sábado, 21 de dezembro de 2024

Lembranças e reparações

              

            Seria apenas mais um almoço em família, caso não fosse pelo imbróglio envolvendo os dois irmãos, que já haviam ultrapassado a barreira dos 40 anos. Pedro, o mais velho, contava para os sobrinhos sobre seu tempo de criança, enquanto Paulo enchia o prato pela segunda vez com a macarronada. No entanto, o homem não deixou de ouvir a voz do irmão, ainda mais quando o assunto também o envolvia. 

               — Seu pai, eu e nosso pai adorávamos viajar para Cabo Frio, onde acampávamos bem em frente ao mar.

               — Puxa, tio, que legal!

               — E era mesmo, Juninho. Ainda mais porque amávamos ir pescar nas pedras com o papai.

              Paulo, ao ouvi aquelas palavras saídas dos lábios do irmão, não resistiu e entrou na conversa.

              — Não acredite em tudo que seu tio diz, crianças.

              — Por quê, papai?

              — Quem gostava de pescar era o meu pai e seu tio.

              Pedro pareceu surpreso com a revelação. Tanto é que tratou logo de contestar a fala do irmão.

              — Paulo, que história é essa? Você nunca me disse que não gostava de pescaria.

              — Não é que eu não gostasse. Na verdade, eu sempre odiei!

              — Ué, e por que você ia com a gente, então?

              — E tinha outro jeito? 

              — Ué, era só falar.

              — Mas eu falava. O problema é que você e o papai nunca me escutavam.

              — Não me lembro disso.

              — Não?

              — Não!

              — Pois eu queria brincar na praia.

              — Ah, mas a gente brincava na praia.

               — Sim, mas depois de passar a manhã inteira naquelas pedras. Ainda me lembro de você e o papai se divertindo entre um e outro peixe fisgado, enquanto eu não tirava o olho da praia. 

              Quase um mês após aquele almoço, Pedro telefonou para o irmão. Ele disse que havia reservado uma casa em frente à praia do Peró. Seria não apenas momento de relembrar o passado tão longínquo, como também de reparações.

              Os irmãos pegaram o avião em Brasília e desceram no Rio. De lá, alugaram um carro e rumaram para Cabo Frio. Chegaram ao destino quando já era madrugada. Cansados pela viagem, adormeceram logo após desfazerem as malas. 

              Acordaram bem cedo e, animados, correram que nem meninos para a praia. Deram mergulhos, jogaram água um no outro, gargalharam o que há muito estava represado no peito. Ficaram por ali até que a fome bateu. 

               Almoçaram moqueca de camarão e beberam suco de abacaxi. O dia foi repleto de lembranças. Pedro, no entanto, percebeu que o caçula continuava com o olhar perdido.

              — O que foi? Não tá gostando?

              — Tô.

              — E que cara é essa?

              — Saudade do papai.

              — Também sinto falta dele.

              O domingo amanheceu ensolarado, enquanto o odor da maresia inebriava o ambiente. Tudo perfeito para mais um dia na praia. 

              — E aí, Paulo, já tá pronto?

              — Sim.

              — Então, vamos, que à tardezinha temos que retornar.

              — Que tal pescar lá nas pedras?

              Pedro, surpreso, olhou para o irmão. Os dois sorriram e, caniços e iscas nas mãos, caminharam até as pedras entre as praias do Peró e das Conchas. Não pegaram muitos peixes. Todavia, fisgaram inúmeras lembranças. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Lembranças e reparações" foi publicado por Notibras no dia 21/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/do-almoco-em-familia-no-lago-sul-a-um-banho-de-mar-e-pescaria-em-cabo-frio/

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O marido da Dona Irene

            Não raro, alguém me pergunta se a Dona Irene é doida. É até estranho ouvir isso, pois doideira maior seria se ela não existisse. Na certa, o meu mundo se tornaria um tédio.

          Após todos esses anos de convívio, fui praticamente arrancado da toca onde eu insistia em viver. Calma, que explico! 

