domingo, 29 de março de 2026

Nada mais do que Josefina

  

            Josefina, verdadeiro azougue, bem sabia que o tempo é traiçoeiro que nem político que confunde o povo com religião. Por isso, preferia se ater a fatos, enquanto assuntos místicos eram deixados para os que estão no além. 

             Entre tantos afazeres, Josefina não tinha nem tempo de reclamar da vida corrida que não dava para nada. Que parasse um minuto para ver o que iria acontecer. Era capaz de desaprender a respirar, como se até esse ato involuntário precisasse da atenção da mulher. 

             Raimundo, o marido, apesar da vida miserável, mal chegava ao barraco, se transformava em rei. E ai da Josefina tentar usurpar o seu trono. Era tabefe para todos os lados. Que aprendesse de uma vez ou, não duvide, o bicho pegava. 

             Os filhos, todos criados, fingiam não enxergar as agruras da mãe. E ai da Josefina se inventasse de ir à polícia. Era aquele teatro decorado de frases desconexas com a realidade: "Mãe, tu quer mesmo destruir a nossa família", "É tudo culpa da senhora, que não respeita o pai", "Mãe, a senhora precisa entender o pai, ele é um homem bom", "Se a senhora denunciar o pai, não sou mais sua filha", "Mãe, arroz, feijão e ovo de novo? Cadê o bife?".

            Aguentou até a corda arrebentar. Enquanto todos reclamavam que retornasse para o barraco no final do dia, não teve dúvida. Atirou-se debaixo do trem, que, piedoso, deu fim ao martírio da Josefina. Quem?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Nada mais do que Josefina" foi publicado no Notibras no dia 29/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/nada-mais-do-que-josefina/

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