certas decisões. Entretanto, juízo era algo que, caso a garota tivesse conhecimento, certamente daria de ombros, como se já tivesse nascido com toda a sabedoria do mundo. 

          Aos 18, Lorena se engraçou para o lado de Otávio, homem já passado dos 30. O problema, segundo a genitora da moçoila, não era a diferença de idade, mesmo porque ela e o marido sustentavam quase 20 anos de abismo etário. No entanto, a mulher, que até acreditava no amor entre a filha e o genro, tinha lá outras desconfianças. 

          — Lorena, podemos falar sobre esse seu namorado?

          — Ah, mamãe, lá vem a senhora querendo se intrometer na minha vida.

          — Não é isso, minha filha.

          — Então, o que é?

          — É que reparei algo no Otávio e não gostei.

          — Do quê? Ele é um gato!

          — Isso é verdade e não sou maluca de discordar.

          — Então, qual é o problema com o amor da minha vida?

          — O bigode.

          — O quê?

          — O bigode.

          — Hum! Ah, mamãe, só a senhora pra me fazer rir.

          Dito isso, Lorena não quis mais conversa e, seis meses após, já estava em lua de mel com Otávio. Aliás, não uma lua de mel qualquer, mas em Buenos Aires, com direito à hospedagem no bairro mais afamado da capital argentina: Recoleta. 

          O retorno para Brasília aconteceu uma semana após, onde os recém-casados se instalaram em um apartamento no Sudoeste. Tudo parecia perfeito, até que, já no mês seguinte, Lorena andava às turras com o marido. Não deu outra e lá foi a jovem ter um dedo de prosa com a mãe.

          — Mamãe, o Otávio tem um gênio terrível. Eita, homem complicado!

          — Pois é, minha filha.

          — Pois é o quê, mamãe?

          — Eu até tentei te alertar, mas você não me deu ouvido.

          — Hum! Pois diga o que a senhora queria me falar.

          — Lorena, um homem que cultiva um bigode daqueles não pode ter uma personalidade fácil.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Lorena e o bigodudo" foi publicado por Notibras no dia 16/7/2025.
  • https://www.notibras.com/site/jovem-se-apaixona-por-homem-mais-velho-e-nao-da-ouvido-a-mae/

terça-feira, 15 de julho de 2025

Larissa, a menina que gostava de ler

Larissa, apesar de não negar que teria vindo do ventre de sua mãe, não se sentia parte daquele lugar. Não pela pobreza, que nem era alarmante, mas por conjecturas que, até determinado momento, ela não conseguia compreender. Como se fosse uma gata criada por cães. Chegaria uma hora, a garota sentia que precisaria escalar uma árvore. 

          Família rígida em relação aos costumes, enquanto os filhos eram criados para a vida, as filhas precisavam ser moldadas para serem donas de casa. E qualquer coisa fora desse pensamento era rispidamente tolida. Onde já se viu menino brincar de boneca? Menina, larga esse carrinho e vá ajudar a sua mãe a lavar a louça. Ora, pois! Onde já se viu uma coisa dessas! Ai, ai, ai, ai, ai! Hum!

      A menina, para não entrar em atrito com os pais, fazia o que lhe era mandado. Entretanto, encontrou refúgio em local inusitado para alguém sem expectativas além daquelas já delineadas. Uma biblioteca. Pois é, uma biblioteca, aquele local cheio de livros e histórias das mais diversas. 

         Larissa logo aprendeu que saber assinar o próprio nome era algo mais do que suficiente para os que se encontravam ao seu redor trancafiados em um cubículo com cadeados na única porta possível. Todavia, os livros, justamente aqueles objetos depositados em estantes, se faziam de janelas para o universo lá fora. E a moça começou a ler, e ler, e ler, e ler. E como lia!

          Os pais e irmãos de Larissa, com medo da parenta se perder, tentaram de tudo para que ela largasse aquela ideia de ler, ler e ler. Os esforços foram inúteis. Tão inúteis que, quando se deram por conta, já era tarde. Larissa, sorriso nos olhos, havia, finalmente, se encontrado.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

O inusitado caso da onça-pintada

   

Reunião de condomínio costuma ser um prato cheio para qualquer escritor, ainda mais quando a imaginação resolve fazer viagem só de ida. Quem me disse isso foi o meu grande amigo Daniel Marchi, um dos mestres da arte da escrita dos nossos tempos. E não serei eu a discordar de alguém detentor de verve literária que extrapola o Everest. 

          Para quem não sabe, além de poeta, escritor, professor universitário e colecionador de carros antigos, o Daniel é advogado e, entre suas especialidades, está a consultoria jurídica condominial. Por uma dessas congruências da vida, a minha primogênita, Ana Maria Martínez, também advoga nessa área. E foi num bate-papo, que estavam a minha amada, a Dona Irene, e o José Seabra, o Chefe, que surgiu uma das histórias mais curiosas que já ouvi.