           Sou escritor. Aliás, como a minha mulher insiste que eu diga: "Sou escritor!" Mas nem sempre foi assim tão fácil, pois há pessoas que imaginam que essa profissão está restrita a raros nomes, muitas vezes nem lidos, mas sempre mencionados. Talvez por conta disso ou algo que até hoje não consegui entender, tivemos o seguinte interlúdio:

            — Edu, você precisa voltar a escrever.

            — Não. Isso já passou.

            — Óbvio que não!

        Nisso, a Dona Irene me puxou pelo braço e me fez encarar a minha imagem refletida no amplo espelho da sala.

             — Tá vendo esse cara aí?

             — Sim.

             — Pois bem! E você sabe quem é ele?

             — Hum... Eu?

             — Esse aí é o Eduardo Martínez!

             — E daí?

           — Daí que você está diante do meu escritor favorito! Então, é melhor você passar a tratá-lo muito bem a partir de hoje.

          É engraçado como a minha esposa consegue ser tão persuasiva. Tanto é que, desde então, voltei a escrever após quase uma década de inatividade. Não sei se a Dona Irene havia percebido que a literatura faz parte da minha vida desde sempre ou, então, é algo que ela, hoje, adora falar toda vez que me apresenta aos seus amigos:

            — Este é o Eduardo Martínez, meu escritor favorito. Ah, ele também é o meu marido.  

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O marido da Dona Irene" é mais uma das crônicas do escritor Eduardo Martínez que foi publicada por Notibras. 
  • https://www.notibras.com/site/marido-da-dona-irene-e-o-escritor-favorito-dela/


  

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Entre passarinhos e recordações

   
          Gosto de vir à praça. Não para encontrar amigos ou possível romance. A minha turma, talvez por tédio, resolveu se mudar para o cemitério do bairro ao lado. Quanto às provocações do coração, confesso que cansei de lutar contra a minha natureza solitária. No entanto, não chego a ser um ermitão, mesmo porque costumo trocar algumas palavras com o Aloísio, dono da banca de jornal, sem falar que, não raro, cumprimento o porteiro do meu prédio. 

           Os passarinhos. Pois são eles que me fazem acordar antes das seis da manhã, preparar meu café e caminhar até aqui. Sento neste banco em frente a estas árvores e observo o exibido bem-te-vi, que parece me encarar como se dissesse: "Ei, homem velho, ninguém canta mais alto do que eu por estas bandas!" Na certa, esse rapaz deve pensar que está diante de um desperdício da natureza, já que sou muito maior do que ele, mas não emito nem sequer um som que valha a pena ser ouvido.

           Tem também aquele talentoso sabiá-laranjeira. De tão bom cantor, o apelidei de Emílio Santiago. Nem sei se esse pássaro sabe que tem o nome de uma das maiores vozes do Brasil, mas isso não importa. Todavia, creio que o Emílio adoraria saber que tem um xará que faz sucesso por aqui. 

             Há também beija-flores, sanhaços, além dos inúmeros pardais. Entretanto, o que chama mais a minha atenção é o casal de joão-de-barro, cuja moradia me faz lembrar a casa de sapê dos meus avós. Casa humilde lá no interior. Sem energia elétrica, mas cheia de luz, sem falar dos biscoitos e do bolo de fubá que vovó sabia fazer como ninguém. 

               A última vez que estive no sítio dos pais da minha mãe foi em 1974, pouco depois do falecimento do vovô. Enquanto a família falava que ele morreria por causa de tanto fumar, eis que foi um tombo que o levou. Tropeçou numa pedra de Drummond e bateu com a testa na quina do cocho das vacas. O médico foi chamado às pressas, mas não teve tempo de fazer nada além de assinar o atestado de óbito.

           Mamãe e minha tia, após vovó ficar viúva, decidiram trazê-la para cidade. Ela resistiu por um tempo, mas acabou percebendo que a idade chegava para todos. E, aos trancos e barrancos, alcançou os três dígitos, coisa rara entre os nossos. Viveu até os inacreditáveis 107 anos.

