Pior é que os colegas
concordaram com a Laura. E lá fiquei eu com cara de boboca. Boboca? Pois é, meu
amigo, eis que aqui estou usando palavra do tempo do ronca, como se fosse
incapaz de escapar do que sou. Velho, aos 67 anos, justamente o que imaginei,
aos 10, o que meu pai fosse aos 36.
Meus
joelhos doem. Minha coluna suplica por uma aposentadoria digna. Empurro os
óculos para a ponta do nariz para tentar enxergar quando a velhice chegou.
Biologicamente, sei que morremos a cada dia, antes mesmo de chegarmos ao mundo,
porém somos ainda jovens e nem nos damos conta do inevitável para os de nossa
espécie que atrevemos a durar. E, por favor, não me entenda mal. Quero durar o
tempo que der e, se não for pedir muito, ainda mais um tanto para me esbaldar
com um pote inteiro de sorvete em Copacabana. Em frente ao mar, antes que o
corpo se derreta por completo.
— É isso aí, Laura!
— Maravilhosa!
— Você me inspira, Laurinha!
Tantas bajulações, e eu ali,
aquele desconforto típico de quem foi pego com um coringa extra na manga. Por
um instante, a dúvida de levantar ou não me consumiu. Queria sair dali, mesmo
que por um momento. Falariam de mim? Certamente! Mas o quê? "Vocês viram
como o Júlio tá razinza?", "Ah, isso é por causa da idade",
"Sério?", "É, meu avô ficou assim também". As frases
começaram a invadir a minha mente sem cerimônia, que não aguentei, me levantei
e fui até a copa tomar café. Precisava me acalmar me empanturrando de
cafeína.
Não me lembro
exatamente de quanto tempo fiquei por ali. Os ponteiros do relógio correm de
modo estranho quando estamos incomodados com algo, às vezes ansiosos; outras,
apenas com desejos honestos de pular de um viaduto.
Quando
percebi que precisava encarar o trabalho novamente, dei um último gole no café.
Aliás, deveriam melhorar a qualidade do pó por aqui. Seja como for, desprovido
da coragem como sempre, minhas pernas me arrastaram até a minha mesa. Tudo
parecia normal, mesmo que normalidade seja algo subjetivo. Emerson, um dos que
haviam enaltecido a jovialidade da Laura, se aproximou.
— Júlio,
esse processo está com você?
Devo ter
feito cara de esquisito, pois o meu colega deu dois passos para trás.
— Tu tá
legal, Júlio?
— Tô.
Ainda
ressabiado, mas decidido a obter a tal informação, ele insistiu.
— Veja se
esse processo tá aí com você, por favor.
Depois de
breve pesquisa, constatei que sim e, então, o entreguei ao sujeito. No entanto,
talvez para demonstrar camaradagem ou algo do tipo, pisei em um campo
desconhecido.
— E o
nosso Vascão?
— Tá maluco, Júlio? Sou Fluminense!
Nota de esclarecimento: O conto "Os estranhos ponteiros do relógio" foi publicado no Notibras no dia 1º/5/2026.
https://www.notibras.com/site/os-estranhos-ponteiros-do-relogio/

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