segunda-feira, 2 de março de 2026

Vicente, o primo do amigo do Cleidson

    
            Cleidson, o Clei, mineiro de Visconde do Rio Branco, desde menino, havia se mudado para São Paulo, já que os pais, àquela época, tamanha a insegurança financeira, foram buscar melhores condições em 1978. Saídos da roça, onde moravam em um sítio, tiveram que se adaptar ao agito da cidade grande. No entanto, apesar dos percalços, conseguiram sobreviver e até se saíram relativamente bem. 

            Quando chegou o ano de 1992, Clei, então com 19 anos, resolveu tentar a sorte na Inglaterra, mesmo que, àquele tempo, não soubesse mais do que o básico do básico do inglês. Por sorte, o rapazola era amigo do Gilberto, que estava passando uma temporada em Brasília. A sorte, obviamente, não era a mudança do colega para a capital do país, mas sim o fato de Gilberto ter um primo, o Vicente, que residia em Londres, justamente a cidade para onde Clei havia decidido se aventurar.

            O mineiro tratou de comprar várias fichas e foi até o orelhão mais próximo à sua residência e telefonou para o Gilberto. Este, por sua vez, lhe disse para procurar o Vicente, que iria ajudá-lo a arrumar emprego, local para morar, bem como uma boa escola para que Clei estudasse inglês. Tamanho amparo deu o empurrão definitivo ao viajante, que, até aquele instante, sentia um frio na barriga só de pensar em partir para terras estrangeiras.

            Passagem apenas de ida comprada, malas prontas e as providenciais anotações cuidadosamente guardadas no bolso, Clei se despediu dos pais. É verdade que, diante do aperto no coração por conta da despedida, ele tenha pensado em desistir. Entretanto, o desejo por novas experiências, autoconhecimento e mudança de vida falaram mais alto. E lá foi o jovem explorar o desconhecido.

            A viagem foi longa o suficiente para Clei fazer um balanço da sua vida até então. Nascido na roça, aos seis anos mudara para a maior cidade do país e, agora, estava a caminho do país da sua banda favorita, The Beatles. Como aquele amor surgira? Ele jamais conseguiu se lembrar do exato momento, mas foi fisgado, talvez na rádio, por aquele som que conquistou o mundo anos antes de ele nascer. 

            Assim que passou pela imigração e se dirigiu à saída, Clei pensou nos pais, talvez como forma de se proteger do desconhecido que o esperava dali a poucos metros. Todavia, assim que ultrapassou a porta, avistou um homem com um bigode igual ao do Freddie Mercury segurando um cartaz acima da cabeça: "Cleidson, seja bem-vindo a Londres!" Era o Vicente, o primo do seu amigo.

            A calorosa recepção foi um alívio para Clei, que, de cara, sentiu uma conexão com Vicente, que carregava uma inconfundível e agradável cara de deboche. Tanto é que, anos mais tarde, ele falaria com carinho do amigo que fez na capital inglesa. 

        Vicente acolheu Clei em sua residência por tempo suficiente até que conseguiu arrumar emprego e um simples, mas confortável apartamento, para o mineiro. Também indicou um ótimo curso de inglês para Clei, que, finalmente, se tornou fluente.

            Clei foi trabalhar na mesma empresa de limpeza onde Vicente comandava uma equipe noturna. Por conta desse cargo de chefia, o primo do Gilberto ganhava muito bem: 400 libras esterlinas por semana. E Vicente havia conseguido essa bocada logo depois de chegar a Londres, dois anos antes.

                Intrigado como é que o Vicente tirara a sorte grande, Clei soube com detalhes tamanha conquista.

            — Clei, fui ao Job Centre e comecei a olhar as vagas. E essa vaga era para pessoa que falasse muitos idiomas. Então, me candidatei a essa vaga.

            — Mas por que precisavam de um poliglota pra esse posto?

          — Bem, é que os contratados pra fazer o serviço de limpeza são geralmente imigrantes de vários países. 

            — Ah, entendi.

            — Mas espere, que você não sabe o melhor.

            — E o que é?

            — O cara que me entrevistou me perguntou quantas línguas eu falava. Disse, na maior cara de pau, que falava inglês, como ele poderia perceber, já que estávamos conversando em inglês. Disse que também falava a minha língua nativa, que é português, bem como espanhol, italiano e alemão. 

             — E você fala tudo isso mesmo?

            — Calma, que chego lá. Então, ele me pediu para falar um pouco de português. Disse algumas frases, e essa foi, de longe, a parte mais fácil, obviamente. Depois quis que eu falasse alguma coisa em espanhol, e lá fui eu enrolar a língua e emendei um portunhol muito fajuto. Aí, o cara me pediu pra falar algumas frases em italiano. Nunca pensei que fosse tão fácil enrolar o entrevistador. Misturei português, espanhol e algumas palavras em italiano enquanto gesticulava com as duas mãos erguidas. Mas o melhor mesmo foi quando ele me disse pra eu falar alemão.

                        — E como você fez?

            Vicente sorriu o sorriso mais cínico, cofiou o bigode de vocalista do Queen e respondeu:

        — Clei, acredite ou não, busquei nos recônditos da memória aquele sotaque germânico e mandei: Aftas ardem, hemorroidas idem.

        Clei caiu na gargalhada, enquanto Vicente, que possuía talento para o teatro, pareceu satisfeito com a reação da plateia composta por um único espectador. Mas eis que a história ainda não havia terminado.

        — Aí, Clei, o cara me perguntou como é que eu, um jovem brasileiro, havia aprendido tantos idiomas. Com a cara mais lavada do mundo, respondi: I like languages.

            — Mas, Vicente, você não teve medo do homem descobrir que isso era sua farsa?

          Vicente, nesse momento, empertigou-se ao máximo e disparou:

          — Clei, você vai aprender rapidinho uma coisa a respeito dos ingleses. Apesar de terem dominado o mundo inteiro, os ingleses só sabem coisas sobre eles mesmos.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Vicente, o primo do amigo do Cleidson" foi publicado no Notibras no dia 2/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/vicente-o-primo-do-amigo-do-cleidson/

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