— Mas, dona Felícia, a senhora tem
certeza?
— Getúlio, meu rapaz, você acha que uma
filha consegue esconder alguma coisa da mãe?
— Bem... Ela mentiu pra mim, e não foi só
uma vez.
Dona Felícia se espichou que nem girafa,
lançou sobre o jovem aquele olhar de coruja ressabiada, rodeou-o por duas, três
vezes, enquanto Getúlio começou a esperar por um ataque pelas costas. Do nada,
a mulher saiu da sala, foi até a cozinha. O homem não entendeu tal atitude,
talvez ele tivesse dito coisa que não devia.
Os minutos seguintes duraram uma eternidade, apesar de, na conta do relógio na parede, não tenham chegado à meia hora. De repente, lá estava a anfitriã, café e bolinhos de chuva em uma bandeja de plástico simples, porém honesto. Ela ajeitou o lanche da tarde sobre a mesa e, logo em seguida, ordenou.
— Venha se sentar.
Getúlio nem titubeou. Era homem de enfrentar qualquer um, até
cachorro bravo se fosse necessário. Todavia, a coragem se acanhava diante
daquela mulher.
—
O café tá do seu agrado?
—
Tá sim, senhora.
—
E os bolinhos?
—
Os melhores que já provei.
Dona Felícia pareceu satisfeita, apesar de não acreditar por completo nas
respostas. Seja como for, regozijou-se por dentro sem deixar transparecer os
sentimentos para o futuro genro. De súbito, a dona da casa, dedo em riste, ergueu
a voz.
— Pois
vou lhe dizer uma coisa muito séria!
Getúlio, olhos do tamanho de jabuticaba madura, ficou diante da mulher
aguardando a grande explicação, que acabou por deixá-lo ainda mais confuso.
—
A Laís não mentiu porque simplesmente nunca aprendeu a mentir. Ela é moça
direita, que você precisa confiar. A minha filha só sabe dizer verdades, mesmo
aquelas que ainda não chegaram a acontecer.
- Nota de esclarecimento: O conto "Verdades que parecem mentiras" foi publicado no Notibras no dia 18/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/verdades-que-parecem-mentiras/

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