Há uma máxima entre os policiais antigos que vale demais ser mencionada: "Se quiserem derrubar um crime, é só procurar num bar, na casa da luz vermelha ou no barbeiro, serviço de inteligência sem precedentes."
Se aconteceu exatamente dessa maneira,
não posso afirmar. Todavia, também não serei eu a contestar o que me chegou aos
ouvidos por, digamos, uma senhora que passou boa parte da vida trabalhando
na horizontal. Dona Cibele, cujo nome de labuta era Bela e, apesar de mais de
duas décadas fora do ofício, ainda é possível que algum antigo cliente saudoso
e bom de memória a reconheça quando esbarra com essa mulher de cabelos tingidos
de loiro passeando com duas cadelinhas da raça chihuahua ali no início da
Asa Norte, em Brasília.
Quando me falaram dessa resistência
dos serviços de alcova, jornalista que sou, tratei de marcar um encontro com
ela em um café. Todavia, por telefone, ela rejeitou parcialmente a proposta.
Não o encontro, mas o local em si. Disse que preferia um pé-sujo próximo ao seu
apartamento. E nem precisei perguntar o motivo, já que dona Cibele não
demonstrou qualquer constrangimento.
— Só frequento lugares onde me sinto à
vontade.
A precisão de datas ficou encoberta pela
fumaça dos inúmeros cigarros da Dona Cibele, hábito que, segundo ela me
confidenciou, adquiriu somente depois de se aposentar. Entretanto, a mulher foi
capaz de se lembrar de coisas muito mais difíceis de serem guardadas. Entre
elas, os nomes de todos os personagens envolvidos no assassinato de um
português, que havia se encantado pelos seus serviços.
— Sabe, Júlio... Posso chamá-lo de
Júlio, né?
— Sim! Claro! Fique à vontade, dona
Cibele.
— Bela.
— Bela.
— Obrigada. Assim a minha memória fica
mais confiável.
Francisco, português quase radicado no
Brasil, apesar de manter residência em Porto, onde Leonor, a esposa, ainda
residia, era assíduo frequentador da casa, como Cibele, ou melhor, Bela,
gostava de chamar seu local de trabalho. O sujeito gostou tanto daqui, que
dizia que só voltaria para Portugal para assinar os papéis do divórcio.
— Ele estava apaixonado por alguma
mulher daqui?
— Sabe, Júlio... Não sou do tipo que
costuma jogar confetes sobre a própria cabeça, mas... Bem, acho que você me
entende... Sempre levei meu trabalho muito a sério.
— Por você?
— Se você está dizendo...
— Tá, mas e daí? O que aconteceu, então?
— Bem, o Francisco sabia que eu não
gostava de ser sustentada por homem nenhum. Cafetão também não admito. E não
sou de ficar em casa com as unhas sem um bom esmalte. Ou me aceitava daquele
jeito, ou que fosse procurar outro rabo de saia. Aqui não é bagunça, não!
Bela me confidenciou que Leonor, apesar
de não saber a história por completo, boba também não era. Desconfiava de que o
marido estivesse enganchado numa rapariga, como os portugueses costumam chamar
as mulheres jovens. Errada não estava, inclusive se quisesse usar a mesma
palavra, mas com o significado brasileiro.
— Bem, Júlio, você sabe... Não que eu
estivesse totalmente tranquila com a situação, mas havia o Atlântico entre nós.
Então, pelo menos foi o que eu imaginava, estava a salvo da rapariga de lá. E
olha que não sou portuguesa.
— Tá, mas como aconteceu?
— Bem, Júlio, você sabe... Quando se está apaixonada, a
gente fica refém das armadilhas do coração. Então, foi um baque quando
aconteceu o que aconteceu. Bem entre os olhos. Se encostasse o cano entre as
vistas perigava não ser tão certeiro. O meu Francisco nem percebeu que estava
morto, simplesmente caiu que nem jaca madura, aos meus pés. Morto, totalmente
morto.
— E quem foi?
— Quem foi, todo mundo sabe, mas o que vale
mesmo é quem mandou.
— E quem mandou?
— Ninguém sabe ao certo, mas tenho cá as minhas
desconfianças.
— A rapariga?
— Sim. Mas quem é que prova?
— Mas ouvi dizer
que prenderam quem matou.
— Não foi bem assim, Júlio.
— Não? Mas não foi o...
— Não! O Alcides entrou de gaiato. Os canas já
estavam atrás dele há tempos, mas não tinham como provar nada. Mas o Alcides estava
no lugar errado, na hora errada, e foi envolvido no caso.
— Tem certeza? É que
li no...
— Leu certo notícia errada, Júlio. O Alcides estava no
quarto ao lado com a Lucinha. Quem matou o Francisco foi matador.
— Matador?
— É. Tipo que mata. Mata por dinheiro,
vingança, de graça e, na falta disso, mata por prazer.
— E você sabe quem foi?
— E não sei?
— E quem foi, dona Cibele.
— Bela!
— Bela. E quem foi, Bela?
— Bem, Júlio, você sabe... Acordar com a boca cheia de formiga nunca foi o meu objetivo de vida. Ainda mais eu, que, naquele tempo, era chamada de Bela Lábios de Mel.
- Nota de esclarecimento: O conto "Dona Cibele e o português" foi publicado no Notibras no dia 31/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/dona-cibele-e-o-portugues/

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