O marido, ávido por intimidade, era aterrorizado
pelo próprio reflexo, temia decepcionar a mulher. Não que possuísse
deformidades, ao menos aparentes, já que desfrutava de rosto agradável, ornado
por um belo bigode, sem contar o corpo em forma, mesmo que já beirasse os 50
anos. E a prole, dois jovens tão parecidos com o pai, que nem mesmo o maior
inimigo de Ernesto, que era nenhum, poderia insinuar que não seriam seus
filhos, apesar de ambos carregarem os olhos cínicos da mãe.
Adelaide, para bom observador, era a
líder. Bastava ver suas decisões, jamais contestadas por Ernesto, que caminhava
quase imperceptíveis centímetros atrás quando o par caminhava de mãos dadas,
seja na praça, seja na igreja, seja em qualquer lugar. E o esposo não
demonstrava desconforto, como se aquilo fosse do seu agrado. Discussões, então,
caso tivessem ocorrido, não eram do conhecimento público.
Ernesto vinha de família tradicional. Ainda
rica, apesar da diluição do patrimônio ao longo de décadas entre os herdeiros.
Mesmo assim, dinheiro não era algo com que o homem precisaria se preocupar, a
não ser que, do nada, ele se tornasse um pródigo. Improvável, já que o sujeito
era praticamente um minimalista. Não por ser sovina, mas por desprendimento das
coisas materiais.
A esposa, por sua vez, mesmo não
sendo muquirana, parecia entender como poucos o valor de cada vintém. Viera da
classe média e, por conta do matrimônio, subira dois ou três degraus no poder
de compra. Mas não pense você que a soberba lhe subiu à cabeça. Continuou
praticamente a mesma Adelaide dos tempos de transporte público, só que com a
cútis melhor.
A
improbabilidade do casal se devia ao estranho hábito de Adelaide, que se
revelava todas as vezes que os dois estavam sozinhos no sobrado: ordenar que o
marido fosse passar a noite no canil. Não que tivessem cachorro, já que Sultão,
o velho pastor alemão, havia falecido de causas naturais há quase dois anos. E
não pense você que o Ernesto desgostasse da situação. Na verdade, ele sentia
que precisava passar por aquilo para se tornar um esposo merecedor do amor da
sua rainha, quer dizer, dona.
- Nota de esclarecimento: O conto "Um caso insuspeito" foi publicado no Notibras no dia 8/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/um-casal-insuspeito/

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