Como barata que tenta desviar das solas
impiedosas, enquanto tantos foram esmagados, Adilson conseguiu sobreviver,
apesar das cicatrizes profundas. De patinho feio, continuou pato e feio, muito
longe de se transformar em um belo cisne. No entanto, passou a olhar com desdém
os que caíam ao seu lado, como se aqueles seres não fossem dignos do ar
que, disparatadamente, continuavam a respirar.
Ele era diferente, soava diferente,
cheirava melhor, sorria dentes mais bonitos, vestia-se com mais apuro.
Definitivamente, Adilson nascera para brilhar. Não tardou, conquistou o
improvável posto de encarregado em uma grande loja de departamentos. Não que
aquilo fosse algo que o elevasse a uma categoria de destaque, mas foi o
suficiente para retirá-lo, ao menos aos seus olhos, daquele submundo.
Adilson, a partir daquele momento, foi
tomado de um sentimento de superioridade. Não só deixou de cumprimentar os
conhecidos, como os ignorava. Rude até, chegava a insultá-los. E foi por
uma bobagem, alguém poderia dizer, que a transformação definitiva aconteceu.
Sua mãe, dona Leopoldina, cuja artrite a castigava há tempos, pediu para que o
rapazola lavasse a louça, que estava acumulada há dois dias.
— Lave a senhora, que tenho coisa mais
urgente pra fazer.
Quem o visse, sabia que Adilson não era rico. Fingia, mesmo que mal, ser rico. Todavia, tinha o sabor de um.
- Nota de esclarecimento: O conto "Da sarjet ao infinito" foi publicado no Notibras no dia 16/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/da-sarjeta-ao-infinito/

Nenhum comentário:
Postar um comentário