Devo ter feito cara de apaixonada, pois
Daniela me fitou com certo interesse. Ela me esticou a mão esquerda e sorriu.
Instintivamente, estiquei a direita, quando ouvi pela primeira vez sua voz
rouca.
— Com a esquerda, que é mais perto do
coração.
Isso quebrou o gelo e a cumprimentei com
a mão mais próxima ao meu músculo cardíaco, que, naquele instante, parecia
querer saltar pela boca. Daí em diante, Daniela e eu nos tornamos, aos olhos atentos,
mais do que amigas. E se falassem algo, e não sou ingênua a ponto de imaginar
que não o fizessem, estávamos tão envolvidas que, naqueles idos, realmente não
ligávamos.
Entre provas, trabalhos em grupo e muito
estudo, tivemos altos e baixos, a maior parte por conta de ciúmes tolos. E a
separação, já perto da formatura, pareceu inevitável, tamanho o desgaste natural
do relacionamento, que se sustentava à custa do carinho que ainda nutríamos uma
pela outra. Tanto é que, apesar dos laços que ainda nos ligavam, mal nos
falamos durante a entrega dos diplomas.
Nossas vidas tomaram rumos distintos nos
anos seguintes. Eu quase me casei, mas consegui não sucumbir às aparências.
Segui meu caminho, tive alguns romances ao longo do tempo, mas nenhum que me
desse mais prazer do que as aulas de química que ministrava em duas escolas.
No ano passado, por um desses acasos
da vida, reencontrei Daniela na porta da escola. Os mesmos cabelos
escuros e anelados, aqueles olhos que sempre me confundiram, o diastema que ainda
tornam seu sorriso tão sincero. Ela me viu e, apressadas, corremos para nos
abraçar.
Daniela é mãe
de uma das minhas alunas. Estava separada do marido, mas, segundo me contou,
ainda continuavam amigos dentro do possível. Ela não havia seguido carreira. O
diploma, porém, foi útil para se tornar servidora pública. Trocamos telefones
e, dois dias depois, fomos a um café.
A conversa
fluiu de modo que eu não esperava até que a troca de olhares falou mais alto,
quase aos gritos. Desde então, reatamos algo que havíamos deixado para trás.
Daniela prefere manter nossos encontros longe do escrutínio dos outros.
— Júlia, você acha que seremos salvas?
Atormentada, eu não soube respondê-la. Creio que essa busca espiritual compartilhada criou um vínculo de sofrimento que poucos entenderiam.
- Nota de esclarecimento: O conto "Daniela, minha colega de faculdade" foi publicado no Notibras no dia 28/3/2026.
- https://www.notibras.com/site/daniela-minha-colega-de-faculdade/

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