            Quando meu avô morreu, ele estava com 87 anos, dois a mais do que estou hoje. Caso não tropique em alguma pedra no caminho que ainda me resta, talvez eu chegue à sua idade. Todavia, não tenho pretensão de esticar a vida que nem vovó.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Entre clássicos e poesias

    

        Os amigos, vez ou outra, me perguntam por que ando sumida. Sem demora, invento uma desculpa qualquer, que estou atolada de serviço no trabalho, que viajei para visitar minha mãe, até que o cachorro está doente. Aliás, talvez esta seja a mentira mais deslavada, pois o Teco faleceu há quase dois anos. 

          Vivo reclusa, mergulhada em pensamentos de outrora e de agora. Os antigos, e que poderia ter feito, não fiz. Quanto aos de hoje, desapareceram que nem periquito na copa de árvore. Quando tento puxar pela memória, eis que outros se aproveitam para invadir a minha mente. Sorte que são tão efêmeros, que logo pegam o beco sem deixar rastro.   

          Separei alguns livros para ler. "Dom Casmurro", "A hora da estrela", "Cem anos de solidão" e "A verdade nos seres", de um tal Daniel Marchi. O famoso romance do Machado de Assis já li duas vezes. Da primeira, tive certeza de que Capitu era mesmo uma adúltera. Já na segunda, inocentei a mais notória personagem da literatura brasileira. Não duvido, então, que depois de terminar de lê-lo pela terceira vez, constate que o maior desejo de Bentinho era ser traído. 

          Macabéa! Já tive meus momentos de Macabéa. Não raro, percebo traços de Clarice em sua famosa personagem. Seria ela o alter ego da autora? Outra coisa que não sai da minha mente é que Macabéa, inconscientemente, se deixou atropelar por aquele Mercedes-Benz. Não raro, invade-me aquela vontade de fazer o mesmo, mas falta-se algo que nunca tive: coragem. 

          Lembro-me vagamente da história contada por Gabriel. É que já faz mais de 30 anos que li sua premiada obra. Entretanto, ainda guardo na memória Rebeca, que, depois de viúva, se trancou em casa e voltou a ter o hábito de comer terra. Nunca me casei, apesar de alguns relacionamentos duradouros, que só me sufocaram com a ideia de eternidade. Também jamais tive pretensão de comer terra, pois chocolate sempre me pareceu mais atraente. 

        Indecisa que estou, observo os três clássicos sobre a cama. Que nada! Olho para "A verdade nos seres", como quem não está interessada. Puro fingimento. Passo os dedos sobre a capa branca e vermelha e não resisto. Hoje preciso de um pouco de poesia.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Mendonça, um ídolo em preto e branco

        O Botafogo anda em alta, como é facilmente constatado pelas recentes conquistas da Copa Libertadores da América e do Campeonato Brasileiro. Todavia, nem sempre foi assim, especialmente durante a longa e tenebrosa fila de 21 anos, quando o time, aos trancos e barrancos, tentava sobreviver. Nessa época, destacava-se a figura de um camisa 8 franzino e de cabeleira vistosa. Seu nome? Mendonça, uma verdadeira Estrela Solitária.

          Meia-direita, mas jogando como um verdadeiro 10, o lendário craque marcava gols salvadores nos minutos finais de partidas sofríveis, quando o time era massacrado por ataques adversários. Obviamente que não era sempre que aquele herói improvável conseguia impedir que o Glorioso perdesse, mas, mesmo assim, ele caiu nas graças da torcida, haja vista tamanha dedicação e amor ao clube. Tanto é que, durante uma entrevista, ele disse para quem quisesse ouvir: "Não sou um jogador do Botafogo. Sou um torcedor do Botafogo!"

          O momento mais lembrado desse gênio dos gramados, provavelmente, é o terceiro e derradeiro gol na partida contra o Flamengo em 1981, quando o Botafogo venceu por 3 a 1. Mendonça, do lado esquerdo, recebeu um longo lançamento do lado oposto. Matou no peito, deu um drible desconcertante sobre o grande Júnior e, em seguida, chutou no canto sem chance para Raul. Essa belezura de gol recebeu a alcunha de Baila Comigo, então sucesso da também saudosa Rita Lee. 

