Gervásio Guimarães, o seu Gegê, era um dos mais notórios frequentadores do Bar do Bosco, bem ali na 709 Norte, em Brasília. Um tipo, no mínimo, ainda recordado por parte dos que tinham por hábito ir ali, mesmo que fosse para comprar cigarros ou dividir uma breve cerveja com amigos.
Beirando os 90 anos, o sujeito era viúvo há pelo menos duas
décadas, sem filhos, cachorro, gato, papagaio ou aquário para se preocupar,
chegava ao local duas ou três horas após o almoço. Raramente fazia o pedido à
mesa, preferia a crueza do balcão. Sentava-se em um dos bancos altos, não
aparentava preferência, mas evitava os próximos ao banheiro.
Dependendo do movimento, Bosco, o dono do
boteco, dava certa atenção ao cliente assíduo. Não era questão de bajular o
coroa, mesmo porque, quando muito, seu Gegê não bebia nada além de um suco de
laranja ou uma água com gás. A questão era outra. É que o comerciante ficava
incomodado com certos indivíduos que se aproximavam do idoso para lhe contar as
maiores mentiras, como se velhice pudesse ser alvo de troças,
Se o Bosco parecia inconformado com aquela
situação, não se podia dizer o mesmo do seu Gegê. Na verdade, ele parecia até
se divertir e, muitas vezes, se fazia de desentendido por conta de algum
comentário carregado de etarismo.
Intrigado com o comportamento passivo do seu Gegê, Bosco, em determinada
ocasião, o questionou como é que ele aguentava aquela conversa fiada. Seu Gegê apertou
os olhos miúdos e, com o sorriso que a dentadura lhe permitia, disse:
— Bosco, meu amigo, nem ligo se a conversa é fiada. Nesta
altura da vida, o que me importa é conversa, qualquer que seja. Sou
praticamente um enterrado vivo no deserto do esquecimento.
- Nota de esclarecimento: O conto "Seu Gegê e o etarismo" foi publicado no Notibras no dia 10/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/seu-gege-e-o-etarismo/

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