          Márcio, creio que era esse o nome do morador do 301 de um prédio aqui no início da Asa Norte. Ou seria Evandro, residente do 104? Na dúvida, chamaremos o tal senhor de Luciano, que me soa mais familiar. Melhor, Luciano Gonçalves de Almeida, já que preciso dar um jeito de tornar a história mais plausível, como se fosse atestado de veracidade. 

          Aos 42 anos, o nosso retratado residia solitariamente em seu apartamento, digamos, 405, quando, por algo que lhe fugiu do controle, começou a ver coisas. Mas não qualquer visão verossímil que nem, por exemplo, fantasma, assombração ou algo semelhante. Não, não e não! O que o Luciano viu ou, então, afirmou que viu, foi uma onça. Para ser mais exato, uma onça-pintada. 

          Repare bem que não disse onça pintada, mas onça-pintada, com hífen. Afinal, poderia o nobre leitor pensar que o sujeito tenha se deparado com o enorme felino pintado em uma tela. Nananinanão! Era mesmo uma onça-pintada, também conhecida como jaguar. E onde ela estava? Acredite ou não, no corredor. Isso mesmo que você acabou de ler: no corredor.

          Assim que se deparou com o grande gato de rosetas, Luciano estacou. Para falar a verdade, dizem que nem piscou, tamanho o susto. Pra quê? O bicho, talvez curioso, lançou aquele olhar amarelo sobre o morador, abriu a bocarra e rugiu. Por sorte, a danada parece que desistiu do jantar, virou as costas e desceu as escadas. 

          Luciano, mudo, ficou sem palavras por quase duas semanas, até que houve a reunião de condomínio. E, quando a síndica, dona Evelina, deu por iniciado o evento, o homem foi o primeiro a falar.

          — Dona Evelina, por acaso é permitido ter onça no prédio?

          — Onça?

          — Sim, senhora! Onça.

          — Óbvio que não, seu Luciano.

          — Pois tem alguém aqui criando uma.

          — Uma o quê, seu Luciano?

          — Uma onça, senhora Evelina. 

          Entre caras de espanto e de risos furtivos, a síndica levantou a questão para todos.

          — Por acaso alguém tem uma onça aqui no prédio?

          Todos responderam que não e, então, dona Evelina quis passar para o próximo assunto, que era a manutenção do elevador. No entanto, foi interrompida pelo Luciano.

          — Dona Evelina, se ninguém quer se acusar, a senhora precisa abrir uma sindicância para descobrir quem é o proprietário dessa onça. 

          — Só me faltava essa agora. Por favor, seu Luciano, vamos deixar a onça de lado, pois precisamos tratar de assuntos mais sérios.

          — Mais sério do que uma onça, senhora Evelina?

          Foi aí que o Nery, fanático torcedor do Botafogo e gozador como ele só, fez uma sugestão.

          — Luciano, tenho uma solução pra sua onça.

          — A onça não é minha. Quero deixar isso bem claro!

          — Não importa. Tenho a solução pro seu problema.

          — Claro que importa! E o problema não é só meu, mas de todos os condôminos.

          — Tá bom, Luciano. Quer ouvir ou não a minha ideia?

          — Pois diga logo, Nery.

          — Whiskas.

          — Whiskas?

          — É. Isso mesmo! Ração pra gato.

          — Mas é uma onça!

          — E onça não é um gato, por acaso?

          — Um gato, Nery?

          — Sim, só que é um gato grandinho. 

          — Hum! Pois diga!

          — Pois bem, Luciano. Basta comprar um pacote grande de ração pra gato e fazer uma trilha até a 312.  

          Luciano coçou o cocuruto e, antes que a reunião terminasse, saiu determinado para comprar não apenas um, mas três pacotes de comida para bichanos. Retornou para o seu apartamento, trancou a porta e cerrou as janelas. Vá que a onça desse um jeito de entrar por ali.

          Já era de madrugada quando Luciano abriu a porta com cuidado. Observou o corredor e, com o coração batendo que nem batedeira, pôs em prática o plano do botafoguense. A caminhada foi longa e, já na quadra 312 Norte, Luciano, ao lado do bloco C, despejou o que restava do último pacote. 

          Retornou confiante de que o plano funcionaria e, pelo visto, parece mesmo que funcionou. Luciano nunca mais viu a tal onça-pintada e, no mês seguinte, durante a reunião dos moradores, foi questionado pelo Nery.

          — E aí, Luciano, viu mais a onça?

          — Não, Nery. Mas quero fazer uma pergunta séria para a dona Evelina.

          — Pois diga, seu Luciano. 

          — Dona Evelina, por acaso é permitido jacaré aqui no prédio?