segunda-feira, 9 de março de 2026

Vera, um caso isolado entre tantos

        Vera navegou, conforme ouvi em uma mesa de boteco, por uma complexa teia de afetos, discrição e vulnerabilidade. Emaranhado de fios tênues que, ao menor abalo, poderiam ser rompidos e, não duvide, a mulher seria atirada à fogueira da hipocrisia da sociedade dos anos 1960. 

            Casada, dois filhos pequenos, sentia-se enclausurada naquele apartamento de dois quartos, enquanto Carlos, o esposo, ganhava o mundo ao sair para trabalhar. Júlia e Mauro, as crianças, passavam as tardes na escola, e Vera, cada vez mais entediada, olhava pela janela, talvez na busca desesperada por seus sonhos que, por mais tolos que fossem, praticamente haviam sido deixados para trás.

            Foi numa dessas tardes solitárias que Helena, a vizinha de porta, xícara vazia na mão direita, enquanto na outra segurava um cigarro pela metade, foi pedir um pouco de pó de café. Elas mal se conheciam, como, já naqueles idos, era comum nas cidades grandes, como se fosse espécie de código não escrito. Mesmo assim, a política da boa vizinhança se fazia necessária e, com ela, o desconforto se transformou em sorrisos aparentemente francos. 

            Xícara cheia, Helena agradeceu, momento em que Vera, olhando por cima do ombro esquerdo da vizinha, percebeu a porta entreaberta. Confortavelmente sentado ao sofá, estava um homem de cabelos escuros, bigode e olhos árabes. Ele sorriu, o que trouxe misto de timidez e inquietação à Vera. As mulheres se despediram com olhares confidentes.

           Dois dias depois, a campainha tocou novamente. Vera atendeu sem pensar em quem seria. Era Helena, xícara na mão direita, agora cheia de pó de café. 

            `— Não precisava.

              — Faço questão.

              — Obrigada. Helena, né?

              — Isso. E você é a Vera. Acertei?

              — Sim. 

              Elas se olharam por um momento, até que Vera tomou a iniciativa de convidar a vizinha para tomar café. 

                — Não quero incomodar.

                — Não é incômodo. Vai ser até bom. Estou precisando conversar com alguém mesmo.

                Enquanto a anfitriã colocava água para ferver, Helena percebeu que a cozinha era impecável, como se Vera estivesse esperando por visitas.

                — Que nada, Helena! Estou tão acostumada a ficar sozinha, que acabo de limpar tudo, daqui a pouco já estou passando pano nos móveis de novo. 

                Sentadas à mesa, as duas mulheres, ainda se conhecendo, pareciam escolher com cuidado as palavras. 

                — Está bom?

                — O café?

                — Sim.

                 — Ah, está ótimo! Muito melhor do que o meu.

                Mais um silêncio, logo quebrado.

                — Sou casada.

                — Eu vi que é.

                — Não. Aquele homem que você viu não é o meu marido.

                — Não?

                — É meu amante.

                Vera sabia que aquele sujeito não era o esposo da vizinha. Mentiu, é verdade, pois não via motivo para causar constrangimentos desnecessários. Todavia, foi pega de surpresa com o completo despudor de Helena. De tão impressionada, Vera levou as mãos aos lábios, que se sentiam impulsionados a acompanharem o sorriso encantador da adúltera.

                — Não tem medo?

                — Medo de quê?

                — De alguém descobrir?

                — Não.

                — E o seu marido?

                — Seria até bom.

                — Você está louca?

                — Hum! Pelo menos assim ele perceberia que estou viva.

                Era justamente daquele jeito que Vera se sentia, deixada de lado por Carlos, a vida se esvaindo como se alheia ao sofrimento, que havia se instalado no peito solitário da mulher. No máximo, um apêndice. E, envolta nesse sentimento, ela se envolveu com Pedro, que conhecera, por acaso, na mercearia do bairro. 

              Um tipo aparentemente austero até a primeira palavra dita. Por encanto, era como se Vera estivesse diante de um desgarrado da conduta ilibada esperada por aqueles de bons costumes. Sem pensar, ela se aproximou do sujeito e, sorriso nos lábios, se mostrou acessível, para espanto do homem, que não deixou de notar a chamativa aliança no dedo anelar esquerdo da mulher. 

                Aquele primeiro contato não rendeu frutos de imediato, mas a semente fora lançada e, na semana seguinte, tarde ensolarada, Vera e Pedro, sentados à mesa da cozinha, mal tocaram no lanche. Atracaram-se na ânsia de apagar o fogo que os consumia, enquanto o café esfriava e os biscoitos amanteigados eram deixados de lado.

                O romance durou o tempo que deveria ter durado. Não mais do que alguns meses. Entediada, Vera foi direta, não queria mais. Não por culpa, a questão era outra. Luís, vendedor de enciclopédias, cujos lábios carnudos chamaram a atenção da mulher. 

              Luís ficou enciumado quando descobriu que a amante o estava traindo com Rubens e, sem drama, saiu de cena. Seguiram-se Augusto, Roberto, Laerte e até dois homônimos do esposo. Não se sabe se ela foi descoberta por Carlos, que parecia voltado aos próprios interesses. Há tempos, ele vivia um romance com Judith, uma colega de trabalho, e até pensava em largar a família, mas havia um empecilho. É que a amante era casada. Aliás, muito bem-casada por sinal.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Vera, um caso isolado entre tantos" foi publicado no Notibras no dia 9/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/vera-um-caso-isolado-entre-tantos/

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