Lembro-me do tio
Orlando entrando na sala, quando os adultos pareciam consternados por algo que
eu soube, por descuido de adultos, após alguns anos. Tio Orlando era, na
verdade, meu tio-avô, o caçula entre os irmãos da minha avó-materna, Iolanda.
Tio Orlando sorriu aquela tranquilidade
desconfortante, enquanto minha mãe, com brasas nos olhos, parecia querer esganá-lo.
Papai sorriu o sorriso amarelo de sempre, como tentando se desculpar por algo
que lhe era alheio, mas que, de certo modo, acabaria por atingi-lo. Imbróglios
de família, alguém poderia dizer, como se isso fosse desculpa para que já
deveríamos, de antemão, nos acostumarmos pelo pior.
Pois lá estava o Tio Orlando, que se
comportava como se o caos não estivesse anunciado. Pior, completamente
instalado, sufocando a todos. Entretanto, até hoje me surpreendo com o regozijo
no rosto do irmão de vovó naquela ocasião, tão próprio aos sociopatas. Aquela
completa ausência de empatia, o que fazia do sujeito, ao menos aos olhos dos
que supunham conhecê-lo, o mais frio dos seres humanos. Humanos?
Mamãe foi a primeira a confrontar tio Orlando, E a sua voz carregava uma
autoridade, que nem mesmo vovó foi capaz de colocar panos quentes na situação.
— Tio Orlando, o senhor ainda tem a desfaçatez de aparecer
aqui depois do que fez?
— Boa tarde, Laura! Você sabe
que sempre foi a minha sobrinha favorita, né?
Como tio Orlando fazia aquilo, nunca consegui descobrir.
Mamãe aceitou de bom grado o abraço e o beijo afetuoso do parente. Pareceu até
se envergonhar por se dirigir ao seu tio naquele tom rude. Tanto é que, já no
instante seguinte, adocicou a voz.
— Tio Orlando, desse jeito o senhor coloca a todos nós em
situação constrangedora.
— Ah, minha querida Laura, deixa aqui com o seu tio, que
vou resolver isso até o final desta semana. Pode ser?
— O senhor promete?
— Hum! Por acaso agora a minha palavra não vale nada?
Mamãe, enlaçada por tio Orlando, pareceu se sentir aconchegada e,
sorriu aqueles dentes longos e alvos e, quase emocionada, convidou a todos para
desfrutar os bolinhos de chuva recheados com banana, uma das suas
especialidades culinárias.
Tio Orlando nos deixou dois anos após aquele dia. Pipa
voada. Era assim que os parentes e amigos se referiam a ele. Sem direção,
vivendo de forma livre, leve e solta, como se não houvesse amanhã. Gastou o que
tinha e o que não podia, deu alguns pequenos golpes na praça, inclusive o que
fora motivo da discórdia daquela tarde na casa da minha avó. Obviamente que ele
não resolveu a pendenga, restando aos parentes se cotizarem para pagar a
dívida. E, apesar de tantos e tantos anos após aquele evento, ainda hoje minha
mãe se refere ao falecido com um misto de rancor e afeto,
— Tio Orlando não valia nada, mas era um amor de pessoa. Ah, que saudade!
- Nota de esclarecimento: O conto "Tio Orlando, o sociopata da família" foi publicado no Notibras no dia7/3/2026,
- https://www.notibras.com/site/tio-orlando-o-sociopata-da-familia/

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