Moraes,
75 anos, ao sair do banho, displicentemente passou a toalha pelo corpo,
deteve-se por alguns instantes nas partes íntimas, esfregou os parcos cabelos,
sacudiu a cabeça e a água espirrou para todos os lados. Em seguida, toalha nos
ombros, se dirigiu aos dois policiais, o Santana e o jovem Pedrito.
—
Pois não, no que posso servi-los.
Santana,
o mais incomodado com a situação, mandou que o sujeito se vestisse.
—
E por quê?
—
Porque você está pelado, ué!
—
Pois é assim que gosto de ficar na minha casa.
—
Mas ali tem uma senhora.
—
E eu não sei?
— Então, vista-se!
—
Ela é minha mulher, já está acostumada e posso garantir que até aprecia
bastante.
Roseneide,
a esposa, percebeu que era melhor intervir antes que a aquilo saísse do
controle.
—
Meu amor, coloque uma bermuda pelo menos. Desse jeito até eu fico envergonhada
na frente desses senhores.
Moraes,
o peladão, apesar de contrariado, acatou a sugestão da companheira, que foi
buscar a roupa para o sujeito vestir, enquanto ele, pernas abertas, se
esparramou na poltrona da sala.
—
Pois o que vocês querem comigo?
Pedrito,
o extremo oposto do Santana, era um poço de paciência.
—
Bem, seu Moraes, precisamos que o senhor nos acompanhe até a delegacia.
—
E pra quê? Não matei e não roubei.
—
O senhor vai na condição de testemunha.
—
Testemunha? Do quê?
—
O senhor presenciou a briga entre seus vizinhos.
—
Hum! Pois tenho cara de fofoqueiro? Não vou! Tenho mais o que fazer.
—
Senhor, isso não é um convite, mas uma ordem emitida pelo delegado. O senhor
não tem alternativa, precisa mesmo nos acompanhar até a delegacia.
Nisso,
Roseneide retornou com uma bermuda e uma camisa e as entregou para o
esposo, que, garboso, se ergueu e, com um sorriso nos lábios, se vestiu.
Pedrito, então, perguntou educadamente:
—
Podemos ir, seu Moraes?
O
homem voltou a sorrir, olhou para a esposa, que perguntou se Larissa, uma das
filhas, poderia acompanhá-lo.
—
Não vejo problema, senhora. Ela está aqui?
—
Sim. Vou chamá-la.
Já
na viatura a caminho da delegacia, Pedrito ao volante, Santana ao seu lado,
Moraes e Larissa no banco de trás, permaneciam calados. Foi então que o Santana
quis saber quantos filhos o velho possuía. Todavia, antes que ele pudesse
responder, a filha se apressou em dizer.
—
Nove!
Moraes,
então, retrucou:
—
Doze!
Larissa,
bastante exaltada, fez cara de brava e, voz firme, mostrou que não gostou:
—
Pois eu conto apenas os filhos que o senhor teve com a minha mãe. Esses outros
aí não sei e nem quero saber.
Moraes,
sorriso de canto de boca, preferiu ficar calado, enquanto o Santana, quase
inaudível, disse para o Pedrito:
— Eita, velho danado!
- Nota de esclarecimento: O conto "Santana, Pedrito e o peladão" foi publicado no Notibras no dia 23/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/santana-pedrito-e-o-peladao/

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