sexta-feira, 13 de março de 2026

A improvável vida de aventuras

 

    Meu avô, de acordo com as palavras do meu pai, teria sido um sujeito de se admirar. Desses que todos costumam voltar os olhos na vã esperança de que ocorra uma troca de olhares, breve que seja, apenas para cordial aceno de cabeça. Não sei se papai fala com a razão ou, não descarto, seja apenas o coração se apoderando do menino que ele foi um dia.

    Quem vê o meu velho falando do próprio pai talvez imagine que vovô tenha sido uma espécie de agente secreto, tipo James Bond ou, então, o mais notável detetive da literatura, Sherlock Holmes. De tão icônico, ainda hoje carrego cá com meus botões a dúvida de quem seria criador de quem. Arthur Conan Doyle criou Homes ou, então, foi ele quem inventou o famoso escritor escocês?

    Bertoldo, o herói inventado, nasceu e viveu uma vida sem grandes percalços, condizente com o trabalho em uma repartição pública. Passaria despercebido pela maioria, não era mais alto ou mais baixo, não muito gordo e também não tão magro, olhos comuns, cabelos penteados que nem os homens de sua época, bigode aparado até mesmo depois que saiu de moda. Pouco o conheci e, por isso mesmo, guardo raras lembranças. Talvez tenha sido ele que, vez ou outra, me trazia bombons nos bolsos do paletó. Na verdade, não me recordo desse tempo, é mamãe que, ainda hoje, em almoços dominicais, faz questão de relembrar.

        Meu pai, nesses instantes, apenas esboça um leve sorriso. É nítido o orgulho que toma se rosto, mas, mesmo assim, ele procura não o expressar de modo óbvio, talvez se lembrando de uma frase que, segundo ele, foi do meu avô: "Jamais ria, a não ser se estiver mentindo."

        Nunca entendi muito bem o sentido desse pensamento, digamos, incomum para um homem que, por anos, teve um reles trabalho em uma repartição pública sem grandes atrativos. Seria aquilo um disfarce? Duvido. Mesmo assim, percebo que esse devaneio é hereditário, pois, vez ou outra, me pego repetindo tal dilema para o meu filho, que mal completou dois anos.

         Ludmila, a minha esposa, me olha com certo desdém, como se aquilo fosse tolice. Não sou tolo o bastante para discordar, mas há coisas que prefiro guardar em segredo. Afinal, sou de linhagem de espiões e, certamente, o meu herdeiro enfrentará desafios para salvar o mundo, ainda que ele, quando chegar o tempo, trabalhe em uma repartição pública que nem meu avô, meu pai e eu. Então, meu amigo, jamais ria, a não ser se estiver mentindo.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A improvável vida de aventuras" foi publicado no Notibras no dia 13/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/a-improvavel-vida-de-aventuras/

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