Sempre gostou dos exageros de Van
Gogh e, quando teve oportunidade, pediu para um pintor da Torre de TV,
em Brasília, transformar uma fotografia antiga em uma pintura ao estilo do
famoso pintor holandês. Ele, que driblava a vida sempre que a oportunidade dava
as caras, se sentia feliz por poder fazer parte da vida daquelas duas mulheres,
cujas qualidades, apesar de aparentemente dissonantes, as tornavam tão
próximas, que não era difícil afirmar que algo muito mais forte as ligava,
muito além do DNA.
Eram
irmãs, filhas daquele sujeito, que poderia ser palhaço de circo ou caixa de um
banco qualquer. Talvez trabalhasse em alguma repartição pública, enquanto
desejava manhãs ensolaradas, mesmo por girassóis. Um tipo qualquer, cuja
ausência de coragem era disfarçada com caretas, que faziam as garotas
sorrirem.
Ana
Maria, a mais velha, influenciada pelo avô, embrenhou-se entre as leis. Foi ser
advogada, defender os direitos dos desvalidos, especialmente das mulheres, tão
subjugadas por essa sociedade patriarcal, que a misoginia é tratada como parte
da cultura. Parem de nos matar! Meu corpo, minhas regras! A minha roupa não é
um convite! O pessoal é político!
Mariana, inverso da primogênita, foi ser cientista. O interesse
por algas marinhas, não por acaso, era tentativa de salvar o planeta. Vida nos
labirintos dos laboratórios, visão além do horizonte, que cega tanta gente, que
aceita como verdade absoluta o que é dito em altares.
Cariocas, tão próximos, tão distantes. Enquanto a advogada vive
na ponte aérea por tantos recantos, a pesquisadora segue mestranda na USP.
Quando ao palhaço sem maquiagem, ele se traveste de contador de histórias em
Porto Alegre. Os três não veem a hora de se encontrarem em Copacabana, num dia
ensolarado, mesmo que pela arte de Vincent.
- Nota de esclarecimento: O conto "Duas mulheres e um palhaço sem máscara" foi publicado no Notibras no dia 30/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/duas-mulheres-e-um-palhaco-sem-mascara/

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