          Apesar da incrível passagem pelo alvinegro, isso não foi capaz de impedir que o Mendonça tenha sido quase expulso do time, pois ele não conseguiu acabar com longos anos sem título. Esse lamentável episódio, no entanto, não apagou a memória dos torcedores. Tanto é que o Mendonça, ainda hoje, figura entre os mais reverenciados ídolos da história do Botafogo. Um ídolo sem títulos, é verdade, mas, nem por isso, sem glórias.  

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Mendonça, um ídolo em preto e branco" foi publicada por Notibras no dia 17/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/mendonca-um-idolo-em-preto-e-branco-que-deu-cores-nitidas-ao-futebol/  

    

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Fim de semana na roça

       

        Maria Clara e Argolo, finalmente, aceitaram o convite para passarem o final de semana na fazenda de um conhecido. O casal, metropolitano que era, imaginou que seria a chance ideal para dar aquela bicuda no estresse do dia a dia, ainda mais porque a grana andava curta para a tão sonhada viagem a Paris. 

          Visitar a Torre Eiffel, a Catedral de Notre-Dame e o Museu do Louvre ou passar por baixo do Arco do Triunfo estava fora dos planos por enquanto. Dessa forma, conformados que estavam, aqueles dois trataram de colocar a bagagem no velho, porém resiliente, possante, e pegaram a estrada quando a madrugada ainda era menina. O plano era chegar à fazenda do Alberto, o tal amigo, quando o dia estivesse amanhecendo. 

          Para afastar qualquer cochilada, Maria Clara encheu a garrafa térmica com café bem forte. Também preparou alguns sanduíches de queijo e mortadela, os preferidos do marido. 

          — Argolo, você quer que eu dirija um pouco?

          — Não precisa, amor. Estou bem.

          — Mas se você ficar com sono, me fale.

          — Pode deixar. 

          Enquanto o carango bravamente vencia os quilômetros, Maria Clara e Argolo conversaram mais do que o habitual. Momentos de conhecer o parceiro, que muitas vezes foram adiados pela simples correria. Isso, aliás, parece ter surtido mais efeito do que a cafeína, pois o casal ficou surpreso quando percebeu a placa que indicava que precisaria dobrar à esquerda para entrar na estrada de terra, que levaria até a propriedade rural do Alberto. 

          Argolo reduziu a velocidade para evitar que os solavancos danificassem a suspensão do carro. Por sorte, a porteira estava logo adiante, onde Alberto e um funcionário esperavam pelos amigos. Após os cumprimentos, todos se dirigiram para a sede, onde já os aguardava um farto café da manhã. 

         Quase duas horas sentados à mesa, Argolo avistou alguns cavalos ao longe.

          — Belos cavalos, Alberto. 

          — Quer montar?

          Argolo, talvez querendo demonstrar desenvoltura com o assunto, aceitou de pronto.

          — Claro!

          Alberto pediu ao funcionário que fosse arrear um animal. Não tardou, um lindo tordilho estava diante do alpendre.  Maria Clara pareceu receosa com aquela situação.

          — Argolo, você tem certeza?

          — Não se preocupe, meu bem.

          Jurandir, o capataz, deu pequenas instruções ao hóspede, que já estava sentado na sela. Arreios nas mãos, Argolo deu leve toque com os calcanhares na barriga do animal, que começou a andar e, logo depois, já se encontrava a uma boa distância da casa. 

          Não se sabe por que isso aconteceu, mas aconteceu. É que o cavaleiro de primeira viagem, talvez se sentindo Durango Kid, resolveu desferir mais um toque, porém mais forte, no vazio animal, que disparou. Pra quê? Argolo, de repente, se viu em situação complicada e, por pouco, não caiu. 

          Argolo teve ímpeto de gritar por socorro, mas lhe faltou voz. E galopa daqui, galopa de lá, galopa desembestado para todo lado, eis que o bicho estacou. Foi a deixa para que o homem descesse e voltasse a pé, puxando o cavalo pelas rédeas. Enquanto isso, lá na varanda, Alberto e Maria Clara, testemunhas daquela performance, conversavam.

          — Seu marido monta bem.

