— Asdrúbal, meu amigo, você precisa levantar a
cabeça e seguir em frente.
— Não consigo, Gilson. Como é que a Laura foi
fazer isso comigo?
— Bem, meu amigo, é aquela coisa... Afinal,
quem é que nunca se envolveu com primos? Aposto que você também já teve uma
quedinha por uma prima?
— Meus pais são filhos únicos.
Sem Laura e primas para um improvável affair, Asdrúbal se fechou que nem
ostra, e não havia quem conseguisse fazer com que o sujeito vislumbrasse o
mundo que não deixava de correr por causa de frustrações amorosas, fossem elas
de quem fosse, muito menos as de um reles caixa de banco. Banco particular, por
sinal.
Num sábado, não muito quente, não muito frio,
temperatura ideal para apaziguar intrigas tolas por conta de dois ou três graus
centígrados para cima ou para baixo, eis que Asdrúbal não teve como recusar o
convite para um churrasco no terraço do edifício onde residia. Até tentou, mas
foi praticamente arrastado por seu vizinho de porta, o Osvaldo.
— Ou tu vem comigo ou tu vai ter que me
expulsar da sua sala.
Como o colega era muito mais forte do que ele,
Asdrúbal acabou cedendo, ainda mais porque constatou que qualquer coisa seria
mais agradável a ser obrigado a passar horas conversando com aquele tipo. Não
que desgostasse do Osvaldo, era até divertido, mas enfrentar aquele bom humor
sozinho já era demais.
Além dos moradores, praticamente todos já conhecidos, havia
uma bela mulher de seus 45 anos, que era aparentada da dona Clotilde, inquilina
do 104. Mais para alta do que para baixa, ligeiramente acima do peso, alguém
sem gosto poderia dizer, belos cabelos com alguns corajosos fios brancos à
mostra, chamativos olhos castanhos ornados com cílios salientes, sorriso
cativante de quem sabe o que quer. Patrícia era o seu nome.
A certa altura, quando todos pareciam satisfeitos com o
rega-bofe, eis que os olhares de Asdrúbal e Patrícia se cruzaram pela primeira
vez. Por um instante, os dois se mantiveram firmes até que, talvez por timidez,
Asdrúbal desviou os olhos. A mulher, que poderia ter se desinteressado naquele
momento, pareceu encantada por tamanho acanhamento e, impetuosa que era, se
aproximou.
— Prazer! Sou a Patrícia.
Pego de surpresa, Asdrúbal, boquiaberto, levou alguns
míseros segundos para responder.
— Asdrúbal.
— Hum! Nome forte. Gostei.
A conversa se desenrolou de modo incomum. Tanto é que, aos
olhos dos presentes, todos tinham como certo o enlace entre aqueles dois. Mas
eis que, do nada, a coisa pareceu degringolar.
— Então, Asdrúbal, você não vai me convidar para o seu
apartamento?
— Sabe, Patrícia, eu até poderia, mas há algo que você
precisa saber.
— E o que é?
— A minha mulher está em casa tomando conta dos nossos seis
filhos. E preciso ir ajudá-la, pois as crianças são terríveis.
E foi assim que, com um argumento carregado de inverdades, que o Asdrúbal boicotou um possível romance, que até poderia não ir além daquele final de tarde, mas que, certamente, o teria arrancado do marasmo daquela melancolia. E o gajo continua sozinho, não por falta de oportunidade, mas por excesso de memória.
- Nota de esclarecimento: O conto "Coisas do Asdrúbal" foi publicado no Notibras no dia 6/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/coisas-do-asdrubal/

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