Entre tantos afazeres, Josefina não tinha
nem tempo de reclamar da vida corrida que não dava para nada. Que parasse um
minuto para ver o que iria acontecer. Era capaz de desaprender a respirar, como
se até esse ato involuntário precisasse da atenção da mulher.
Raimundo, o marido, apesar da vida
miserável, mal chegava ao barraco, se transformava em rei. E ai da Josefina
tentar usurpar o seu trono. Era tabefe para todos os lados. Que aprendesse de
uma vez ou, não duvide, o bicho pegava.
Os filhos, todos criados,
fingiam não enxergar as agruras da mãe. E ai da Josefina se inventasse de ir à
polícia. Era aquele teatro decorado de frases desconexas com a realidade:
"Mãe, tu quer mesmo destruir a nossa família", "É tudo culpa da
senhora, que não respeita o pai", "Mãe, a senhora precisa entender o
pai, ele é um homem bom", "Se a senhora denunciar o pai, não sou mais
sua filha", "Mãe, arroz, feijão e ovo de novo? Cadê o bife?".
Aguentou até a corda arrebentar. Enquanto todos reclamavam que retornasse para o barraco no final do dia, não teve dúvida. Atirou-se debaixo do trem, que, piedoso, deu fim ao martírio da Josefina. Quem?
- Nota de esclarecimento: O conto "Nada mais do que Josefina" foi publicado no Notibras no dia 29/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/nada-mais-do-que-josefina/

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