
Quando
chegou o ano de 1992, Clei, então com 19 anos, resolveu tentar a sorte na
Inglaterra, mesmo que, àquele tempo, não soubesse mais do que o básico do
básico do inglês. Por sorte, o rapazola era amigo do Gilberto, que estava passando
uma temporada em Brasília. A sorte, obviamente, não era a mudança do colega
para a capital do país, mas sim o fato de Gilberto ter um primo, o Vicente, que
residia em Londres, justamente a cidade para onde Clei havia decidido se
aventurar.
O
mineiro tratou de comprar várias fichas e foi até o orelhão mais próximo à sua
residência e telefonou para o Gilberto. Este, por sua vez, lhe disse para
procurar o Vicente, que iria ajudá-lo a arrumar emprego, local para morar, bem
como uma boa escola para que Clei estudasse inglês. Tamanho amparo deu o
empurrão definitivo ao viajante, que, até aquele instante, sentia um frio na
barriga só de pensar em partir para terras estrangeiras.
Passagem
apenas de ida comprada, malas prontas e as providenciais anotações
cuidadosamente guardadas no bolso, Clei se despediu dos pais. É verdade que,
diante do aperto no coração por conta da despedida, ele tenha pensado em
desistir. Entretanto, o desejo por novas experiências, autoconhecimento e
mudança de vida falaram mais alto. E lá foi o jovem explorar o desconhecido.
A
viagem foi longa o suficiente para Clei fazer um balanço da sua vida até então.
Nascido na roça, aos seis anos mudara para a maior cidade do país e, agora,
estava a caminho do país da sua banda favorita, The Beatles. Como aquele amor
surgira? Ele jamais conseguiu se lembrar do exato momento, mas foi fisgado,
talvez na rádio, por aquele som que conquistou o mundo anos antes de ele
nascer.
Assim que passou
pela imigração e se dirigiu à saída, Clei pensou nos pais, talvez como forma de
se proteger do desconhecido que o esperava dali a poucos metros. Todavia, assim
que ultrapassou a porta, avistou um homem com um bigode igual ao do Freddie
Mercury segurando um cartaz acima da cabeça: "Cleidson, seja
bem-vindo a Londres!" Era o Vicente, o primo do seu amigo.
A
calorosa recepção foi um alívio para Clei, que, de cara, sentiu uma conexão com
Vicente, que carregava uma inconfundível e agradável cara de deboche. Tanto é
que, anos mais tarde, ele falaria com carinho do amigo que fez na capital
inglesa.
Vicente acolheu Clei em sua residência
por tempo suficiente até que conseguiu arrumar emprego e um simples, mas
confortável apartamento, para o mineiro. Também indicou um ótimo curso de
inglês para Clei, que, finalmente, se tornou fluente.
Clei foi
trabalhar na mesma empresa de limpeza onde Vicente comandava uma equipe
noturna. Por conta desse cargo de chefia, o primo do Gilberto ganhava muito
bem: 400 libras esterlinas por semana. E Vicente havia conseguido essa bocada
logo depois de chegar a Londres, dois anos antes.
Intrigado como é que o Vicente tirara a sorte grande, Clei soube com detalhes
tamanha conquista.
— Clei, fui ao Job
Centre e comecei a olhar as vagas. E essa vaga era para pessoa que falasse
muitos idiomas. Então, me candidatei a essa vaga.
— Mas por que
precisavam de um poliglota pra esse posto?
— Bem, é que os contratados
pra fazer o serviço de limpeza são geralmente imigrantes de vários
países.
— Ah, entendi.
— Mas espere, que
você não sabe o melhor.
— E o que é?
— O cara que me
entrevistou me perguntou quantas línguas eu falava. Disse, na maior cara de
pau, que falava inglês, como ele poderia perceber, já que estávamos conversando
em inglês. Disse que também falava a minha língua nativa, que é português, bem
como espanhol, italiano e alemão.
— E você
fala tudo isso mesmo?
— Calma, que chego
lá. Então, ele me pediu para falar um pouco de português. Disse algumas frases,
e essa foi, de longe, a parte mais fácil, obviamente. Depois quis que eu
falasse alguma coisa em espanhol, e lá fui eu enrolar a língua e emendei um
portunhol muito fajuto. Aí, o cara me pediu pra falar algumas frases em
italiano. Nunca pensei que fosse tão fácil enrolar o entrevistador. Misturei
português, espanhol e algumas palavras em italiano enquanto gesticulava com as
duas mãos erguidas. Mas o melhor mesmo foi quando ele me disse pra eu falar
alemão.
— E como você fez?
Vicente
sorriu o sorriso mais cínico, cofiou o bigode de vocalista do Queen e
respondeu:
— Clei, acredite ou não, busquei nos
recônditos da memória aquele sotaque germânico e mandei: Aftas ardem,
hemorroidas idem.
Clei caiu na gargalhada, enquanto
Vicente, que possuía talento para o teatro, pareceu satisfeito com a reação da
plateia composta por um único espectador. Mas eis que a história ainda não
havia terminado.
— Aí, Clei, o
cara me perguntou como é que eu, um jovem brasileiro, havia aprendido tantos
idiomas. Com a cara mais lavada do mundo, respondi: I like languages.
— Mas,
Vicente, você não teve medo do homem descobrir que isso era sua farsa?
Vicente, nesse momento,
empertigou-se ao máximo e disparou:
— Clei, você
vai aprender rapidinho uma coisa a respeito dos ingleses. Apesar de terem
dominado o mundo inteiro, os ingleses só sabem coisas sobre eles mesmos.
- Nota de esclarecimento: O conto "Vicente, o primo do amigo do Cleidson" foi publicado no Notibras no dia 2/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/vicente-o-primo-do-amigo-do-cleidson/
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