          — Pois é. E olha que eu nem sabia disso.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Fim de semana na roça" foi publicado por Notibras no dia 16/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/argolo-tipo-durango-kid-descobre-que-cavalgar-nao-e-para-qualquer-um/
  • O conto "Fim de semana na roça" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 16/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/fim-de-semana-na-roca/

domingo, 15 de dezembro de 2024

Juca, o gato do Daniel Marchi

        Dia desses, estava trocando ideias com o poeta e escritor Daniel Marchi, o Dan, que divide comigo o comando da editoria Café Literário aqui do Notibras. A conversa prosseguia tranquila, mesmo sendo por chamada de vídeo. No entanto, eis que algo inesperado aconteceu, e não pense você que tenha sido problema no sinal da internet. O imbróglio era outro, que tem nome e até sobrenome: Juca Marchi. 

    Para colocar o leitor a par sobre esse tal Juca, aviso logo que não se trata do filho do meu amigo. Quer dizer, não no sentido genético, já que o dito cujo é um gato. Na verdade, como todo ser humano que convive com bichanos, o Dan sabe que ele não é o dono do Juca, mas simplesmente seu escravo. Isso, aliás, parece ser sina de escritores.

    Peraí! Não tenho gatos, mas cachorras: a Bebel e a Clarinha. Será, então, que, para alcançar o nirvana da literatura, preciso arrumar um felino? Deixemos essa dúvida para outra ocasião, mesmo porque o que se passou me parece ser muito mais digno de nota e, talvez, do seu agrado.

    — Edu, olha que coisa interessante.

    — O quê?

    — Para poupar tempo, peguei o metrô na Cinelândia e fui até o Catete. Só que me aconteceu uma coisa.

    — O quê?

    — Esqueci meu celular no escritório.

    — Hum...

    — Mas o pior ainda estava por vir.

    — O quê?

    — Ideias começaram a pulular minha mente.

    — Para contos e crônicas?

    — Sim, e também para poemas.

    — Hum...

    — O problema é que sempre anoto tudo no celular,

    — Hum...

    — Por sorte, sempre carrego um bloquinho no paletó.

    — Hum...

    — Anotei todas as ideias para não esquecer.

    — Que bom!

    — Vou ler o que escrevi. Minuto.

    Enquanto o Dan se afastou do computador, comecei a me distrair com a Bebel e a Clarinha, minhas buldogues, até que ouço um lamento em voz humana. Voltei os olhos para a tela e pude ver o meu amigo diante do Juca. Apertei os olhos para enxergar melhor e constatei que o felino estava com míseros pedaços de papel ao seu redor.

       Sem ter muito o que fazer a não ser juntar todos aqueles pedacinhos de folha, o meu amigo retornou para frente do computador. Ele parecia resignado e até esboçava certo alívio. Isso, aliás, me deixou intrigado.

        — Caramba, Dan, dessa vez o Juca pegou pesado.

       — Que nada, Edu! O Juca sabe o que faz, pois nasceu com excelente tino literário.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Juca, o gato do Daniel Marchi" foi publicada por Notibras no dia 15/12/2034.
  • https://www.notibras.com/site/juca-o-gato-do-daniel-marchi-com-faro-literario/

sábado, 14 de dezembro de 2024

Línguas ferinas

    

          Shirley era afeita a usufruir da capacidade da língua falar, não importando se fosse algo digno de credibilidade. O que importava era que a história fosse boa e, caso não fosse, a garota dava um jeito de atrair os ouvidos da plateia, seja em reuniões, seja no botequim do seu Zé, seja até mesmo nos mais fortuitos encontros em qualquer esquina. 

          E foi justamente numa dessas inesperadas convergências de caminhos que Shirley esbarrou com Camila, antiga colega dos tempos de escola. As mulheres se olharam por um instante, até que forçaram sorrisos de regozijo pelo encontro.

          — Camila, há quanto tempo!

          — Pois é, mulher! E você sabe que estava justamente falando de você ontem?

          — Jura? 

          — E agora preciso jurar?

          — Hum... Espero que você tenha falado bem de mim.

