O sujeito, que
havia conquistado certo reconhecimento no meio literário, principalmente por
suas publicações num jornal de bairro, tratava o próprio sucesso local com
desdém. Isso, aliás, vez ou outra, era assunto para suas crônicas mordazes
sobre a falta de afagos fora daquele reduto. Que ao menos fosse poeta, cuja
loucura, até dos que convivem com o anonimato, é reverenciada como algo
grandioso.
— Contos
muitos escrevem. Crônicas, então, qualquer um, desde que saibam colocar
palavras enfileiradas, se passará por mestre da escrita. Mas, meu caro, poesia
é outro patamar. Ali não basta ter tutano, tem que ter coração. Um coração de
verdade, não um desses que mal repetem as batidas conhecidas até pelo relógio
da igreja. Blém-blém funciona na capela. Na vida real, é só barulho.
E aquela fala não era ou, ao menos, não parecia ser mera encenação.
Rubens se fiava nas próprias palavras de modo resoluto. Estava mesmo convencido
de que só aos poetas eram destinados ao Olimpo. Que os demais se contentassem
com as migalhas, vez em quando, atiradas aos famintos. Queria estar nas
prateleiras em vez de ser lido em celulares por proletariados em transportes de
massa no trajeto casa-trabalho-casa.
Em frente ao espelho, o escritor treinava entrevistas que
nunca dera e, provavelmente, não passavam de devaneios. Até chegou a ouvir de
um amigo, muito sincero por sinal, que o seu estilo era muito nichado.
— Nichado?
— É, Rubens. Você escreve para um público específico.
— Sou descartável, você quer dizer.
— Não é isso.
— Então, é o quê?
— Você tem um público cativo, que lê as coisas que você
escreve.
— Coisas? Agora eu escrevo coisas? É isso que sou? Um
escritor de coisas?
— Desculpe, meu irmão, não foi isso que quis dizer. Eu me
expressei mal.
Rubens saiu sem se despedir, sua vida parecia cada vez mais carregada de
coisas. Caminhou até o ponto de ônibus. Em pé, não percebeu a chuva começar a
cair, que logo se misturou às lágrimas que escorriam pela face. Entrou no
coletivo, pagou a passagem e se sentou ao lado de uma senhora, que lhe
cumprimentou com um breve aceno de cabeça. Ele tentou responder com um sorriso
forçado.
Durante
o caminho, a mulher, celular na mão, pareceu entretida com algo, mas Rubens estava
mais interessado no próprio fracasso. Foi aí que ela, forçando intimidade, se
virou para o companheiro de banco e disse:
— Esse Rubens Martins escreve cada coisa boa. O senhor o
conhece?
Rubens, pego de surpresa, balbuciou.
— Coisa?
— Rubens Martins. Eu o leio todos os dias. Não perco uma
história.
— Coisa?
— O senhor está bem?
— A senhora disse coisa?
— Coisa boa! Ele tem estilo. Não é qualquer um que
escreve coisas assim, não.
— Obrigado.
Rubens sorriu o primeiro sorriso autêntico do dia, levantou-se, puxou a cordinha e desceu no ponto seguinte, que era o seu.
- Nota de esclarecimento: O conto "Rubens, o escritor de coisas" foi publicado no Notibras no dia 27/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/rubens-o-escritor-de-coisas/

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