Árbitro, alguns empertigados faziam questão
de corrigi-lo. Emídio, que preferia a paz a buscar imbróglios com rusguentos de
última hora, fingia aceitar de bom grado tal lembrança, mesmo porque há tempos
aprendera com um certo Aires, que preferia o silêncio e o sorriso à disputa.
Que os embates ficassem dentro de campo, onde ele era a autoridade máxima,
alheio aos democráticos xingamentos vindos de todos os lados, muitos dos quais
direcionados à sua honesta genitora.
Aconteceu
na final do campeonato de futebol amador da cidade. Impecavelmente vestido de
preto de cima a baixo, apito firme na boca, Emídio apontou para a marca mais
controversa da grande área. Penalidade máxima! E os protestos surgiram da parte
da torcida e do time do zagueiro Tonhão, que usou a costumeira brutalidade
contra o habilidoso Ricky Ricardo, que gingou o corpo de um lado, gingou para o
outro, talvez se imaginando o próprio Garrincha. Foi aquela pancada certeira na
canela, que tirou o craque da partida.
Inconformados com a marcação, a pequena multidão invadiu o
campo e foi aquela pancadaria generalizada. Ninguém mais sabia em quem era para
bater ou de onde os pontapés e sopapos poderiam chegar. Besta que não era,
Emídio tratou de sair de fininho antes que a sua integridade física fosse
violada por algum sujeito desgostoso.
O campeonato não foi decidido em campo e, por
mais esdrúxulo que aquilo fosse, acabou no tribunal. E lá se dirigiram os
envolvidos para o tribunal, agora em frente a um juiz de verdade, que iria,
finalmente, decidir aquela pendenga. Mas não pense você que a coisa foi tão
simples assim, pois os insatisfeitos tomaram conta do fórum.
O juiz togado, percebendo que precisava colocar ordem na casa,
bateu o malhete com força.
— Silêncio!
Enquanto a algazarra se esvaía, eis que o Emílio, que estava
sentado na primeira fileira destinada ao público, se manifestou.
— Pois é, eu te entendo. Nós, que somos juízes, muitas
vezes precisamos tomar decisões no calor do momento.
O juiz de verdade logo sentiu empatia por seu suposto par
e, então, o convidou para se aproximar.
— Colega, você é juiz de qual vara?
— Não é vara, nobre colega. É várzea.
O constrangimento se instalou de vez e, apesar de tanto tempo decorrido,
ainda hoje o campeonato de 1997 não foi decidido. Mas que foi pênalti, ah, isso
foi, ainda hoje o velho Emídio faz questão de afirmar categoricamente o velho.
Há pouco, ele aposentou o apito e pode ser encontrado na Banca do Guima ou na
Oficina Magnu, onde costuma relembrar os causos vividos e, principalmente, os inventados.
- Nota de esclarecimento: O conto "Emídio, o juiz da várzea" foi publicado no Notibras no dia 11/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/emidio-o-juiz-da-varzea/

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