          — E tem como não falar bem de ti, amiga?

          Era nítido o cinismo no olhar das duas, mas o interlúdio prosseguiu.

          — Pois quero que um raio me fulmine se eu falei mal de ti, Shirley.

          Na dúvida, as duas olharam para o céu, que estava azul e sem uma nuvem sequer. 

          — Camila, estou apenas brincando com você. Sei que você seria incapaz de fazer fofoca justamente de mim. Afinal, somos amigas há tanto tempo.

          Surpresa pelas palavras da conhecida, Camila ganhou novo fôlego. No entanto, antes que pudesse prosseguir com o discurso, foi interrompida.

          — Se bem que...

          — Se bem que o quê, Shirley?

          —Se bem que já é difícil controlar a nossa língua, imagine as alheias.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Línguas ferinas" foi publicado por Notibras no dia 14/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/reencontro-de-amigas-de-velha-data-tem-ate-juras-de-amizade-sem-fofocas/

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Estresse do dia a dia

    

       Margarete andava estressada. Além do trabalho no escritório, precisava cuidar dos afazeres domésticos. Mal abriu a porta do apartamento, Paulo e Amanda, os filhos de 13 e 10 anos, reclamaram que não aguentavam mais comida requentada. Jorge, o marido, fingiu prestar atenção ao noticiário na televisão, talvez para evitar entrar no possível imbróglio. 

          — Chega!

          O homem e as crianças, olhos arregalados, miraram Margarete. O que teria acontecido com a esposa? Mamãe estava bem? Jorge tentou fazer cálculos de cabeça e, apesar da matemática ruim, descartou a possibilidade da mulher estar em período crítico. 

          Jorge desligou a televisão e foi até a companheira. Margarete, nos braços do marido, desabou em choro compulsivo.  As crianças se entreolharam e, em seguida, Amanda indicou com leve movimento de cabeça que precisavam confortar a mãe. 

          No centro da sala, Margarete se viu abraçada pela família, até que se recompôs. Enxugou as lágrimas com as mãos e forçou um sorriso que já não possuía.

          — Vamos pedir pizza.

          — Oba! - disse o filho.

          — Não, Paulo. Vamos comer a comida que a mamãe fez.

          Margarete olhou para filha e sorriu o primeiro sorriso sincero do dia. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Estresse do dia a dia" foi publicado por Notibras no dia 13/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/estresse-do-dia-a-dia-tem-enfim-final-feliz/

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Um certo cantor de Niterói

       Se é verdade ou não, ainda assim se trata de uma história deveras plausível. Portanto, vale a pena ser contada, pois creio que aconteceu como me foi dita há tempos por um amigo de longa data, o Cleidson, enquanto degustávamos um delicioso café gourmet numa afamada padaria em Brasília. 

          A fim de fazer chacota do sarcasmo de possíveis incrédulos, eis que decidi iniciar a história com o clássico e manjado "Era uma vez..."

          Era uma vez um famoso músico, compositor e maestro chamado Antônio Carlos, mas que, parece, preferia ser chamado simplesmente de Tom. Pois é, tal gajo se encontrava no Garota de Ipanema (outrora Veloso), famoso bar localizado no bairro homônimo, no Rio de Janeiro, quando o telefone tocou. O garçom prontamente atendeu e, em seguida, se dirigiu à mesa regada de chopes.

            — Tom, é pra você.

            — Quem é?

            — Um cara que fala todo enrolado.

            Mesmo sem querer interromper a conversa com Vinicius, parceiro de belas canções, lá foi o maestro atender.

            — Alô? Quem é?

            Do outro lado da linha, ouviu-se a voz inconfundível de um certo gringo de alcunha Frank, que quase gritou num inglês carregado da Costa Leste.

            — É o Frank, Tom! Tudo bem?

            — Diga lá! O que manda?

            A conversa prosseguiu até que o Tom, certamente querendo mexer com os brios do amigo, o provocou.

            — Sabe, Frank, não sei se você sabe de uma coisa.

            — O quê?

            — Você é segundo melhor cantor de "New York, New York".

            — Tá maluco? E quem seria o primeiro?

            — É um rapaz de Niterói, cidade próxima daqui do Rio.

           Frank, incrédulo, ouviu aquela afronta e, mesmo com ímpeto de xingar o amigo, manteve a classe. Afinal, os dois haviam trabalhado em um disco há algum tempo. No entanto, aquilo perturbou suas ideias pelos próximos meses, até que, finalmente, soube que o tal cantor de Niterói iria fazer uma turnê pelos Estados Unidos. 

            O gringo tratou de comprar um ingresso na primeira fileira, bem em frente ao palco. Ele estava certo de que ninguém poderia cantar a famosa canção melhor do que ele. Não mesmo!

          Frank, após quase um mês de espera, assistiu ao show, que aconteceu à noite em Nova Iorque. Boquiaberto que ficou, assim que terminou o espetáculo, telefonou para casa do Tom, que, devido ao fuso horário, já estava nos braços de Morfeu.

            — Tom, desculpe por acordá-lo, mas eu precisava lhe falar.

            — Diga lá, Frank. O que aconteceu?

            — Você tinha razão.

            — Do que você tá falando?

            — Sou mesmo o segundo melhor cantor de "New York, New York". Esse Cauby é muito melhor do que eu. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um certo cantor de Niterói" foi publicado por Notibras no dia 12/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/um-certo-cantor-de-niteroi-de-nome-cauby/
  • O conto "Um certo cantor de Niterói" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 21/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/um-certo-cantor-de-niteroi/

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Jurema, a esposa traída

 

        Jurema andava furiosa por conta de traição do marido. Um traste, é verdade! Não tinha outra alternativa a não ser a separação. E foi com tamanha certeza que a mulher se dirigiu à casa da mãe, que, nesse caso, se chamava Joana. 

          — Mamãe, vou me separar!

          — Separar? 

          — Sim!

          — Do Getúlio?

          — E por acaso tenho outro marido?

          — Só quero ter certeza, minha filha.

          — O Getúlio é um cretino!

          — Não fale assim do seu marido, Jurema.

          — Pois fique a senhora sabendo que o seu genro querido me traiu.

          — Hum...

          — Hum o quê?

          — Tem certeza?

          — Certeza absoluta!

          — Olha que fofoca corre ligeira.

          — Não é fofoca, mamãe. Eu vi!

          — Viu o quê?

          — O Getúlio aos beijos com a Rita.

          — Rita? Que Rita?

          — A Rita, ué! Ou a senhora conhece outra Rita?

          — A diarista?

          — A própria!

          — Hum...

          — Hum o quê, mamãe?

          — Só isso?

          — Só? A senhora acha só?

          — Veja bem, minha filha, o Getúlio já está perto dos 50 anos, não é o que podemos chamar de homem que cuida bem da saúde. Ele é diabético, está muito acima do peso, não faz ginástica, gosta de tomar umas, fuma que nem um condenado...

          — E daí? 

          — E daí que ele também tem um excelente emprego.

          — Mamãe, e daí?

          — E daí que você tem tudo pra se tornar viúva, ainda mais se continuar satisfazendo os desejos do seu marido.

          — Desejos? Pois estou com nojo daquele traste!

          — Jurema, preste atenção, minha filha! 

          — Pois diga logo, minha mãe!

          — Se o seu esposo deseja torresmo, que você dê torresmo. Se ele quiser cachaça, que você encha o seu copo. Se ele quer doce, que você faça uma panela cheia de brigadeiro. Ah, e tem mais uma coisa.

          — O quê, mamãe?

          — Pegue este isqueiro para acender todos os cigarros do seu esposo. 

          Jurema parece que entendeu o recado. Tanto é que, a partir de então, tratou Getúlio como um rei, que poderia ter se tornado Momo no carnaval seguinte, caso não sucumbisse na virada do Ano Novo. Pobre homem, não resistiu. O velório foi breve; o enterro, logo em seguida. Quanto à viúva, desfruta a polpuda pensão em viagens pelo mundo, exatamente como a dona Joana havia previsto.

          — Minha filha, os transtornos passam, mas os benefícios ficam.